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    Exclusivo: Todd Haynes explica a história de amor "delicada e precária" de Carol, um dos favoritos ao Oscar
    Por Bruno Carmelo — 9 de jan. de 2016 às 09:00

    Conversamos com o diretor sobre o belíssimo filme com Cate Blanchett e Rooney Mara.

    Divulgação

    Em 14 de janeiro, chega aos cinemas o drama Carol, novo trabalho do diretor Todd Haynes. Depois de experimentar os dramas de época com os premiados Longe do Paraíso e Mildred Pierce, ele passa a esta adaptação de um romance de Patricia Highsmith ambientado nos anos 1950.

    Carol traz o romance inesperado entre uma mulher rica e casada (Cate Blanchett) e a jovem vendedora de uma loja de departamento (Rooney Mara). No conservador período pós-Segunda Guerra, o romance entre duas mulheres precisava ser escondido da sociedade, para evitar escândalos.

    O filme tem acumulado dezenas de prêmios e indicações: ele está indicado a cinco Globos de Ouro, nove prêmios no BAFTA e foi eleito o melhor filme do ano pelos críticos de Toronto e Nova York, além de ter levado o prêmio de melhor atriz (Rooney Mara) no festival de Cannes. O filme certamente será lembrado em diversas categorias do Oscar. Leia a nossa crítica.

    O AdoroCinema teve o prazer de conversar em exclusividade com Todd Haynes. O simpático e inteligente cineasta explicou a atmosfera delicada do filme, contou como as atrizes participaram dos aspectos técnicos de Carol e comentou a luta das mulheres por igualdade em Hollywood. Confira abaixo, após o trailer oficial:

    A construção de época parece ser fundamental neste filme. Como foi o trabalho de pesquisa para criar o ambiente dos anos 1950?

    Foi difícil, e muito importante. É uma parte do processo que eu adoro. Tenho a impressão de que passo a viver nesse período, porque presto atenção a cada detalhe enquanto faço o filme, para tentar tornar o ambiente o mais realista possível para o elenco. Eu já tinha feito um filme passado nessa época, Longe do Paraíso, que acontecia no fim dos anos 1950, mas foi interessante em Carol o fato de se passar no começo dos anos 1950. A ideia veio à escritora Patricia Highsmith quando ela trabalhava na loja de departamentos Bloomingdale’s, em 1949. A história de Carol surgiu nessa época, quando ela viu uma mulher elegante chegar e comprar roupas para a sua filha.

    Esta trama ocorre mais no fim dos anos 1940, um tempo silencioso nos Estados Unidos. As imagens que encontramos de Nova Iorque na época mostravam uma cidade cansada, cinzenta, meio estressada. Achei isso muito interessante, em oposição aos tons coloridos e ensolarados da era Eisenhower. Isso se tornou uma realidade que quis trazer ao filme, junto do frágil início de um relacionamento amoroso entre duas figuras inesperadas.

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    Além dos figurinos e cenários, o som tem um papel fundamental em Carol, tanto nos momentos de silêncio quanto no uso da trilha sonora de Carter Burwell.

    De fato, o som é muito importante. Existe uma pesada atmosfera de restrição, então tudo precisa ser feito de modo delicado. Não existem grandes eventos nesta história: a arma em cena nem mesmo dispara. Os pequenos eventos têm um impacto maior, e isso marcou todo o estilo do filme. Quando trabalhei com o editor, o brasileiro Affonso Gonçalves – que fez um ótimo trabalho, aliás – ele provou ter um ótimo tato para a escolha de música. Juntos, nós selecionamos canções temporárias, sugestões de trilha enquanto montávamos. Isso ajudou a criar o ritmo e a melodia, para percebermos quando era necessário ter música, e quanto não era preciso.

    Eu já tinha trabalhado com Carter Burwell duas vezes antes de Carol. Ele estava envolvido desde o início: quando enviei o roteiro, também uma porção de músicas da época, como sugestões para ajudá-lo na pesquisa o máximo possível. Burwell começou a ouvir as canções temporárias que colocamos na montagem, então propôs um tema, que trazia sempre para nós. A gente colocava nas cenas para ver se funcionava. As melodias mais minimalistas e simples eram as que funcionavam melhor.

