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    Animações infantis reforçam estereótipos sociais e de gênero, conclui estudo acadêmico
    Por João Vitor Figueira — 25 de abr. de 2016 às 14:26

    Pesquisa foi realizada pela Universidade de Duke, nos Estados Unidos.

    Aladdin, um homem pobre que tem que roubar para comer, se identifica com os dramas de Jasmine, que vive em um palácio insatisfeita por não poder "escolher como se vestir". Os sete anões da Branca de Neve trabalham numa mina, um dos empregos mais arriscados do mundo, o dia inteiro com canções nos lábios e muita alegria e disposição. Em Cinderela, uma jovem deixa de ser faxineira para ganhar roupas caras e viver um casamento dos sonhos com um membro da realeza.

    De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Duke, no estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, "na terra da Fantasia, a desigualdade é benígna".

    A socióloga Jessi Streib analisou o conteúdo de 36 filmes, produzidos por Disney, Pixar e produções de outros estúdios voltados para crianças para entender quais classes sociais eram representadas ali. O critério foi escolher filmes que receberam a classificação indicativa "Livre para todas as idades" que arrecadaram mais de US$ 100 milhões nas bilheterias americanas até o dia 1º de janeiro de 2014. Entre os filmes analisados estão animações O Rei Leão, Procurando Nemo, A Bela e a Fera e Pocahontas, e filmes com atores como os clássicos A Noviça Rebelde e Mary Poppins.

    O estudo descobriu que os filmes apresentam uma visão suavizada sobre as classes sociais, focando em narrativas meritocráticas, onde personagens que obedecem às regras são recompensados com uma grande prosperidade economica.

    Para Streib, que leciona Sociologia na Universidade de Duke, a forma leniente em que diferenças sociais são mostradas nos filmes é ruim para as crianças. "Ser pobre não é um problema. Ser da classe trabalhadora te faz feliz. Todos aqueles que querem prosperar, são ambiciosos e são boas pessoas vão conseguir. E os ricos ajudam, com alegria, todos os outros. Obviamente, não é assim que o mundo funciona."

    A pesquisa indica que, dos 67 personagens principais do filmes analisados, 38 poderiam ser lidos como de classe alta ou média alta, 11 seriam da classe trabalhadora e somente três personagens seriam entendidos como pobres. "Os personagens da classe trabalhadora amam servir os da classe alta, e os ricos fazem o seu melhor para protegê-los", disse Streib em entrevista para a revista Carta Educação.

    "A desigualdade existe nos filmes, só que ela não tem quaisquer implicações negativas. Os personagens pobres não experimentam vidas particularmente difíceis, e os problemas da pobreza não são piores do que os problemas dos privilegiados", explica a socióloga. Outro problema apontado por ela são que os casamentos em filmes de princesas acontecem de forma artificial. "Fica sugerido que as classes superiores estão abertas para casar e compartilhar seus recursos com pessoas de qualquer classe. Uma vez que eles se casam, suas diferenças sociais não causam qualquer atrito, e eles vivem felizes para sempre."

    A reportagem da Carta Educação aponta ainda um estudo realizado por duas linguistas americanas,  Carmen Fought, do Pitzer College, e Karen Eisenhauer, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, que mostra que, mesmo em filmes protagonizados por personagens femininas, as mulheres podem ser minoria.

    As pesquisadoras analisaram filmes da Disney e os separaram em eras. A Era Clássica cobre de Branca de Neve (1937) a A Bela Adormecida (1959); a Era Renascentista, cobre de A Pequena Sereia (1989) a Mulan (1998); e a Nova Era, cobre de A Princesa e o Sapo (2009) a Frozen (2013). De acordo com o levantamento, de A Pequena em Sereia em diante, os personagens masculinos tiveram, em média, três vezes mais falas que os femininos. Tomando como exemplo a bem sucedida animação Frozen - Uma Aventura Congelante, no filme, 32 personagens masculinos contra 17 femininos.

    Fought e Eisenhauer também fizeram conclusões positivas. Embasadas no estudo, a acadêmicas afirmam que nos filmes da chamada Era Renascentista as princesas são mais elogiadas por suas habilidades do que por conta de sua beleza. Na Era Clássica 55% dos elogios se destinavam a comentar características físicas. Na Nova Era, 40% dos elogios tratam sobre habilidades e uma minoria, apenas 22%, se refere a beleza física.

    Entretanto, ainda há pouca diversidade entre as princesas, visto que a maioria das personagens são brancas, magras, de cabelos lisos e de olhos claros.

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