Mesmo que conheçamos de cor a monumental saga de Peter Jackson, adaptada da obra de J.R.R. Tolkien, e tenhamos percorrido repetidamente os incontáveis caminhos da Terra-média, a trilogia O Senhor dos Anéis ainda é capaz de nos surpreender 25 anos após seu lançamento nos cinemas.
Um verdadeiro paraíso para os amantes de detalhes escondidos e referências sutis, o filme contém inúmeras participações especiais, acenos e outras homenagens discretas. Mas é frequentemente na sua encenação e no seu simbolismo que ele se mostra mais eloquente.
Competição de fumaça: As obsessões de Bilbo e Gandalf em O Senhor dos Anéis
Talvez estejamos falando o óbvio e simplesmente detalhando algo que será claro para todos os nossos leitores. Mas, por via das dúvidas, vamos revisitar um breve trecho do início de A Sociedade do Anel, o primeiro livro da saga.
É aniversário de Bilbo Bolseiro (Ian Holm). A festa está prestes a começar e, antes da chegada dos convidados, o velho Hobbit desfruta de seus últimos momentos de paz e sossego, fumando seu cachimbo na soleira de sua casa ao lado de seu amigo Gandalf (Ian McKellen).
Enquanto sopra uma clássica, porém perfeitamente executada, argola de fumaça no crepúsculo, o Mago completa a criação fuliginosa de Bilbo exalando uma nuvem de névoa que atravessa o círculo, apagando-o no processo.
À primeira vista, e de fato foi o nosso caso por muito tempo, pode-se pensar que se trata simplesmente de um jogo entre os dois companheiros. E provavelmente é verdade. Mas, ao analisar mais atentamente, percebe-se que essa pequena e nebulosa competição ilustra, na verdade, as profundas obsessões dos dois personagens, seus objetivos mais íntimos, as coisas que mais importam para eles.
New Line Cinema
Bem contra o Mal
Para Bilbo, naquele exato momento, ainda é o Um Anel, que o consumiu por décadas e do qual ele ainda não conseguiu se desapegar. Já para Gandalf, é um navio que emerge de sua boca, anunciando seu objetivo final: atravessar o mar e retornar às Terras Imortais de Valinor, o que ele de fato fará ao lado de Bilbo no final da trilogia.
Essa cena é, portanto, também uma promessa do velho mago ao seu amigo, como se ele lhe sussurrasse em silêncio: "Não se preocupe, a sombra deste Anel logo passará, e uma jornada muito mais poderosa, muito maior, eterna, nos aguarda além dessas trevas."
Por fim, resume perfeitamente o tema da saga: a corrupção do Anel versus a salvação de Valinor, o poder de Sauron (Sala Baker) derrotado pelo dos Valar, a luta do Bem contra o Mal. Sem proferir uma única palavra, mesmo antes de embarcar em sua árdua jornada, Gandalf já havia declarado vitória na iminente batalha. Tudo isso a bordo de um simples barco a vapor, fumando seu cachimbo tranquilamente, na quietude do Condado.