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    Lula, o Filho do Brasil Entrevista com Fábio Barreto
    Por Francisco Russo — 10 de dez. de 2009 às 22:05

    Entrevista com Fábio Barreto

    Promessa de sucesso de bilheteria, Lula, o Filho do Brasil gera polêmica por sua possível influência no resultado das eleições presidenciais de 2010. O ADORO CINEMA já conferiu o filme e entrevistou o diretor Fábio Barreto e os atores Rui Ricardo Diaz e Juliana Baroni, intérpretes de Lula e Marisa Letícia, respectivamente. As críticas serão publicadas perto da estreia que acontece no dia 1 de janeiro de 2010. Além dos editores Francisco Russo (FR) e Roberto Cunha (RC), do ADORO CINEMA, Lucas Salgado, editor do Confraria de Cinema.com , também participou do bate papo. Boa leitura! ROBERTO CUNHA: Na sua filmografia a presença feminina é marcante, como em O Quatrilho e A Paixão de Jacobina. Em Lula, o Filho do Brasil, cujo protagonista é um homem, ela está presente em Dona Lindu, mãe do personagem que tem destaque no filme. Esta divisão é a história do personagem ou tem dedo do diretor? FÁBIO BARRETO: Escolhi como primeiro plano da narrativa dramática a relação do filho com a mãe. As mulheres sempre tiveram uma predominância nos trabalhos que fiz, isto vem da força que a minha própria mãe tem na minha vida. Os personagens femininos me fascinam porque acho que a força está na mulher. Ela é mais forte que o homem. A divisão faz parte da história. Foi fiel e atendeu à minha necessidade. RC: Dona Lindu utiliza vários provérbios e metáforas no filme. Isto é verdadeiro? Fez parte da vida dela ou é licença poética para o personagem? FB: Ela era uma pessoa de tiradas, de ditos populares. Era muito positiva, não se deixava derrubar por nada. O "é só teimar" é o bordão do filme. O filme homenageia a teimosia do povo brasileiro, que teima em conseguir o que quer. A teimosia é uma grande virtude do ser humano, no fim das contas. RC: Até que ponto o filme se manteve fiel à realidade? FB: Não dá para ser fiel o tempo todo, pois as pessoas não lembram de suas vidas precisamente. E também é uma obra dramática, em que é preciso ver como contar aquilo de maneira dramática. Dentro de uma biografia você tem que ser econômico, pois há coisa demais. É preciso ter um poder de síntese muito grande, para focar no que é mais importante. Então tem que pinçar de cada vida as fases mais importantes, que teriam valor narrativo para ser alinhavado e contar a história. RC: Houve alguma cena que foi criada para o filme e, de fato, não aconteceu ? FB: A história dele peitar o pai e dizer que homem não bate em mulher foi criada pelo ator, isso nunca existiu. Fui testar o menino e ele, no meio do teste, veio com essa. Na hora disse para aproveitarmos a tirada. Ficou tão forte, tão legal. LUCAS SALGADO: Muito do filme está nas interpretações. Como foi a seleção do elenco? FB: Um dos pontos altos é o trabalho dos atores. Eles tiveram muita dedicação em um universo muito difícil. O universo sindicalista é muito particular. Conseguir ser verossímil, convincente, o sotaque popular, colocar atores de várias partes do país de forma homogênea... isso só foi possível graças ao magnífico trabalho do Sérgio Pena, preparador do elenco. LS: Como foi a escolha do Rui Ricardo Diaz, que entrou após a produção ser iniciada? FB: Tay Lopez seria o intérprete do Lula, mas ele tinha problema de hipertensão e não podia se submeter à dieta de engorda e emagrecimento. Ele começou a se descompensar e tive que afastá-lo do papel, recomeçando todo o processo de busca. O Rui chegou por acaso, através de uma fita entregue para o papel de enfermeiro. E depois falaram que poderia ser um sindicalista. Que nada... Quando vi o teste logo percebi que ele era o Lula. FRANCISCO RUSSO: A escolha por um ator desconhecido foi intencional? FB: Não queria um ator conhecido. Para um personagem na cara de todo mundo, presente, ele já traria uma bagagem. O Wagner Moura, por exemplo. Ele é o capitão Nascimento, as pessoas teriam dificuldade para dissociar. Não daria a credibilidade necessária. FR: Como foi o relacionamento da produção com o governo? FB: Não houve nenhuma participação. Pedimos autorização para fazer o filme, eles deram. Não teve aprovação de roteiro, nada. Eu, além do livro, fiz um trabalho profundo em cima da família. De convivência, relações específicas que queria saber de cada um... foi muito além do trabalho do livro. RC / FR / LS: Muita coisa tem sido dita sobre o lançamento do filme em pleno ano eleitoral e que ele poderia influenciar no resultado. Incomoda esta vinculação? FB: Este filme não foi feito para as pessoas saírem e falarem que vão votar em beltrano. Não é propaganda eleitoral, não estou nem aí para isso. Não fiz propaganda para o Lula ou a Dilma, o filme prova isso. Isso não me incomoda, se querem falar, falem. Para mim estão falando porque não tem o que falar, então qualquer coisa para falar mal, falam. Para mim o filme é muito mais importante que o processo eleitoral. Seja quem ganhar, o país vai pra frente, independente de quem estiver no poder. Agora, neste momento do Brasil, ninguém consegue deter o crescimento. O Lula tem 80% de aprovação popular muito antes do filme, não foi graças a ele. A situação é o contrário, é o filme que está tirando casquinha da popularidade dele. RC: No fim das contas, a polêmica acabou ajudando o filme. FB: Chamou a atenção. Se o filme fosse uma porcaria, ninguém iria dizer algo porque ninguém iria ver. FR: O Lula é uma personalidade mundial, o que faz com que outros países se interessem pelo filme. Como está o planejamento para seu lançamento internacional? FB: Ele lança em março na Argentina e no Uruguai, daí para o resto da América Latina. Tem tido muita solicitação na imprensa mundial. Já têm agendadas exibições na Austrália, no Parlamento Europeu em Bruxelas, na ONU e no Festival de Berlim, fora de competição. RC: Já há quem aponte o filme como representante brasileiro ao Oscar de filme estrangeiro de 2011. Está pensando nisso? Quais são as chances? FB: Não sei, depende do que decidir ano que vem a comissão. Eu adoraria. Há sempre uma expectativa, vamos ver no que vai dar. RC: Há uma grande expectativa em relação à bilheteria do filme, que possa bater todos os recordes recentes do cinema nacional. Qual é a sua expectativa? FB: Se chegar a um milhão para mim já é maravilhoso, é um fenômeno para cinema brasileiro. Quantos filmes brasileiros fazem um milhão de espectadores? Quatro ou cinco, tem ano que nenhum. FR: No Brasil os filmes demoram um bom tempo para saírem do papel. Qual foi o tempo de preparação de Lula, o Filho do Brasil? FB: Caímos no roteiro para valer em janeiro de 2008, começamos a filmar em janeiro de 2009. Terminamos em março. FR: O filme teria uma exibição no Vale Open Air, no Rio de Janeiro, que foi cancelada devido ao medo da pirataria. Como vocês estão lidando com esta questão? FB: Há um controle muito forte nas projeções já realizadas, estamos até vendo a possibilidade de instalar nas salas um equipamento que filma a plateia. Já tivemos que correr para fora algumas pessoas de projeções. LS: Como foi a experiência de exibir o filme para o Lula? FB: Foi ótimo, ele ficou bastante impactado. Ele entrou em um certo transe. É normal, assistir a sua vida passar na sua frente dá um certo barato.

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