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    Opinião: Cinema e política se misturam?
    Por Bruno Carmelo — 25 de out. de 2014 às 10:00
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    Em época de eleições, diversos filmes políticos disputam a atenção do espectador.

    Você já deve ter ouvido mais de uma vez que “cinema é diversão”, que o público entra na sala escura para esquecer os problemas, e não para pensar no mundo lá fora. Pensando assim, a política não seria tema ideal para o cinema popular – com exceção talvez das paródias. Mas nesta época de eleição presidencial, parece que as pessoas nunca discutiram tanto política. As redes sociais têm contribuído à proliferação de discursos sobre todo o tipo de ideia, com as mais imagináveis piadas, memes, mentiras, acusações, retratações. Para quem diz que brasileiro não gosta de política, talvez nunca uma eleição tenha sido tão politizada.

    O cinema, obviamente, acompanhou a tendência. Vários filmes de temática política foram lançados nas salas neste período, para aproveitar a discussão de ideias e de candidatos. Isso não é novidade em um período eleitoral, mas talvez a quantidade tenha sido ainda maior nesta safra. Filmes estrangeiros como a sátira italiana Viva a Liberdade e o drama argentino O Estudante tentaram aproveitar os temas da incredulidade política e das revoltas populares entre jovens. São temas que podem encontrar eco nos nossos tempos, embora sejam essencialmente atemporais.

    Sem Pena, O Mercado de Notícias, De Menor, Viva a Liberdade

    Político bom?

    Mas são os filmes nacionais que refletem melhor a nossa realidade. O Mercado de Notícias alerta para as derivas da mídia em períodos eleitorais, Sobrevivi ao Holocausto relembra os tempos da ditadura no ano que o golpe militar completa 50 anos, De Menor debate a redução da maioridade penal, Sem Pena questiona o sistema carcerário, À Queima Roupa evidencia os abusos da polícia. São filmes de pequeno porte, que juntos não devem ter sido vistos por mais de 100 mil pessoas. Mas tampouco tinham essa pretensão: estes filmes ocupam um lugar necessário no circuito de arte, quando a arte e o discurso político se completam. Talvez nem todo mundo procure diversão no escurinho do cinema.

    O mais surpreendente foi a presença de uma comédia popular com esse tema: O Candidato Honesto, estrelado por Leandro Hassum. Partindo de uma premissa facilmente identificável (um mentiroso que não pode mentir), o filme tentou surfar na onda crescente de pessoas que acreditam na desonestidade fundamental dos políticos. Sabe a ideia de que “político não presta, é tudo ladrão?” Pois é. Não se busca entender como o sistema político poderia ser mais transparente, mas defende-se, sem surpresas, que o eleitor escolha candidatos honestos ao invés de mentirosos (falta descobrir exatamente como detectar cada um deles).


    Do cinema às urnas

    O Candidato Honesto já atingiu 1,5 milhão de espectadores. O resultado é impressionante, principalmente pela temática, indicando não apenas que o brasileiro médio está mais aberto à temática política (mesmo que seja para detestá-la), mas também que o discurso sobre pureza e corrupção na política gerou identificação. É difícil saber se estas obras surtem algum tipo de efeito nas urnas, ou nas consciências. Será que alguém vai buscar candidatos melhores por causa de Leandro Hassum? Ou mudou de ideia após ver o potente Sem Pena? Talvez estes discursos preguem apenas para convertidos: quem vai ver um filme sobre políticos desonestos já deve acreditar que os políticos são assim, quem busca um debate sobre sistema carcerário deve ser mais aberto ao tema. Quanto aos desavisados que assistem a estas produções por acidente... Bem, devem ser tão raros que nem entram na margem de erro. Nem nos Estados Unidos um filme conseguiu eleger alguém: apesar do famosíssimo Fahrenheit 9/11, Michael Moore não conseguir impedir que George W. Bush chegasse à presidência.

    Este ano, até Hollywood está se misturando na política brasileira. Os três principais candidatos à presidência receberam apoios de pelo menos uma celebridade norte-americana cada, sem falar em inúmeros atores e atrizes brasileiros. Todos eles foram felicitados por alguns, criticados por outros, e despertaram dúvida sobre a sua influência: alguém vai enxergar um candidato com melhores olhos por ter apoio de uma estrela que nem conhece muito bem o nosso país? Que interesse eles têm em manifestar esse apoio? Quem os convidou a se manifestar? O uso da mídia como arma política nunca foi tão explícito.

    De qualquer maneira, parece positivo que a política seja debatida abertamente, que dê espaço a mais humor, mais descontração. Talvez com os memes, os gifs, as piadas, as notícias e as respostas, a política pareça menos ameaçadora, menos séria e suja, e se torne mais próxima de todo mundo. É ótimo que o cinema participe desse processo, tanto em seus filmes sérios e profundos, quanto nos menos pretensiosos. Alguns desses filmes poderiam ser melhores, com uma discussão mais profunda – mas aos poucos o cinema brasileiro chega lá.

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    Comentários
    • Gustavo M.
      Acredito que o único diretor brasileiro que tem uma sinceridade critica e honesta á falar sobre politica é sem dúvida José Padilha, que até politica americana já criticou em seus trabalhos.
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