Asghar Farhadi é conhecido por filmes que exploram conflitos morais e relações humanas. Vencedor de dois Oscars de Melhor Filme Internacional, o cineasta iraniano apresenta no Festival do Rio 2026 seu longa mais recente,Contos Paralelos, que reúne grandes nomes do cinema francês, como Isabelle Huppert, Vincent Cassel, Virginie Efira, Pierre Niney e Catherine Deneuve. No filme, Farhadi retoma temas recorrentes de sua obra, como a forma como enxergamos os outros e construímos julgamentos a partir do que sabemos sobre eles.
Em conversa com o AdoroCinema durante sua passagem pelo Brasil, o diretor falou sobre como a observação das pessoas continua alimentando seu processo criativo e refletiu sobre o tom de Contos Paralelos, que, segundo ele, traz “mais luz” do que seus trabalhos anteriores.
Farhadi também revelou sua admiração por Fernanda Torres e relembrou o impacto que Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, teve sobre ele. Confira a entrevista completa.
Carole Bethuel
Entrevista com Asghar Farhadi sobre Contos Paralelos no Festival do Rio
ADOROCINEMA: Você já falou muitas vezes sobre como observar as pessoas é importante para você. A observação também tem um papel muito importante em Contos Paralelos. Você ainda encontra inspiração observando as pessoas ou, hoje, ela vem de outros lugares?
ASGHAR FARHADI: Ela vem de lugares diferentes. Mas acho que a fonte mais importante para escrever uma história ou fazer um filme vem da infância. Porque, quando somos crianças, nosso olhar está muito mais atento aos elementos ao nosso redor. Conforme vamos ficando mais velhos, deixamos de enxergar muitas dessas coisas e simplesmente presumimos que sabemos como elas são.
Se uma criança viesse aqui, por exemplo, provavelmente conseguiria contar cada detalhe deste lugar. Mas, se você me perguntasse, eu não conseguiria dar tantas informações.
Então, sim, observar as pessoas, observar os outros, ajuda. Mas a fonte mais importante que temos é aquilo que observamos da vida dos outros quando somos crianças.
ADOROCINEMA: Em Contos Paralelos, você trabalha com alguns dos maiores nomes do cinema francês. Você pensou na imagem que o público já tem desses atores e atrizes e usou isso para brincar com as nossas expectativas?
ASGHAR FARHADI: Eu não calculei isso. Não escolhi o elenco por causa da imagem que o público já tinha deles no cinema. Mas é algo que eu não consigo controlar. Quando as pessoas veem esses atores no meu filme, elas já trazem consigo uma ideia, um histórico sobre eles. E talvez isso influencie a maneira como enxergam uma cena ou assistem ao filme.
ADOROCINEMA: Algum deles surpreendeu você, trazendo para o personagem algo que você não havia imaginado antes?
ASGHAR FARHADI: Sim, e eu adoro quando isso acontece. Quando vou ao set, converso com os atores e descobrimos alguma coisa nova, ou quando eles chegam com uma nova ideia e me surpreendem.
Às vezes, uma das melhores coisas que acontecem é quando você tem uma imagem de determinado personagem enquanto está escrevendo e, no dia seguinte, acorda e sente que o próprio personagem que você criou está lhe dando novas ideias. É como se ele estivesse vivo. Existe uma espécie de comunicação entre você e aquele personagem que você escreveu. Isso é algo que me surpreende muito durante o processo de escrita.
ADOROCINEMA: Nos seus filmes, muitas vezes julgamos um personagem e, depois, novas informações nos fazem questionar esse julgamento. Depois de fazer filmes assim durante tantos anos, isso mudou a maneira como você julga as pessoas na vida real?
ASGHAR FARHADI: Sim, claro. Isso me ajudou a perceber que receber apenas algumas informações sobre alguma coisa não é suficiente para fazer um julgamento.
Nós precisamos julgar. Fazemos julgamentos sobre tudo, isso faz parte da vida. Mas precisamos ter cuidado e lembrar que aquele julgamento não é necessariamente definitivo ou correto.
Hoje, com a idade que tenho, presto ainda mais atenção a isso. É algo que aprendi com todos os filmes que fiz: na vida real, preciso ter cuidado ao julgar as pessoas.
Carole Bethuel
ADOROCINEMA: Seus filmes parecem, de certa forma, mais esperançosos hoje. Isso acontece porque você mudou como pessoa ou fazer esses filmes também mudou a maneira como você enxerga as pessoas?
ASGHAR FARHADI: Sim. Este filme é sobre cinema, é sobre escrever. E a história não precisava ter um final trágico. Quando estou falando sobre o meu trabalho, eu sou esperançoso.
Eu tenho esperança. Se não tivesse, provavelmente pararia de fazer esse trabalho. Então, sim, este é um filme em que existe mais esperança, mais luz.
ADOROCINEMA: Agora que você está no Brasil, se pudesse fazer um filme futuramente com talentos brasileiros, com quais atores, atrizes ou cineastas gostaria de trabalhar?
ASGHAR FARHADI: É uma pergunta muito difícil. Mas há uma atriz cujo trabalho eu adoro, Fernanda Torres, de Ainda Estou Aqui. Para mim, ela é uma das melhores atrizes do mundo.
E existe também um diretor cujo trabalho eu adoro, o diretor de Cidade de Deus, Fernando Meirelles, e toda a equipe que trabalhou com ele naquele filme. Ouvi dizer que o filme foi rodado em 16 mm, e a imagem é maravilhosa.
ADOROCINEMA: O que ficou com você depois de assistir a Cidade de Deus? O que mais causou impacto?
ASGHAR FARHADI: Era muito diferente de outros filmes. O ritmo de Cidade de Deus, a maneira como o filme começa, havia uma energia muito particular.
Quando assisti àquela sequência, disse a um amigo: “Este filme parece o futebol brasileiro”. Há algo no ritmo do filme que me lembra o futebol.
ADOROCINEMA: E, para terminar: se você pudesse esquecer completamente um filme só para poder assisti-lo novamente pela primeira vez, qual escolheria?
ASGHAR FARHADI: Há muitos, mas acho que escolheria Amarcord, de Fellini. Eu adoro esse filme.
Às vezes, tento passar muito tempo sem assisti-lo e depois volto a vê-lo para conseguir aproveitar aquela experiência novamente. Às vezes também faço isso com os meus alunos.
ADOROCINEMA: O que há nesse filme que provoca esse sentimento em você?
ASGHAR FARHADI: Há muitos personagens nele que me fazem lembrar da minha infância. E existe uma atmosfera, uma sensação que eu não consigo descrever.
Fui à Itália há dois anos e tentei visitar o lugar onde Fellini filmou o longa. Consegui encontrar a locação de Amarcord. É um dos meus filmes favoritos.
Contos Paralelos integra a programação do Festival do Rio 2026, que também conta com outras atividades com a participação de Asghar Farhadi durante sua passagem pelo evento.