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    Numa entrevista recente, Cate Blanchett disse que você foi o grande responsável por deixá-la tão à vontade na criação da personagem. Como foi o trabalho com o elenco?

    São elas que me deixaram à vontade! Elas são atrizes muito dedicadas e preparadas, são verdadeiras parceiras no processo criativo. Elas prestaram muita atenção em todos os aspectos visuais: mesmo com meu livro de imagens de referência, e na pesquisa que preparei para os setores técnicos. Elas deram muitas sugestões sobre a atmosfera e o ritmo dessa história. Não sei se todos os atores se importam com esses aspectos tanto quanto Cate e Rooney, mas elas realmente queriam saber onde estava a câmera, onde seria o enquadramento e porquê, e o quanto elas podiam se entregar em cada cena. Nós compartilhamos muitas impressões uns com os outros.

    Os mundos de Carol e de Therese são muito diferentes: existem muitas cenas no mundo de Carol, e outras separadas, no mundo de Therese. Elas não testemunharam os mundos uma das outras enquanto filmávamos. Quando finalmente filmamos as duas juntas, havia um sentimento real de ansiedade e tensão. Tudo isso pode ser percebido na atuação das duas, especialmente quando estão juntas.

    Fala-se muito em Carol como uma história de amor entre duas mulheres, mas também existe o fato de pertencerem a classes sociais distintas. Isso também é um tabu essencial no filme.

    Acredito que sim. Além disso, existe a diferença de idades, que é um fator importantíssimo. Carol é mais velha, mais rica, e tem uma família, uma filha. Ela possui mais comprometimentos e mais história em sua vida, são ligações complicadas. Isso cria um desnível fundamental entre as duas. É quase possível pensar o que raios elas estão fazendo juntas! O que elas têm em comum, sobre o que poderiam conversar? Carol e Therese não possuem os elementos que normalmente atraem duas pessoas. Isso transforma o desconhecido e a incerteza sobre o que estão fazendo num fardo ainda maior. Como você disse, a questão vai muito além do fato de serem duas mulheres. O relacionamento se torna ainda mais delicado e precário.

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    No último ano, várias atrizes de destaque têm se posicionado pela igualdade de tratamento às mulheres em Hollywood. Cate Blanchett, Charlize Theron, Kate Winslet e outras falaram sobre as diferenças de salários e oportunidades nos filmes. Como você vê esta situação?

    É ótimo ver tantos filmes este ano estrelados por mulheres que estão se saindo bem, inclusive com a crítica. As coisas nem sempre acontecem assim. É importante poder falar sobre equilíbrio num ambiente de trabalho, que seja em Hollywood ou qualquer outro lugar. Este é um desafio, porque as desigualdades precisam ser constantemente discutidas.

    Mas é interessante como estamos reinventando a roda no que diz respeito aos direitos das mulheres! Quantas vezes teremos que lembrar que estes problemas ainda existem? É como se nunca tivéssemos falado nisso antes. É um processo contínuo de amnésia na sociedade, que está constantemente redescobrindo esses temas como se fossem novos.

    Carol aparece como um dos favoritos ao Oscar. A mídia tem comentado a possibilidade de Rooney Mara concorrer como atriz coadjuvante, embora ela seja tão importante à trama quanto Cate Blanchett. Como avalia esta escolha?

    Eu tenho minhas opiniões pessoais sobre esse assunto, mas prefiro não somá-las à polêmica. Esta é uma discussão de marketing: as premiações constituem um processo estranho e antinatural, onde algumas coisas são distorcidas. Sim, Rooney é tão importante para a história quanto Cate. Nem sempre é fácil colocá-las em uma posição na qual têm que competir uma com a outra, com as pessoas perguntando quem atuou melhor. Acredito que, ao separá-las em categorias distintas, as duas atuações podem ser apreciadas em seus próprios méritos, sem precisar forçar uma comparação entre ambas.

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