Karim Aïnouz traz ao Brasil Rosebush Pruning, seu segundo longa-metragem em língua inglesa depois de O Jogo da Rainha. No novo filme, o cineasta dirige um elenco internacional que reúne Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning, Pamela Anderson e Tracey Letts. O longa teve sua première mundial na competição do Festival de Berlim e chegou ao Brasil como parte da programação do Festival do Rio 2026.
Para Karim trabalhar com estrelas internacionais e em outra língua não significa necessariamente transformar sua maneira de fazer cinema. Em conversa com o AdoroCinema, o diretor explicou por que fez questão de preservar seu método de ensaios e revelou que a principal diferença aparece em algo muito mais sutil.
Também refletiu sobre o que enxerga de particularmente brasileiro em Rosebush Pruning, algo que, para ele, passa pelo humor e por uma relação mais despudorada com os corpos.
O cineasta falou ainda sobre sua relação afetiva com o Festival do Rio, a curiosidade em descobrir como o público brasileiro vai reagir ao humor desconfortável do filme e relembrou como o elenco conseguiu surpreendê-lo durante as filmagens. Confira a entrevista completa.
MUBI
Entrevista com Karim Aïnouz sobre Rosebush Pruning no Festival do Rio
ADOROCINEMA: Karim, quando você trabalha com um elenco internacional, filma fora do Brasil ou dirige em outra língua, o que muda no seu processo como diretor? Existe algum aspecto que se torna especialmente desafiador para você?
KARIM AÏNOUZ: Não muda nada. Sabe por quê? Porque eu acho que é sobre como você coloca as regras do jogo.
A primeira vez em que pensei em fazer um filme que não fosse em língua portuguesa foi em Firebrand, que fiz há quatro anos, com um elenco gigante. Atores ingleses espetaculares, tanto no sentido de fama quanto de experiência, grandes atores que tinham feito Shakespeare. Foi um privilégio trabalhar naquele filme.
E o que mudou foi exatamente o fato de eu não mudar a maneira como trabalhava aqui. Foi um desafio para a produção, porque são atores muito ocupados, que fazem muitas coisas e estão em diferentes projetos ao mesmo tempo. A minha condição para entrar no filme, por contrato, era: “Eu preciso de quatro semanas de ensaio, com figurino e locação, e disso eu não abro mão”. Curiosamente, não custou tão mais caro e os atores adoraram.
São atores apaixonados pelo papel, e eu tento levar as minhas condições de trabalho para qualquer lugar em que esteja, em qualquer contexto, porque é o jeito que eu sei trabalhar. Não acho que seja o único jeito, mas, para mim, é muito importante a gente ensaiar bastante, levantar a cena, entender qual é o tom e como funciona a movimentação dentro dela. É uma coisa mesmo de técnica.
Talvez a única coisa que mude seja quando você está dirigindo um ator que não está falando na sua língua materna. Por mais que você tenha domínio da língua em que está trabalhando, quando entra no território da sua língua materna, tem algo que é mais suave na relação com os atores. Está na sutileza do que você está encenando.
ADOROCINEMA: Seus filmes costumam carregar uma brasilidade muito forte, inclusive na relação com os corpos, com a sensualidade e com o humor. O que você identifica neste filme como algo particularmente brasileiro?
KARIM AÏNOUZ: Olha que pergunta boa! Nunca ninguém me perguntou isso. Menino, o que é que tem de mais brasileiro?
Eu acho que é o senso de humor. Na verdade, me lembrava muito dos primeiros filmes do Almodóvar. Quando vi aqueles filmes, na década de 1980, eu sempre falava: “Gente, que coisa tão brasileira!”. Aquele senso de humor espanhol eu acho muito primo da gente.
Então, acho que o que tem de brasileiro é esse humor e uma certa ideia de despudoramento em relação aos corpos. É um filme muito livre nesse sentido. Não é um filme protestante, puritano.
Ele tem essa coisa brasileira, que é muito confortável em relação aos corpos e ao jeito como a gente vive o cotidiano. Mas, antes de qualquer coisa, acho que é a irreverência que habita esse filme.
