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    "O Doutrinador não é um filme político", explica diretor sobre a história de um matador de corruptos (Exclusivo)

    Uma história fictícia, com ecos na vida real.

    Aline Arruda

    Na última semana, o AdoroCinema teve a oportunidade de visitar as filmagens de O Doutrinador, grande produção da Paris Entretenimento e Downtown Filmes com estreia prevista para o mês de setembro.

    A história é adaptada do quadrinho cult criado por Luciano Cunha e Gabriel Wainer. Mas enquanto o justiceiro da história original buscava vingança contra personalidades políticas muito específicas (Dilma Rousseff e Renan Calheiros, por exemplo), nos cinemas, a analogia à política nacional será mais amena. Nada de nomes conhecidos, nem uma cidade existente: o Doutrinador (Kiko Pissolato) faz justiça com as próprias mãos na fictícia Santa Cruz, visando políticos como o governador Sandro Correa (Eduardo Moscovis) e a ministra Marta Regina (Marília Gabriela).

    O local das filmagens - um gigantesco galpão abandonado no bairro da Mooca, em São Paulo - serve para recriar o QG de Miguel, onde se encontra com a hacker Nina (Tainá Medina) e planeja suas próximas ações de combate à corrupção. Durante mais de três meses de filmagens, este e outros espaços da capital paulista serão usados para o filme e para a série de mesmo nome, ambos dirigidos por Gustavo Bonafé, com co-direção de Fábio Mendonça.

    A cena que presenciamos trazia o traumatizado e ferido Miguel / Doutrinador, logo após uma ação. Ele acorda no galpão sujo e silencioso, acreditando estar sendo perseguido por alguém. Em outro momento, conversa com Nina sobre a melhor maneira de se aproximar dos políticos corruptos. Na direção, Gustavo Bonafé demonstrava incansável energia, conduzindo os atores, o diretor de fotografia, sugerindo elementos para a direção de arte e o som, enquanto prestava atenção nos mínimos detalhes. 

    Talvez a visita tenha sido curta para fazer comentários sobre a trama, mas deixa uma boa impressão quanto ao trabalho de fotografia e arte. Aproveitamos para conversar com Pissolato, Bonafé e Medina:

    Aline Arruda

    Kiko Pissolato: "O incômodo com situações de injustiça é muito próximo de mim"

    O Miguel é um personagem muito diferente de dia e de noite. Como você apresentaria essa variação dele?

    Kiko Pissolato: Todo herói tem um alter ego, a identidade secreta. No caso do Miguel, o Doutrinador nasce depois. O fato de ele andar à noite é uma questão de pura e simples necessidade, mas é justamente a dor do personagem, do Miguel, que faz com que o Doutrinador surja. Um é intimamente ligado ao outro. Não seria em qualquer circunstância que o Miguel se tornaria esse personagem.

    Assim como em qualquer história de super-herói, primeiro é preciso que haja uma ruptura na vida do sujeito, algo que faça com que ele tenha que se transformar. Normalmente é algo muito doloroso, e é justamente essa dor que faz o Miguel despertar para esse lado de querer fazer justiça com as próprias mãos. Os dois são a cara da mesma moeda, porque o Miguel deixa de ter o outro lado a partir do momento em que vira o Doutrinador. Ele passa a usar o disfarce durante o dia e não durante a noite: ele passa a ser um Miguel de mentira e um Doutrinador de verdade, quando assume a máscara. Se pudesse, ele seria só o Doutrinador, mas ele tem ainda que viver essa parte diurna.

    Para os fãs do Doutrinador dos quadrinhos, o filme traz muitas transformações na história original do Luciano Cunha.

    Kiko Pissolato: O material do Luciano chegou na minha mão no final de 2016, eu nem sonhava em fazer esse personagem. Nós temos um amigo em comum que também é escritor de quadrinhos. Ele me apresentou o trabalho do Luciano, de uma maneira despretensiosa, e até brincou, dizendo "O personagem é a sua cara". Na época, eu estava recém-operado de um acidente, nem pensava em fazer o projeto. Quando fui chamado para o teste, começaram a acontecer os “links”. O personagem foi atualizado um pouco, mas segue fiel às raízes com toda certeza. O fã do Doutrinador vai se sentir satisfeito com tudo a que vai assistir, não tenho a menor dúvida.

    Você se identifica com as atitudes do Doutrinador?

    Kiko Pissolato: Totalmente. É lógico que de uma maneira ficcional, fantasiosa. Eu sou pacifista, humanista, acredito que a mudança tenha que partir do interior de cada um. Mas essa busca por justiça, essa vontade de mudar e esse incômodo com as situações de injustiça são muito próximos de mim, sem falar no amor absoluto que tenho pela minha família, pelo meu filho, pelas pessoas à minha volta, pelo meu trabalho. Isso tudo me aproxima do Miguel. Ele é um cara intenso, passional, eu tenho isso muito próximo dele. Claro, as atitudes dele se revertem de uma maneira em que eu não acredito, não faria jamais, mas eu compreendo.

    O filme vai ser bastante sangrento. Que mensagem ele traz sobre a violência?

