"O filme mais importante da minha carreira": Em 1998, Christopher Lee recebeu ameaças de morte por interpretar esta figura histórica
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De todos os filmes que fez, Christopher Lee considerava seu papel como o pai fundador do Paquistão moderno no filme Jinnah, lançado em 1998, o melhor de sua carreira. Uma atuação que lhe rendeu até ameaças de morte...

Para os mais cinéfilos, ele foi a própria encarnação do Conde Drácula nos clássicos de terror da Hammer. Inesquecível como Scaramanga em 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro ao lado de James Bond, Christopher Lee também ficou eternizado — ao menos para as gerações mais jovens — por sua interpretação do mago Saruman na aclamada saga O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson.

Tendo nos deixado à venerável idade de 93 anos em 2015, Christopher Lee teve uma vida que se confundiu mais de uma vez com a própria História: desde ter sido testemunha da última execução pública na França e conhecido J.R.R. Tolkien ou o assassino de Rasputin, até ter um brilhante histórico de serviço durante a Segunda Guerra Mundial. Havia, contudo, uma lembrança da qual ele adoraria ter se poupado: ter sido alvo de ameaças de morte por conta de um filme lançado em 1998, Jinnah.

The Quaid Project Limited

Christopher Lee sobre Jinnah: "É o filme mais importante que já fiz"

Dirigida por Jamil Dehlavi, esta coprodução anglo-paquistanesa retrata a trajetória do primeiríssimo governador-geral do país, Muhammad Ali Jinnah, que defendia sua teoria das duas nações em meio às tensões entre hindus e muçulmanos sob o Raj Britânico nos anos 1920, impondo-se como uma voz moderada contra os extremistas islâmicos que se opunham a ele, até se tornar testemunha dos horrores da partição de Punjab em 1947, que permitiu a Jinnah alcançar seu objetivo político ao custo de um terrível sacrifício. Muhammad Ali Jinnah é, portanto, o pai fundador do Paquistão moderno.

Em uma entrevista concedida à BBC, Christopher Lee afirmou ter entregado nesse filme o melhor papel de sua carreira:

"É o filme mais importante que já fiz, tanto pelo tema quanto pela enorme responsabilidade que eu tinha como ator, pois muitos membros da família dele vieram me ver e me deram um apoio maravilhoso. Recebi as melhores críticas de toda a minha carreira, tanto pelo filme em si quanto pela minha atuação."

The Quaid Project Limited

"Ou eles morrem, ou eu morro"

Um entusiasmo que parece não ter sido compartilhado por uma ala de militantes políticos: no Paquistão, alguns ameaçaram destruir os cinemas que exibissem o filme Jinnah e agredir fisicamente qualquer distribuidor. Na realidade, a tensão começou antes mesmo do lançamento da obra...

Uma violenta onda de protestos foi amplamente divulgada na época por um jornal de Lahore, o Daily Khabrain. O periódico chegou a qualificar as atrizes do filme de "prostitutas", enquanto seu editor-chefe, Zia Shahid, considerava o longa "profundamente chocante". Já um influente industrial paquistanês chamado Mian Azhar Amin encorajava ações violentas para impedir a exibição do filme, fazendo inclusive ameaças de morte a quem se arriscasse a distribuir a obra, além de focar na própria equipe: "Ou eles morrem, ou eu morro", conforme relatado pelo The Guardian.

A indignação desses manifestantes aparentemente foi desencadeada pelo que viam como um desrespeito ao fundador do país nessa cinebiografia; a escalação de Christopher Lee para o papel principal apenas exacerbou essa rejeição.

O fato de um ator que interpretou o Conde Drácula e atuou em inúmeros filmes de terror encarnar uma figura histórica tão venerada no país era simplesmente intolerável para alguns. Lee recebeu ameaças de morte a tal ponto que foi necessário contratar seguranças particulares durante as filmagens.

Por fim, vale lembrar que tudo isso aconteceu em um contexto de altíssima tensão política no Paquistão. No mesmo ano do lançamento de Jinnah, em outubro de 1998, o general Pervez Musharraf foi nomeado chefe do exército pelo primeiro-ministro Nawaz Sharif. Um ano depois, Musharraf lideraria um golpe de estado militar contra o governo eleito de Sharif, assumindo o controle do Paquistão sob lei marcial e com a Constituição suspensa...

Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).
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