O cinema de guerra nos presenteou com várias obras-primas ao longo dos anos, com O Resgate do Soldado Ryan quase unanimemente citado como uma das maiores entre elas. Sua abertura, com a representação devastadora do desembarque na Normandia, é particularmente notável – mas a verdade é que o filme não começa exatamente dessa forma, fato que rendeu duras críticas do roteirista William Goldman.
"O resto do filme é uma vergonha"
Goldman foi um famoso escritor e roteirista que ganhou dois Oscars, o primeiro por Butch Cassidy e o segundo por Todos os Homens do Presidente, mas o que nos interessa agora é um ensaio que ele publicou em 2001, no qual não hesitou em fazer diversas críticas ao filme dirigido por Steven Spielberg:
"A versão que eu vi certamente começou de forma diferente: uma cena de quinze segundos da bandeira americana tremulando ao vento. Com uma música no estilo de Aaron Copland tocando ao fundo. Até John Wayne teria vergonha de começar um filme assim. Corações e flores, Deus abençoe a América, todas essas coisas horríveis. Só os irmãos Farrelly conseguiriam se safar com algo assim hoje em dia."
Paramount Pictures
O roteirista continuou: "Então vem uma sequência bizarra que intitulei O Homem com as Garotas de Seios Grandes. E não estou brincando. Esse velho está vagando por aí, não sabemos onde, e atrás dele há um grupo de caras tipo Norman Rockwell, mas tudo em que consigo me concentrar são essas garotas de seios grandes o seguindo. Então descobrimos que estamos em um cemitério, e uma imagem de uma bandeira nos diz que é a França. Muitas cruzes. Ele se ajoelha diante de uma cruz em particular, chora, alguns parentes correm em sua direção, as de seios grandes ficam para trás."
São apenas alguns momentos no filme, mas é verdade que tudo isso aparece em O Resgate do Soldado Ryan antes do que Goldman também reconhece como "uma sequência de batalha incrível". Ele também tem algumas queixas, como o fato de que "o Spielberg de Os Caçadores da Arca Perdida não teria levado nem um minuto para preparar a missão de resgate de Ryan" e que existem várias "cenas chatas", mas ele também esclarece que, quando "já se passou 1 hora e 45 minutos do filme, e acabamos de desfrutar de mais de uma hora de narrativa sensacional", tudo desmorona.
Goldman é completamente contra o ato final: "O resto do filme é uma vergonha. Mais de 50 minutos de manipulação, falsidade e porcaria." O roteirista não entende por que os membros do batalhão comandado por Tom Hanks não levam Ryan para um lugar seguro quando o personagem de Matt Damon diz que ele não merece ser salvo mais do que os outros.
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"O discurso – improvisado por Matt Damon – é o único momento em que temos a oportunidade de ficar a sós com Ryan. E o discurso não nos faz sentir nenhum afeto por ele. Além disso, destrói grande parte da estrutura emocional do filme. Eu adoraria saber o que o roteiro original dizia nesse ponto. E fico me perguntando: como Spielberg pôde permitir que algo tão atroz acontecesse?", conclui Goldman.
O roteirista também foi muito duro em relação à morte do personagem de Hanks: "Ele está morrendo, Ed Burns corre para chamar um médico, Damon está sozinho com Hanks. E você sabe quais foram as últimas palavras de Hanks? Claro que não, ninguém sabe, não na primeira vez que assistem ao filme. Porque elas não são apenas sussurradas tão baixinho, mas nunca foram ditas antes neste ou em qualquer outro planeta. 'Mereça isso... mereça.' Essas são as palavras. Não tenho ideia do que isso possa significar. Minha única explicação é esta: Spielberg passou a noite anterior lendo Filosofia para Leigos e quis inserir essa pérola em seu filme."
"Deus e Steven Spielberg estão do mesmo lado"
Outra queixa é que "não há absolutamente nenhuma razão para essa história ser contada agora, já que Matt não tem nenhum motivo específico para visitar o cemitério". Ele era particularmente crítico do diretor: "Justo quando você pensa que Spielberg chegou ao fundo do poço, novas profundezas são atingidas. Quatro minutos agonizantes de sentimentalismo pretensioso, culminando com Matt perguntando à esposa se ele tem sido um bom homem. O que ela vai dizer? O marido dela está claramente tendo um colapso. Ela diz que sim, e Matt – espere só! – acena com a cabeça! Então a bandeira americana reaparece, acenando em nossa direção por meio minuto. Suponho que seja para nos lembrar que Deus e Steven Spielberg estão do mesmo lado."
Acho que ficou bem claro que Goldman não era fã de O Resgate do Soldado Ryan, nem do roteiro de Robert Rodat...