    Kiko Pissolato: A violência acontece dentro desse universo fantasioso. Nós temos que entender essa mensagem pela necessidade de exterminar esse câncer na sociedade, que é a corrupção. Mas de que maneira é possível fazer isso? Tirando esses caras do poder, buscando alternativas e, em primeiro lugar, alterando o próprio comportamento. A doutrina tem que acontecer de dentro para fora, nós temos a possibilidade de matar essas pessoas ideologicamente, figurativamente, metaforicamente. É nesse Doutrinador que eu acredito.

    Os espectadores vão ter a catarse de ver esses vilões mortos violentamente, e isso pode provocar um sentimento de descarrego, a ponto de analisarem e falarem “A gente não pode mais ter essas pessoas no poder”. A violência faz parte porque é um filme de super-herói, é uma HQ, não é diferente de nenhum outro tipo de super-herói. Neste sentido é próximo da série O Justiceiro, por exemplo. Acaba sendo um desejo dos fãs de ter bastante sangue, bastante violência, nessa ideia que povoa o imaginário das pessoas.

    A leitura do filme pode ser influenciada pelo lançamento próximo das eleições presidenciais?

    Kiko Pissolato: Por causa do momento que vivemos no cenário político, independente de ser próximo das eleições ou não, a nossa revolta já vai estar alimentada o suficiente. É um momento interessante, em que o debate político aflorou, e é importante discutir. Esta sociedade que não se interessa por política é governada por aqueles que se interessam, então precisamos assumir as rédeas e o controle da nossa vida. O momento é propício. Se fosse lançado no começo de 2018, teria um impacto profundo, e às vésperas das eleições também vai provocar esse sentimento ainda maior de indignação nas pessoas. Tomara que o resultado seja visto nas urnas também, com uma profunda mudança, que a gente tire esses caras de sempre. Acredito que seja por aí o caminho.

    Aline Arruda

    Tainá Medina: "Eles têm uma relação de parceiros, meio Batman e Robin"

    Qual foi a sua preparação para interpretar uma hacker que trabalha com o Doutrinador?

    Tainá Medina: Logo que eu soube dos testes, comecei a ver filmes sobre hackers. Vi muitos documentários sobre hackers para entender como era o universo real deles, e vi também ficções sobre esse universo, como Hackers (1995) e Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2011) para entender o estereótipo de hacker apresentado no cinema. Depois dei uma estudada em alguns termos.

    É lógico que eu não vou me tornar uma especialista, fui mais pela questão da personalidade, para compreender a Nina a partir da perspectiva de alguém que pensa matematicamente, imersa nesse universo de padrões, códigos. Isso faz com que ela veja padrões nas pessoas também, isso altera necessariamente a personalidade dela. Mas nós tivemos uma preparação de elenco com os outros atores, para criar camadas mais leves e desconstruir a imagem do hacker sombrio, soturno. Tenho muitos amigos geeks envolvidos com computador, e são pessoas leves, que bebem, saem à noite, têm um círculo de amizades.

    Qual a relação dela com o Doutrinador?

    Tainá Medina: Eles têm uma relação de parceiros, meio Batman e Robin. Ela ajuda ele e de uma certa maneira eles acabam criando uma relação afetiva também. Os dois são pessoas bem solitárias, no caso da Nina, por escolha. Ela é uma pessoa muito interessante, divertida, mas solitária, com um universo particular próprio. Além disso, por várias questões que acontecem com o Miguel durante a trama, eles se encontram e desenvolvem uma amizade. Eles são amigos e parceiros.

    Você se apoiou nos quadrinhos, ou apenas no roteiro?

    Tainá Medina: A história se modificou bastante no roteiro. De modo geral, é muito difícil conseguir publicar uma HQ aqui, por isso este filme é tão poderoso também: ele apresenta às pessoas um universo de HQ brasileiro muito interessante, para que as pessoas conheçam e fomentem. Eu, por exemplo, entrei no universo da leitura quando era criança através dos HQs, então acho muito importante nesse sentido.

    Tive um respaldo da HQ para entender mais ou menos como era a linguagem do Luciano, além de ler outras HQs interessantes para a personagem, como a Mulher-Gato. Ela é uma personagem muito forte. Enfim, quis pegar outras referências e entender a estética de quadrinhos. Mas primeiramente eu me ative ao roteiro por questões dramatúrgicas.

    A sua personagem vive na cidade fictícia de Santa Cruz. Como isso afeta a construção da Nina, o sotaque?

    Tainá Medina: Foi uma loucura! Fiz um acompanhamento com uma fonoaudióloga para neutralizar o sotaque, mas é uma coisa que tem ocorre a longo prazo. Eu não tento tirar meu sotaque carioca porque não tive tempo, nem teria como. A intenção é mais neutralizar os “r” e os “s”. No fim, a personagem fica com um sotaque de lugar nenhum: às vezes o espectador vai sentir um sotaque mais carioca, às vezes um sotaque paulista ou um sotaque gaúcho. Ela é uma pessoa que se mistura pela Internet, então a ideia do sotaque de lugar nenhum é interessante.

