É possível separar artista da obra? J. K. Rowling celebra série de Harry Potter enquanto faz novos ataques a mulheres trans
Diego Souza Carlos
Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.

Prevista para chegar ao catálogo da HBO Max em dezembro, nova adaptação tem levantado questões relacionada ao posicionamento da autora quanto à comunidade trans.

O lançamento do primeiro trailer da série de Harry Potter foi como se jogassem água em um copo cheio, no qual tudo o que está no fundo sobe e transborda. Não é de hoje que os fãs e a audiência geral sabem que J.K. Rowling deixou de ser uma autora querida para se tornar uma ativista contra a existência de mulheres trans, uma mudança radical que parece fazer jus a alguns antagonistas da saga de fantasia.

Sempre que algo novo surge, a discussão volta e passamos a ver diferentes visões e lados dessa situação complexa. Apesar de muitos tentarem diminuir os atos da escritora a meras opiniões, a mesma tem investido pesado em ações práticas contra a comunidade LGBTQIAPN+ - algo que ela mesma nos lembrou no dia em que a prévia da nova adaptação foi divulgada.

J.K.Rowling celebra trailer e faz novos ataques

Reprodução

Enquanto o mundo parava para olhar novos rostos em personagens conhecidos, a autora celebrava não apenas a chegada da série, como uma decisão recente do Comitê Olímpico Internacional, que passou a proibir mulheres trans nas competições femininas dos Jogos Olímpicos.

“A decisão de hoje do COI significa um retorno bem-vindo ao esporte justo para mulheres e meninas, mas nunca me esquecerei do escândalo de Paris 2024, quando pessoas que se consideram extremamente virtuosas e progressistas aplaudiram publicamente homens agredindo mulheres”, publicou Rowling no X em referência ao episódio em que Imane Khelif pôde competir no boxe feminino há dois anos.

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O post foi feito 20 minutos antes dela responder um fã sobre o que pode-se esperar da nova série da HBO: "Vai ser incrível. Estou muito feliz com isso", escreveu ela, que está envolvida com o projeto como produtora executiva.

É possível separar a obra do artista?

Euan Cherry/Getty Images

Essa foi uma das questões que mais foram fomentadas nas redes sociais: a possibilidade ou não de separar a obra do artista. Afinal, Harry Potter se transformou em uma das franquias mais lucrativas e aclamadas da cultura pop ao longo das últimas décadas. No entanto, sua magia começou a perder força quando a autora assumiu a posição de ativista contra os direitos de pessoas trans. Sua atividade quanto ao posicionamento é prática, ultrapassando qualquer aspecto teórico ou apenas opinativo: há dinheiro envolvido e investido para organizações que atuam contra essa minoria.

De uma curtida em um post considerado transfóbico em 2018 até os dias atuais, a autora de Harry Potter teve uma série de ações que forçaram parte dos fãs a repensarem o apoio à artista e à série. Apoio a pesquisador que fez declarações transfóbicas, tweet que reforça um posicionamento que exclui mulheres trans dos direitos das mulheres, ensaios e o envolvimento político em políticas públicas contra essa comunidade são apenas alguns dos atos de Rowling nos últimos anos.

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Além de injetar dinheiro em organizações declaradamente anti-trans, em 2025 ela abriu um fundo para "direitos das mulheres baseados no sexo [biológico]". O Women's Fund "oferece apoio financeiro jurídico a indivíduos e organizações que lutam para manter os direitos das mulheres com base no sexo no local de trabalho, na vida pública e em espaços femininos protegidos".

Quanto a tudo isso, é difícil isolar a produção de algo tão devastador para pessoas que já sofrem com as mazelas da sociedade. Embora a escritora Roxane Gay afirme que “podemos amar uma obra e ainda assim reconhecer que seu criador causou danos”, isso ganha outra camada quando tais danos ainda acontecem e continuarão a todo o vapor enquanto houver investimento nisso.

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Neste conflito, muitos seguem debatendo se é possível separar o artista de sua obra cientes de que uma resposta fácil nunca será o suficiente. Afinal, cada um sabe o que faz e fará o que deseja acima de qualquer tipo de debate, apesar dele ou a partir dele. No entanto, é importante lembrar que as ações - mesmo que em pequena escala - podem afetar a vida das pessoas e se o amor por uma franquia está acima disso, essa questão já foi resolvida há muito tempo.

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