Em 1964, Clint Eastwood ficou chocado durante sua primeira filmagem na Espanha: "Eles não estavam acostumados com o silêncio"
Marco Rigobelli
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.

Quarenta anos depois, a lenda de Hollywood ainda se lembrava de algumas histórias nas filmagens de Por um Punhado de Dólares.

Quando Clint Eastwood aceitou o papel principal em Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone, ele ainda não era uma estrela — mas aquele trabalho o tornaria uma. O lendário ator e diretor, que no próximo mês de maio completará 96 anos, apostou no gênero do spaghetti western antes mesmo de ele estar na moda, porque achava interessante viver a experiência de viajar para a Europa, e não se enganou. Após o sucesso do primeiro longa-metragem, vieram Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito, e o ator não apenas alcançou a fama mundial graças a eles, como se tornaria um ícone do gênero.

"Quando me propuseram fazer Por um Punhado de Dólares, não existia nada parecido com um spaghetti western", contou em 2003 em uma entrevista ao Inside The Actors Studio. "Achei que a ideia de fazer um western na Itália soava estranha, mas depois descobri que seria na Espanha. Era uma versão western, um remake western de Yojimbo, e eu sempre amei Yojimbo, então foi isso que me inspirou a aceitar o projeto".

Por um Punhado de Dólares
Por um Punhado de Dólares
Data de lançamento 15 de setembro de 2021 | 1h 39min
Criador(es): Sergio Leone
Com Clint Eastwood, Gian Maria Volontè, Marianne Koch
Usuários
4,3
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Em 2007, Eastwood falaria com mais detalhes sobre as filmagens na Espanha em uma entrevista chamada A Few Weeks In Spain, cujos trechos podem ser encontrados no YouTube. Nela, o veterano de Hollywood compartilhou que ficara surpreso com os recursos e com a forma "caótica" de trabalhar da equipe liderada por Sergio Leone, muito diferente do que estava acostumado a ver nos Estados Unidos.

"Provavelmente não ia dar em nada. Pensei que aquilo seria um fracasso total, mas pelo menos ia poder fazer uma viagem à Itália e à Espanha, países em que nunca havia estado. Ia ser uma boa experiência e, se além disso funcionasse, seria um bônus. Então simplesmente fiz a viagem e tentei fazer o melhor possível", explicou.

Um chapéu, nenhum substituto: a precariedade dos bastidores

Desde o início, os recursos disponíveis deixavam claro que o projeto estava muito longe de ser uma superprodução: "Levei bastante coisa do meu próprio guarda-roupa. Comprei umas calças jeans, levei as botas que usava em Rawhide e, no geral, trouxe quase tudo o que precisava. Pegamos algumas coisas na Espanha, mas, ao contrário de um filme americano — ou de qualquer produção com orçamento médio ou alto, onde há duplicatas e triplicatas de tudo caso algo se perca ou quebre —, nós não tínhamos nada. Eu tinha apenas um chapéu; se o perdesse, estava acabado. Não havia como substituí-lo".

Ele também ficou impressionado com a forma como as coisas funcionavam: "Era muito curioso, porque você estava gravando uma cena e, fora de quadro, via pessoas jogando frisbee, fazendo gestos ou contando piadas. Ouvia gente conversando… era muito, muito perturbador".

Eu simplesmente ignorava e usava isso como uma forma de me concentrar ainda mais, mas eles não estavam acostumados ao silêncio de uma filmagem onde o som é importante.

"Estávamos fazendo filmes de orçamento muito baixo. Não era uma grande produção italiana. Por um Punhado de Dólares custou uns 200 mil dólares, talvez um pouco mais. Era um orçamento muito apertado, com dinheiro alemão, espanhol e italiano, e esses três sócios viviam brigando sobre quem pagava o quê", lembrou. "Era um sistema bastante caótico, e o nível de eficiência não era tão alto quanto o de uma equipe americana, britânica ou mesmo o dos próprios italianos hoje em dia".

United Artists

As artimanhas da equipe de Leone

Algumas coisas o impressionaram tanto que, quarenta anos depois, o ator ainda se lembrava de certas histórias específicas: "Lembro que estávamos filmando em Almeria e precisavam de uma árvore para uma cena de enforcamento, com uma corda, como símbolo ao passar cavalgando. Não encontravam nenhuma. Havia uma árvore velha no jardim de alguém — estava morta, mas ficava na propriedade dele. Então mandaram uma equipe e a cortaram. O dono saiu e perguntou: 'O que estão fazendo?'. E responderam: 'Somos do departamento de estradas; essa árvore é perigosa, pode cair na via, então estamos retirando'. O homem acreditou. Esse era o tipo de 'criatividade' que se usava".

Outra história lembrada por Eastwood aconteceu durante as filmagens do segundo filme, Por uns Dólares a Mais: "Precisavam de uma grua, mas não tinham como pagar. Porém, uma empresa próxima tinha uma. No verão, na Espanha, há muitas festas católicas, praticamente uma por semana. Uma delas se aproximava, e a equipe italiana não podia filmar por ser feriado religioso. Então Sergio [Leone] foi falar com o bispo e disse: 'Nós não somos católicos, somos uma empresa judaica e estamos aqui filmando. Poderíamos trabalhar nesse dia?'. O bispo deu permissão. Aí foram à outra empresa e disseram: 'Vocês não podem filmar, mas nós podemos. Nos emprestam a grua?'. E foi assim que conseguiram usá-la".

"Olhando agora, foi uma experiência incrível, mas na época era tudo muito caótico… ainda que também muito divertido", garantiu. E ainda voltou transformado em estrela. O que mais se pode pedir?

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