    Como você interpreta a visão política do filme?

    Tainá Medina: Esse filme propõe uma reflexão que todo mundo está tendo: não estamos satisfeitos e não sabemos muito bem o que fazer. Há uma raiva presa, uma vontade de fazer coisas que não necessariamente é sair atirando para tudo quanto é lado, é mais uma proposta de encararmos os fatos. Ao invés de nos dizer o que devemos fazer, o filme sugere uma tomada de posição. A Nina não atira em ninguém mas não é passiva, ela adota um posicionamento e é integra com ele.

    É óbvio que ninguém vai ser o Doutrinador. Ninguém vai chegar matando, até porque ele é um personagem fictício que sintetiza um monte de questões. Por conta das motivações, ele chegou a cometer crimes. É a mesma sensação que temos com o Batman, alguém que de uma certa forma toma as rédeas, que seria a nossa micropolítica.

    Acredita que todo mundo possa se identificar com os personagens?

    Tainá Medina: Sim. Os personagens são bem construídos, têm um traço de humanidade muito forte, muito real. Por estarmos no universo dos quadrinhos, nós buscamos trabalhar a força deles partindo da tristeza. A carga emocional dos personagens envolve perdas, saudade, amor, necessidade de carinho, algo que é muito presente hoje em dia. Todas as pessoas são carentes de afeto, de amor. A história diz muito sobre a sociedade em que vivemos.

    Gustavo Bonafé: "A intenção é expressar a revolta contra toda a classe política"

    Qual é a principal diferença dos quadrinhos para o filme?

    Gustavo Bonafé: O quadrinho desenvolve um pouco menos a questão familiar e dos conflitos psicológicos do Miguel. No filme existe uma parte mais emocional de construção de personagens. Mesmo assim, a gente trouxe muita coisa dos quadrinhos para o filme em termos de ambientação. O material original é muito mais direto, mas é natural do filme você ir atrás de mais camadas. 

    Além disso, a história do Luciano era mais ligada ao panorama político real. Para transformar o Doutrinador em um herói apartidário, preferimos criar um lugar fictício. Estamos no Brasil, mas numa cidade alegórica, capaz de despertar o sonho que está na cabeça das pessoas.

    Você diria então que este é um filme político, mas não partidário? 

    Gustavo Bonafé: Não é um filme político. Como os quadrinhos tinham uma relação mais direta com a realidade, buscamos o lado do anti-herói, para ser uma obra de ficção. Não tomamos nenhum partido, a intenção é expressar a revolta contra toda a classe política, seja ela de esquerda ou direita. É importante lembrar que se trata de entretenimento. Ninguém precisa se posicionar politicamente. A função do personagem é clara, que é combater os corruptos, e eles estão em todas as correntes partidárias. Não sei se isso vai gerar polêmica, não é a minha intenção. Como diretor, quero apenas contar essa história.

    A HQ serviu de base para a equipe técnica e para os atores? 

    Gustavo Bonafé: Sim, nós temos uma preocupação bem focada em extrair a estética dos quadrinhos. É óbvio que no filme existem possibilidades de movimento de câmera que não fazem parte do universo dos quadrinhos. Mas pensamos numa decupagem semelhante, no uso das cores, na máscara. Tentamos ser bem fiéis.

    Os atores tiveram contato com os quadrinhos, mas os personagens originais não têm a mesma profundidade psicológica. Sugeri como referência algumas adaptações de quadrinhos feitas lá fora, como o Batman do Nolan, de que eu gosto muito. Esse filme perambula entre os quadrinhos e uma filmagem de cinema. Este é um universo típico de super-heróis, mas você quase se sente no mundo real.

    Pensando em grandes produções brasileiras estreladas por anti-heróis violentos, talvez o primeiro exemplo que venha a cabeça seja Tropa de Elite. 

    Gustavo Bonafé: Tropa de Elite tinha uma fidelidade com o mundo real maior do que a nossa. Ele foi filmado daquele jeito mais realista, era mais veiculado aos fatos do país. Tinha um estilo mais documental, se posso dizer assim. Nosso caminho é mais fictício mesmo. Pelo fato de termos um anti-herói, espero que seja semelhante, mas a gente não está trabalhando com uma linguagem de câmera parecida. É outro gênero.

    Mas eu gosto do anti-herói porque ele contradiz a imagem do herói perfeito. O Doutrinador é violento mesmo, porque algo nele se libertou. A título de comparação, talvez exista uma jornada interna semelhante a Um Dia de Fúria (1993), porém aplicada à corrupção. Nossos personagens caminham nessa linha sutil entre o bem e o mal. Na vida real, a diferença entre os dois é muito tênue. 

    Além de trabalhar num filme, vocês estão filmando uma série. A história vai além do que veremos no cinema. Existe a possibilidade de O Doutrinador se tornar uma franquia?

    Gustavo Bonafé: Bom, neste caso, só quem realmente pode responder é a produtora executiva, Renata Rezende. Acredito que para todo projeto de cinema hoje em dia, caso faça sucesso, a ideia seja continuar. Não imagino que as portas estejam fechadas para uma sequência.

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