Minha conta
    As Consequências do Amor
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    As Consequências do Amor

    Um filme opaco

    por Bruno Carmelo

    O título deste filme pode ser enganoso. As Consequências do Amor não é propriamente um romance – nem é exatamente um drama, ou mesmo um suspense. Para bem ou para o mal, este é um projeto estranhíssimo, de difícil definição, nos quais as transformações microscópicas na vida do protagonista Titta Di Girolamo () passam quase despercebidas na narrativa. Se existe amor nesta história, ele não é mais importante que os outros gêneros, nem mais importante que os cenários e objetos da história.

    Trata-se de um filme de ambientação, no qual o diretor  troca as explicações pelo poder da sugestão. Titta mora há anos num hotel, mas o espectador ignora as razões desta escolha. Ele não conversa com ninguém ao redor, mantendo uma rotina de repetições, por motivos que o público também desconhece. Ele carrega malas repletas de dinheiro, mas o roteiro não explica a origem nem o destino desta quantia. A família ignora a presença de Titta, sem que saibamos o porquê. Até o momento em que o personagem simplesmente explica todas essas questões, em poucos minutos, à garçonete Sofia (), com uma clareza exemplar.

     

    Por que esconder tantos elementos, se a revelação é estruturada como uma cena banal? Por que investir no suspense durante cerca de 80 minutos, se a descoberta não transforma os rumos da narrativa? As escolhas do diretor são singulares, e tamanha estranheza parece constituir o objetivo principal do filme. A música é lânguida e sugestiva, uma mulher bela passa sempre pelo corredor, mafiosos infiltram-se no quarto. Sugere-se a irrupção de uma crise o tempo inteiro, mas nenhuma ação se desenvolve. As Consequências do Amor é um projeto bem-sucedido na manipulação de sensações e expectativas, mas a recompensa oferecida ao jogo não necessariamente compensa a jornada.

     

    Embora só chegue aos cinemas brasileiros em 2016, este é um filme de 2004, muito antes de Sorrentino conquistar a fama internacional com  e . O estilo rococó das produções mais recentes ainda não tinha sido lapidado doze anos atrás, mas o cineasta italiano já demonstrava um prazer imenso em deslizar a sua câmera, colando-a ao rosto e ao corpo dos personagens, às curvas de cada objeto em cena. Ele desenvolve uma sensualidade publicitária: quando sua imagem contorna as formas de um carro de luxo e os detalhes de uma mala de viagem, falta apenas a marca dos produtos surgir na tela para obtermos um spot de marketing.

     

    Toda a estética é construída em torna da ideia de sedução, mesmo que não se saiba exatamente o que fazer com os olhares cativos pela imagem. A mecânica de Titta, que atrai e repele pessoas com a mesma inocuidade, lembra o funcionamento do próprio filme. Este é um circuito desejante que não pretende se esgotar. Mesmo assim, é preciso louvar o magnetismo obtido através da montagem precisa e da atuação afinada de Toni Servillo, um verdadeiro “homem que não estava lá”. Ele protagoniza a viagem de heroína mais minimalista e langorosa que o cinema já viu.

    Sem surpresa, a cena final é tão bela quanto desconectada do resto da trama. Isso é um sintoma de toda a produção: o filme só poderia fechar sua história apontando para mais uma saída, para uma nova pista de leitura, ou seja, para mais uma possibilidade de desejo - uma continuação do jogo. Sorrentino nos promete sangue, sexo e segredos obscuros, e depois se alimenta do prazer sádico e perfeitamente calculado da frustração.

    Quer ver mais críticas?

    Comentários

    Mostrar comentários
    Back to Top