Javier Calvo e Javier Ambrossi, dupla de cineastas espanhóis conhecida como “Los Javis”, vêm consolidando seu nome com produções que ganharam repercussão dentro e fora da Espanha. Vimos isso com La mesías e com a incrível Paquita Salas, série disponível na Netflix, e veremos novamente com A Bola Preta, filme que abrirá o Festival do Rio 2026.
20 minutos de aplausos em Cannes: Novo filme de Penélope Cruz é ovacionado e quase quebra recorde de Guillermo del ToroEm entrevista ao programa El cine en La Ser, Javier Ambrossi e Javier Calvo falaram longamente sobre o filme e sobre as intenções por trás desse grande projeto quando começaram a desenvolvê-lo. “Ao ler La Piedra Oscura, que é a origem de A Bola Preta, a peça de teatro de Alberto Conejero, há uma intimidade entre dois personagens que me remetia a O Paciente Inglês, a Titanic... Me levava àqueles filmes que, em algum momento, me fizeram amar o cinema”, explica Ambrossi, emocionado. Isso porque o que Los Javis buscavam com seu filme era ir além de simplesmente contar mais uma história LGBTQIA+.
Um filme pensado para ser visto no cinema
“Queríamos um filme que fosse atraente para o espectador. Que fosse antibelicista e antifascista, mas que também fosse um filme atraente”, continuou Ambrossi, explicando que “se você vai fazer um grande filme com três protagonistas gays, interpretados por três atores gays, dirigido, produzido e escrito por gays”, eles queriam chegar ao público “para ver se conseguimos transmitir a ideia de que podemos fazer grandes filmes, de que o LGBTQIA+ não está necessariamente ligado a um nicho ou a algo pequeno”.
O que Los Javis buscavam com esse imenso projeto, que já passou por importantes festivais internacionais — o filme ganhou o Prêmio do Público no Festival Internacional de Cinema de Toronto, e ambos conquistaram o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes —, era fazer um filme antibelicista, cru e artístico, mas que falasse com as pessoas. “Quero que as pessoas vão ao cinema, comprem seus ingressos e aproveitem. Ele foi pensado para que as pessoas aproveitem no cinema”, afirmou Ambrossi.
Federico García Lorca, um dos nomes mais importantes da literatura espanhola do século 20, teve diversas de suas obras adaptadas para o cinema, como A Casa de Bernarda Alba e Bodas de Sangue, mas A Bola Preta propõe uma abordagem diferente de seu legado. Calvo afirma que “queríamos contar Federico a partir de uma perspectiva queer, mas muito mais do que isso”, e Ambrossi acrescenta que “é uma homenagem à sua figura e à sua poesia e também uma homenagem a todas as vidas interrompidas pelas tragédias da guerra”. A intenção, esclarece Ambrossi, não era fazer um filme sobre Lorca: “Era homenagear a figura e a poesia de Lorca e sua ambição poética”.
Elastica Films
A Bola Preta, portanto, não é uma cinebiografia de Federico García Lorca. Ainda assim, o escritor está, de alguma maneira, presente durante todo o filme, até mesmo nas partes em que a história nos transporta para os dias atuais. O objetivo de Los Javis é provocar algo no espectador, como só o bom cinema consegue fazer. “Queria fazer um filme que fosse como aqueles filmes que fazem você pensar: ‘O que eu acabei de assistir? Por quanto tempo essa sensação e tudo o que vivi aqui vão permanecer dentro de mim?’”, explicou Calvo.
Para Ambrossi, seria um verdadeiro sonho que esse filme provocasse uma mudança. “O que eu gostaria que acontecesse com A Bola Preta é que alguém saísse do filme pensando: ‘Porra, eu preciso viver, fazer uma mudança na minha vida ou contar este segredo’.”
A Bola Preta também foi escolhido para representar a Espanha na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. A primeira shortlist com os 15 selecionados será anunciada dia 15 de dezembro. Até lá, o longa de Javier Calvo e Javier Ambrossi inicia sua trajetória internacional com a ambição de fazer com que esse “poema em forma de filme”, como sugere o projeto, provoque no público justamente a transformação desejada por seus diretores.