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    Entrevista exclusiva: Emília Silveira, diretora de Setenta, fala sobre cinema, ditadura e História do Brasil
    Por Bruno Carmelo — 26 de mai. de 2014 às 13:00
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    O documentário Setenta resgata histórias pessoais durante a ditadura militar.

    Mário Miranda Filho

    Chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 29 de maio, o documentário nacional Setenta. O título se refere ao grupo de setenta jovens brasileiros que se tornaram presos políticos em 1970 por causa do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, e foram enviados ao Chile após uma tensa negociação com o governo militar.

    Cerca de quarenta anos depois, a diretora Emília Silveira - ela mesma uma ex-presa política - decidiu conversar com vinte destas pessoas, para saber como se lembram da época. A intenção, de acordo com a cineasta, não é fazer um filme histórico, mas um mosaico de lembranças pessoais sobre esse período sombrio da História do país. 

    Emília Silveira conversou em exclusividade com o AdoroCinema sobre o projeto e sobre as dificuldades encontradas pelo caminho. Confira:

    Origem do filme

    "O projeto nasceu dez anos atrás, quando eu encontrei um amigo, que era um dos setenta. Ele me disse que o grupo era eclético, complexo, e que se reunia sempre. Eu fui a uma dessas reuniões e gravei. Dias depois, comentei sobre essa história com outro amigo meu, ele me disse que conhecia um filme dos anos 1970 sobre esse caso. Aí eu achei que era coincidência demais! Eu corri atrás dessas imagens, era um filme do Haskell Wexler, um grande fotógrafo americano, e do Saul Landau, chamado Brasil: A Report on Torture.

    Eu comecei a me reunir com esse pequeno grupo dos setenta, e chamei a minha amiga e repórter Sandra Moreira. Como eu sou ex-presa política, eu não queria fazer um filme sobre o meu umbigo, e precisava de alguém para me dizer “não”, para fazer isso comigo. Essa não é a minha história, é a história da minha geração. Eu quis tratar dessa questão que o Brasil tratou pouco. Esta questão não é histórica, mas sobre as pessoas. Quem eram esses jovens, que viveram a revolução, entraram numa guerra, perderam e deram a volta por cima?"

    Sem ideologia

    "Eu assisti a praticamente todos os filmes que existem no Brasil sobre [a ditadura]. São filmes extremamente bons, mas sempre de um ponto de vista ideológico, com alguém que parte de uma ideia pronta para fazer um filme a partir disso. O que eu queria, é que o filme penetrasse nessas almas, nessas pessoas, e que surgisse desse contato entre a câmera e aquelas vidas. Eu não sabia o que seria o filme. Eu não tinha uma ideia preconcebida, eu só sabia que eu não queria vitimizar ninguém, nem convencer ninguém de nada".

    "É difícil fazer cinema no Brasil..."

    "O maior desafio foi achar o produtor, e o dinheiro para fazer o filme. Quando consegui o produtor, o Cavi Borges, eu fiz umas parcerias bacanas. O maior desafio foi o nosso desconhecimento de como é difícil fazer cinema no Brasil. A parte legal, burocrática, a demora... Nós éramos amadoras nisso e o Cavi nos ajudou muito, mas a parte executiva foi nossa responsabilidade. Eu fiquei impressionada como é complicado, como as leis são pouco claras.

    Isso foi ainda mais difícil do que pegar essas feras, fazer com que relaxassem, que eles se humanizassem diante da câmera. A solidão como diretora é interessante, porque eu sempre trabalhei em grandes equipes. Eu sou diretora geral na televisão. Mas no cinema, existe uma solidão muito grande".

    Lançamento do filme 50 anos após o golpe

    "É uma feliz coincidência. Isso não foi planejado. Eu não acho que Setenta tenha uma importância maior do que outros filmes e outras coisas já produzidas no Brasil sobre o golpe. A importância do filme no momento, junto da Comissão da Verdade, é o de ser mais um arquivo que se abre da história da ditadura. É chegar aos jovens, às escolas. Eu apresentei o filme em uma escola, onde um garoto de 17 anos me perguntou o que era a ditadura. Ele ainda não sabia! O filme é importante para marcar os 50 anos do golpe, mas cada filme feito sobre o assunto vai ajudar a recuperar esta história recente que nem sempre a escola ensina.

    Hoje, nas escolas militares, ainda se fala em revolução redentora da democracia em 1964. Isso nas escolas militares de hoje! É muito grave... Como o Ministério da Educação não vê isso? Como uma geração jovem continua perpetuando essa visão fascista, velha, ultrapassada? O papel do Setenta é esse: ele é mais neste movimento, como a Comissão da Verdade, a Comissão da Anistia. Ele está ligado ao filme da Flávia Castro (Diário de uma Busca), do Silvio Tendler (Jango). É mais um recorte, por menor que seja, para pensar a história recente do Brasil".

    Imagens: Marcelo Montecino

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