Costuma-se dizer sempre que não há maior solidão do que a de se sentir sozinho estando rodeado de pessoas. Talvez pudéssemos dizer algo semelhante com a questão migratória: talvez seja pior sentir-se estrangeiro na cidade onde se nasce do que fora dela. Afinal, neste último caso, você é um migrante de verdade, não é um sentimento, e ainda por cima tão nefasto.
Em 1942, Albert Camus estreava no mundo literário com O Estrangeiro, um romance que abordava temas filosóficos e psicológicos, sempre dentro do existencialismo e do absurdo. Nela, nos narrava a história de um jovem chamado Mersault, um francês de origem argelina que sente uma apatia irrefreável diante de tudo que o cerca, considera a realidade algo absurdo. Por isso, Mersault se sente um autêntico "estrangeiro" em seu próprio ambiente.
Uma bela obra transmitida para as telonas
FOZ
François Ozon decidiu rodar sua adaptação de O Estrangeiro em preto e branco, algo que não é estranho em sua carreira: ele já decidiu fazer o mesmo em seu maravilhoso Frantz. O roteiro é do próprio Ozon e é estrelado por, entre outros, Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin e Denis Lavant.
O filme, em termos gerais, foi bem recebido pela crítica. Mariona Borrull, da Fotogramas, concedeu-lhe 4 estrelas de cinco, elogiando o "gosto estético e seu ânimo moderno"; Jessica Klang, da Variety, o define como "hipnótico, intrigante e ao mesmo tempo intensamente fascinante"; Jordan Mintzer, do The Hollywood Reporter, vai ainda mais longe, garantindo que é uma "ousada e bela adaptação à altura de um clássico".
A adaptação deste romance não é um assunto simples, de modo algum. Em uma entrevista para a Telva, o cineasta garantia: "Não é a primeira vez que faço uma adaptação, mas normalmente eram obras menores. Neste caso, O Estrangeiro é quase como dizer Dom Quixote na Espanha".
E O Estrangeiro é o terceiro livro mais vendido em todo o mundo. "É uma obra-prima que na França todo mundo leu, e reconheço que no começo me preocupava um pouco esta responsabilidade. OK, sentia certa angústia. Mas o que realmente me interessava era se um personagem como o protagonista, Meursault, que é um anti-herói total, podia existir no cinema hoje".
O Estrangeiro de François Ozon ainda não tem previsão de estreia no Brasil.