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    Olhos Azuis Entrevista exclusiva com José Joffily
    Por Francisco Russo — 27 de mai. de 2010 às 23:46

    Entrevista exclusiva com José Joffily

    José Joffily é um dos diretores mais atuantes do cinema nacional na última década. Agora ele retorna ao circuito com seu novo trabalho, o drama Olhos Azuis. O editor do Adoro Cinema Francisco Russo encontrou o diretor e bateu um papo sobre o filme. Confira logo abaixo. ADORO CINEMA: Este é seu segundo filme relacionado com os Estados Unidos, o anterior foi Dois Perdidos Numa Noite Suja. Como você vê a diferença do país como pano de fundo nestas duas histórias? JOSÉ JOFFILY: As histórias são muito diferentes. Um dia fiquei pensando se o Tonho não seria uma espécie de Nonato, a biografia dos dois poderia ser parecida. Mas de fato é curioso. Eu tinha um outro projeto, que naufragou, "Meu Nome Não é Joe", que era o personagem do imigrante. Não sei porque esta fixação com o imigrante. Eu sou migrante, sou paraibano, mas é migrante classe média e interno. Fato é que trata-se de uma questão muito contemporânea, o desejo de se movimentar para viver melhor. Acho que este sonho é legítimo, forte, intenso. Paradoxalmente em um país onde se fala que tudo é planetário as fronteiras se fecham. Há uma contradição maluca. O planeta foi esquadrinhado, com pobres para cá, ricos para lá. Você vê, acho que boa parte dos europeus gostaria que a África afundasse, para não chatear mais. O Marshall tem um discurso muito franco em relação a isto. Os Estados Unidos têm muito esta característica, é um povo muito assertivo, ele fala de fato o que pensa. O Marshall, nesta sinceridade desconcertante que ele diz e movido pelas condições físicas, é assim. A gente gravou uma versão que contava muito da biografia dele. A gente foi subtraindo estas informações, mas havia uma biografia. Ele era um homem sozinho, não tinha se casado, era meio que o protetor do Bob. Mas o personagem sempre teve esta característica, de representar o que é a classe média americana. A grande maioria silenciosa que deixou o Obama ser eleito e, na próxima eleição, estará maciçamente para impedir que o Obama se reeleja. O Marshall representa isso. AC: O que me fez lembrar de Dois Perdidos Numa Noite Suja foi que ele tem uma cena em que aparecem as Torres Gêmeas. Inclusive o filme foi lançado pouco depois do atentado. Isto foi um divisor de águas na questão de como tratar o imigrante nos Estados Unidos. José: Foi. A gente filmou primeiro no Brasil, os interiores. Depois montou o filme, mas deixamos pontas pretas com o que acontecia nos exteriores de Nova York. Lembro que fomos filmar o verão, em agosto, e quando saímos de lá, poucos dias depois, aconteceu a tragédia das torres gêmeas. Lembro que na hora em que vi aquela tragédia egoistamente pensei "como é que vamos ter continuidade para o filme?" Cabeça de cineasta é muito maluca. Mas na verdade não havia problema algum, porque com as torres era o passado do Tonho e quando as torres caem é o presente. Aí voltamos para filmar no inverno. O clima já não era o mesmo nos Estados Unidos, claro. Já tinham passado cinco meses, mas a cidade ainda tinha um climão provocado pela tragédia. AC: A questão da imigração existia naquela época também, mas de lá para cá piorou muito e ficou muito mais rígido. José: Ficou mais dura, você viajar hoje de avião virou um inferno. É preciso ter uma paciência monumental, viajar é muito complicado. E você se sente meio intruso, com aquela fila nos aeroportos. Eles reservam uma fila acelerada para os europeus e uns guichês para avaliação mais detalhada. Como o Marshall diz, os ingleses e franceses não querem entrar aqui no nosso país para conseguir empregos. AC: Foi desta observação que nasceu a ideia de Olhos Azuis? José: Não, a ideia do roteiro nasceu de um amigo que ficou lá em casa. Em 1998 ele foi deportado. Morava nos Estados Unidos, estava com o green card dele vigente e encontrou um Marshall pela frente. Aí foi deportado, veio para cá e não tinha para onde ir. Ele ficou hospedado na minha casa por três meses. Uma situação bizarra, porque ele tinha casa mas não podia ir para lá, pois era em Nova York. Neste período ele planejava o retorno e me contava os episódios de imigração, de como tinha acontecido. A origem do argumento foi esta. AC: Como foi a seleção do elenco estrangeiro? José: Tínhamos um coprodutor argentino, que fez a seleção do elenco por lá. Enviou uns DVDs para a gente, avaliamos aqui. Nos Estados Unidos contratei um agente para fazer a seleção e nos enviar DVDs com sugestões para o Bob, a Sandra e o Marshall. Depois fui lá para conversar com uns 10 atores. O gerenciamento desta questão é meio complicado, de trazer o ator. Tudo é uma demanda especial. Dá um pouco de trabalho, mas eu e a Heloísa Rezende tínhamos a certeza de que ter um elenco pertencente aos países dos personagens conferiria ao filme um sabor especial. Valeu a pena o esforço. Não foi tão complicado, mas foi demorado. Tinha que ser um bom ator para ser o protagonista. Uma estrelona não tínhamos condições de contratar, então tinha que passar por um processo de seleção objetivando encontrar um bom ator. O Bob e a Sandra eram importantes, claro, mas não tinham a importância de um protagonista. Então dedicamos mais atenção a ele. AC: O Irandhir Santos comentou que teve dificuldade com a língua, que você deu a ele um tempo para que aprendesse o inglês de rua. Teve mais algum caso deste tipo no elenco? José: A Branca Messina morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom. AC: O filme será lançado com 17 cópias. Qual é a sua expectativa em relação a público? José: Minha expectativa é zero. É um mercado muito afunilado e muito concentrado. Não me atreveria a dizer um número de espectadores que assistirão ao filme, teria que ter um conhecimento enorme do mercado. Mas certamente não há milagre. Para fazer um milhão de espectadores você tem que gastar um milhão de reais, ou seja, para cada espectador você gasta um real. Com sorte. Você pode não fazer e gastar um milhão, mas para fazer precisa gastar um milhão. Nâo existe algo que contrarie este pensamento. AC: Você tem vários filmes que foram premiados, exibidos em festivais, mas não teve um grande sucesso. Como é para você, como cineasta, esta questão? José: Lido bem, porque quero fazer os filmes que me interessam. Farei filmes melhores se eles forem com os temas que me interessam e piores se não me interessam. Eventualmente poderia até fazer, tenho artesania suficiente para fazer. Mas não me interessa. Então tenho também que considerar que já que resolvi fazer estes filmes o resultado deles certamente será diferente de uma comédia, que tenha uma aproximação maior com o público. Se bem que tenho pensado muito em fazer um outro tipo de filme. Às vezes acho que os filmes que faço são meio duros. O primeiro filme de ficção que fiz foi um curtametragem, uma comédia chamada Alô Teteia. Tinha 10 minutos, de 1978. Comédia rasgada, com a Louise Cardoso, o Hugo Carvana, Paulão e Anselmo Vasconcelos. AC: Seu próximo projeto então deve ser uma comédia mesmo ou tem algo mais em vista? José: Não, será uma comédia rasgada. Gostaria de fazer.

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