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    A Garota Desconhecida: "Todos temos culpa, mas de certa forma não fazemos nada", afirmam os irmãos Dardenne (Entrevista exclusiva)
    Por Francisco Russo, com a colaboração de Renato Furtado — 25 de fev. de 2017 às 10:53

    Conversamos com Jean-Pierre e Luc Dardenne, dois dos diretores europeus mais reconhecidos na atualidade.

    Jean-Pierre e Luc Dardenne, irmãos gêmeos que fizeram história ao ganhar duas vezes a cobiçada Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes, por Rosetta e A Criança. No Festival de Cannes 2016, a dupla esteve de volta à mostra competitiva com seu novo longa-metragem: A Garota Desconhecida, já em cartaz nos cinemas brasileiros.

    O AdoroCinema pôde conversar com os Dardenne em plena Croisette, onde falaram sobre seu método particular de trabalho, como foi a construção da personagem principal e o sentimento de culpa que permeia a sociedade. Confira!


    MÉTODO DARDENNE DE FAZER CINEMA

    Quem conhece os filmes dirigidos pelos Dardenne, sabe bem que eles possuem características muito próprias: bastante câmera na mão, closes fechados, poucos personagens e uma fotografia naturalista, muitas vezes com a luz estourando na tela. Mas como é o método de trabalho deles, antes de iniciar as filmagens? "Nós escrevemos os personagens, construímos as situações ao redor deles e paramos por aí. Fazemos algumas anotações sobre esses personagens e essas situações; quando decidimos fazer o filme, relemos o que escrevemos e revisamos isso. É como cozinhar", explica Jean-Pierre.

    "A câmera neste filme é mais passiva do que nos outros filmes que fizemos porque, assim, podemos registrar mais das suas atitudes. É por isso também que não há música. Temos os sons dos ambientes, mas não há música. Até existe uma canção, mas o silêncio é muito mais importante neste filme. Se não há silêncio na música, não há música", complementa.



    CONEXÃO COM REFUGIADOS

    Em A Garota Desconhecida, a médica interpretada por Adèle Haenel fica cada vez mais obcecada em descobrir a identidade de uma garota que, após ir à clínica em que ela trabalha, não foi atendida por já ter encerrado o horário de funcionamento. Logo em seguida, a garota sem nome é encontrada morta. Luc Dardenne admite que há nesta história uma conexão com a situação dos refugiados na Europa.

    "Há uma ligação entre o filme e a questão atual da imigração e dos refugiados, mas quando nós começamos a trabalhar no filme, a problemática não era tão grande e urgente como é hoje em dia. Porém, com certeza há uma ligação porque o filme retrata uma garota desconhecida, que não tem documentos e é uma refugiada."


    UMA HISTÓRIA DE CRIME

    "Nosso ponto de partida era uma médica que faz uma investigação através dos métodos médicos ao invés dos métodos policiais", explica Luc Dardenne. "Vemos isso logo no primeiro plano do filme: ela ouve o corpo das pessoas, ouve a respiração dos pacientes, toca, sente as batidas do coração, mede o fluxo da corrente sanguínea. E, além disso, ela jurou não quebrar o privilégio entre paciente e médico. Foi daí que partimos."

    "É uma investigação feita por uma médica e nós tivemos que focar nos métodos dos quais um médico disporia nessa situação. Se você pensa nos gêneros padrões, como os filmes de crime, A Garota Desconhecida está fora dos gêneros cinematográficos. Jenny investiga através do silêncio e de sua espera pelas respostas às perguntas que faz às pessoas. Essa é a missão que ela toma para si", explica o diretor.


    SENTIMENTO DE CULPA

    Um dos aspectos que move Jenny em sua jornada pela identidade da garota desconhecida é o imenso sentimento de culpa que possui por não tê-la atendido quando foi à clínica em que trabalha. "É bom se sentir culpado, não há nada de errado nisso, somos seres humanos. E sentir culpa pode impulsionar a ação", comenta Jean-Pierre Dardenne.

    "Nosso filme é sobre as ações concretas. Creio que todos os meios de comunicação, com as imagens que veiculam sobre os refugiados que chegam às praias, a imagem da criança que morreu na praia, têm muito poder, são muito importantes hoje em dia. O mar Mediterrâneo tem mais cadáveres do que peixes hoje em dia. Então, o que podemos fazer? Todos temos culpa, mas, de certa forma, não fazemos nada. O que Jenny faz é o que pode ser feito, faz coisas concretas, simples. Ela não renuncia a seu trabalho, continua fazendo o que uma médica faz. Para fazer uma relação com a nossa situação, acho que nós precisamos fazer coisas concretas em nossos bairros e em nossas cidades para ajudar a humanidade", complementa Luc Dardenne.

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