Ele poderia ter sido feito de outro jeito. É um material de roteiro, de dramaturgia, que poderia ter sido adaptado de uma maneira mais séria. E, para mim, essa irreverência era muito importante.
ADOROCINEMA: Você tem uma relação muito próxima com o Festival do Rio e com esse público. O que significa estrear este filme aqui, e por que você acha que ele pode encontrar uma recepção tão particular neste festival?
KARIM AÏNOUZ: Olha, para mim tem algo muito especial em estrear o filme aqui no Festival do Rio. Foi onde eu estreei no Brasil quase todos os meus filmes. Acho que o único que não estreei aqui foi Motel Destino, por uma questão de data.
Tem uma coisa afetiva muito importante para mim, uma coisa de memória. Sempre que eu entro aqui, tenho a mesma sensação que tive quando estreei Madame Satã. Eu pensava: “O que é que vai acontecer nessa sala?”.
Mas, ao mesmo tempo, essa sala parece que tem me abraçado a cada estreia. Quando a gente estava falando de passar Rosebush Pruning, eu perguntei: “Vai ser no Odeon?”. Porque acho que tem uma espécie de, sei lá, proteção que eu vejo aqui.
É um público muito específico, mas também muito carinhoso. Não é um público cínico, que está querendo te julgar.
Essa coisa da estreia é muito delicada, dependendo do contexto. Às vezes, por exemplo, o Festival de Cannes é um festival muito delicado, porque você tem ali 80% das salas ocupadas por profissionais do cinema. E aqui acho que tem algo diferente, são pessoas curiosas para encontrar novas histórias, descobrir novos mundos. Então isso é sempre muito caloroso e muito bonito de ver.
MUBI
ADOROCINEMA: Você falou sobre o humor do filme, mas ele também provoca bastante desconforto. Existe alguma reação específica que você está especialmente curioso para observar no público brasileiro?
KARIM AÏNOUZ: Eu estou muito curioso para ver se o público vai rir ou não.
Quando o filme passou pela primeira vez no Festival de Berlim (e não vou poder falar muito aqui porque senão acabo contando demais), as pessoas ficaram muito desconfortáveis. Tem uma cena no final em que todo mundo deu uma gargalhada, como se tivesse um riso preso durante a projeção inteira.
E aqui estou curioso para saber se o público vai soltar o riso desde a primeira cena, porque é um filme completamente construído em torno do absurdo, da irreverência. Ele é uma sátira.
Também quero entender como o filme se transforma com a legenda, porque ele é muito baseado na palavra, no diálogo. Então quero saber se dá para acompanhar o humor através da leitura das legendas ou não.
ADOROCINEMA: O filme reúne um elenco muito forte, com nomes como Pamela Anderson, que vive também um momento de redescoberta em Hollywood. Houve algum ator ou alguma atuação que te surpreendeu de uma maneira que você não esperava durante as filmagens?
KARIM AÏNOUZ: Eu acho que todo mundo me surpreendeu. São atores extraordinários que toparam essa aventura maluca de fazer esse filme, porque ele é completamente fora da curva quando você pensa no cinema de Hollywood.
Acho que eles quiseram fazer esse filme também para surpreender a si mesmos. Sempre traziam coisas para os personagens, um jeito de falar e de interpretar os diálogos que era muito excitante e inesperado.
Eu me lembro especificamente de uma cena da Riley Keough com o pai, que é o Tracey Letts, em que tive que parar de filmar. Precisei ir para o quarto ao lado para rir, porque eles realmente me surpreendiam a cada plano que a gente fazia.
Mas acho que essa é a marca dos grandes atores. Eles não vão entrar ali simplesmente para fazer algo que foi discutido e planejado. A gente discute, planeja, mas, na hora, tem algo mágico que acontece e que a gente precisa deixar fluir.
Após sua estreia brasileira no Festival do Rio 2026 e uma sessão especial no Open Air Brasil em São Paulo, Rosebush Pruning chega aos cinemas brasileiros em 15 de outubro de 2026.