Vários anos depois, Steven Spielberg decide retornar a um dos gêneros que o tornaram uma referência mundial, a ficção científica, e faz isso concentrando-se novamente no contato com a vida alienígena. Como costumava acontecer nessas outras ocasiões, Dia D tornou-se uma oportunidade para o diretor falar sobre o que concerne à humanidade por meio do elemento extraterrestre.
Aviso: A partir daqui, o texto contém spoilers de Dia D.
Nesta produção, acompanhamos uma série de personagens, entre eles os interpretados pelos protagonistas Emily Blunt e Josh O’Connor, fazendo o possível para compartilhar com o resto do mundo a evidência de que não apenas existe vida além do planeta Terra, mas que ela veio nos visitar — e que as provas foram devidamente ocultadas. Para isso, eles precisam enfrentar a oposição do governo e de uma empresa contratada para manter todas essas evidências sob custódia.
Spielberg termina Dia D com mistério
Aqui encontramos Spielberg não apenas fazendo um apelo para lutar para que a verdade seja conhecida, mas também para encontrar uma maneira de comunicá-la às pessoas para que elas realmente se unam em torno dela.
"Tinha uma mensagem. Comecei com algo que eu queria dizer", explica o próprio Spielberg à Entertainment Weekly ao detalhar o que pretendia contar desta vez em seu aguardado retorno ao gênero. Uma obra que termina com uma frase muito específica, mas extremamente ambígua para muitos.
Assim que o objetivo de revelar os documentos classificados é alcançado, chegando inclusive a mostrar alienígenas com quem os personagens de O’Connor e Blunt têm a habilidade de se comunicar, eles tentam ser o vetor de comunicação para que os extraterrestres possam se expressar. Mas, em vez de entregar uma mensagem mais completa que revele suas intenções para com a Terra, o filme corta exatamente quando Blunt pronuncia a palavra: “Escutem”.
Amblin Entertainment / Universal Pictures
Estar preparado para escutar
"Estava lá no meu primeiro rascunho. Parecia certo". Assim o roteirista David Koepp detalha a decisão de encerrar o filme de forma tão abrupta, sem dar ao espectador a oportunidade de ver resolvidas muitas questões sobre os aliens no planeta.
No entanto, as questões com as quais Dia D lida concentram-se mais na necessidade de propagar a mensagem, e não na mensagem em si: "A pergunta era: ‘A notícia se espalhou?’. E foi aí que pensamos que estava o limite".
Longe de ser um capricho, esse tipo de apelo para escutar consolida o exercício de empatia radical que Spielberg busca em um mundo que ele percebe como profundamente dividido e egocêntrico. Um mundo onde nem mesmo a ameaça de uma possível guerra mundial — como visto nos telejornais sobre um provável ataque da Coreia do Norte — ou mesmo a religião consegue ser capaz de gerar uma união como espécie que se faz necessária.
Universal Pictures / Amblin Entertainment
Para Josh O’Connor, a essência do filme é bastante clara: "Olá, isso aqui vai ser sobre comunicação, saber escutar e participação". Embora muitos gostassem de ver a mensagem alienígena completa, para Blunt apenas a palavra escutar já é suficiente como mensagem: "Em muitos aspectos, o que foi revelado ao mundo no final é o bastante para que você faça o que eu estou dizendo para fazer no final". A questão, então, se volta contra o espectador e se ele se sente preparado para escutar.