“Jurassic Park” já é um clássico da cultura pop. Em 1993, Steven Spielberg nos presenteou com incríveis efeitos especiais, e deu vida aos terríveis monstros da era Mesozoica. Era algo inédito. Ver algo tão real nos deixou boquiabertos, assim como o casal Alan e Ellie ao verem o brontossauro pela primeira vez. Tamanha revolução resultou no título de maior bilheteria da história do cinema, arrecadando mais de 1 bilhão de dólares e permanecendo no topo até 1997, quando foi superado por “Titanic” de James Cameron.
De lá para cá, muita coisa mudou. A tecnologia avançou, e com ela, os efeitos especiais e a “Computer-generated imagery” (GGI) evoluíram também. A comoção gerada em 1993 não foi mais reproduzida nem teve o mesmo impacto nos outros filmes, como em “O Mundo Perdido” de 1997 e em “Jurassic Park III” de 2001.
Apesar de nenhum dos dois filmes subsequentes ao clássico serem considerados um fracasso, a crítica foi controversa. E desde então, os dinossauros foram extintos (de novo).
Neste ano, Colin Treverrow, um diretor com o currículo escasso, foi escalado para trazer de volta a franquia. Apesar de ter como produtor executivo o próprio Steven Spielberg, “Jurassic World” ainda gerava dúvidas. Pelo menos até o dia 11 de junho, quando o cinema recebeu um dos melhores filmes do ano.
“Jurrassic World” é uma lição de como homenagear uma franquia, como respeitar uma saga, e como despertar no público aquela sensação de nostalgia, nos fazendo recordar e embarcar em lembranças já do longínquo ano de 1993.
Vinte e dois anos se passaram, e isso é retratado em tela. Vemos um paralelo do nosso mundo com o mundo deles, a tecnologia evoluiu lá também (e muito), e tudo que era espetacular há 22 anos, hoje em dia é normal, supérfluo, e efêmero. Vivemos em busca de algo novo todo o dia, novas experiências, novas sensações, novas aventuras, mas nunca estamos satisfeitos, e o que nos saciava ontem, hoje não serve nem como aperitivo. Estou falando do roteiro, mas não parece a nossa realidade? Esta discussão está lá, e serve como plot e explicação de vários acontecimentos importantes ao longo do filme.
Vale a pena falar que esse filme resgatou a sensação de terror, da perseguição e da necessidade de fugir de uma besta indomável. Esse era o espírito do Jurassic Park e que somente foi contemplado nessa sequência. Claro que o filme não é só terror, há comédia, ação, um pouco de romance, tudo isso numa perfeita harmonia, e em dose certa.
Mas um bom filme de aventura necessita de um bom ator. Chris Pratt foi escalado para ser o protagonista, e após o grande sucesso de “Guardiões da Galáxia”, a escolha parecia acertada. Antes da estreia, cogitava que esse papel poderia servir de teste final para Pratt, esse filme poderia definir a sua carreira. Hoje, passado o filme, queria realmente pedir a Disney que façam o remake de “Indiana Jones”, porque já achamos o novo Dr. Henry Jones, Jr. Chris Pratt interpreta Owen Grady, um ex-militar que estuda os Velociraptors. Mesclando humor, e ação, Pratt carrega muito bem o papel, sabendo alternar ainda em momentos dramáticos, com uma boa interpretação, nos fazendo sentir o que realmente está acontecendo. Chris Pratt, mais uma vez sai em alta, e espero que o seu trabalho seja recompensado com mais filmes, e é claro com o papel do Indiana Jones, fica a dica Disney.
Os outros personagens são bons, alguns menos desenvolvidos que outros, com menos tempo em tela, que acabam se tornando um pouco irrelevantes. Porém, aqueles ligados com o protagonista têm um bom desenvolvimento, aumentando a sua importância e com isso criando vínculo com o público. E esse vínculo é um elemento principal num filme de terror/ação onde a qualquer momento, qualquer personagem pode ser devorado, o que nos faz temer pela vida desses indivíduos.
Uma dessas personagens é Clarie Dearing interpretada por Bryce Dallas Howard, a chefe de operações do parque, responsável por ajudar a criar o novo Dinossauro que trará mais clientes (e dinheiro) ao parque, o Indominus Rex. Incialmente uma “workaholic”, praticamente uma robô seguindo fielmente suas diretrizes, que evolui com o tempo, numa alusão a importância que se deve dar aos laços familiares e a conservação deles.
Como sempre, no Parque dos Dinossauros não pode faltar os irmãos em apuros. Isso cabe aos jovens irmãos Zack (irmão mais velho) e Gray Mitchell (irmão mais novo), interpretados por Nick Robinson e Ty Simpkins respectivamente. Sobrinhos de Clarie, servem para a discussão dos laços familiares e para mais uma metáfora em relação a nossa digitalização, a nossa constante perda da realidade, e das relações que ela proporciona. Uma boa analogia, pontual em alguns momentos, constante em outros, mas que desperta o interesse por essa discussão.
Temos ainda Vicent D’Onofrio, em alta também, conhecido por ter interpretado o “alien barata” em MIB de 1997, e mais recentemente, o psicopata Wilson Fisk, o Rei do Crime, em “Demolidor”, da Netflix. Personagem que faz uma ponte a futuros filmes a serem lançados, implantando ideias no mínimo intrigantes acerca do uso das criaturas pré-históricas.
Por fim, temos Irrfan Khan, ator do cinema indiano, talvez não tão conhecido, mas já protagonizou excelentes filmes como “The Lunchbox”, “A vida de Pi”, “O Espetacular Homem-Aranha” (não tão excelente assim). Interpreta Simon Masrani, novo proprietário do parque, que tenta prosseguir com o sonho de John Hammond.
Vale a pena ressaltar que o Dr. Henry Wu, interpretado por B. D. Wong, reprisa seu papel de 1993, como o cientista responsável pela “desextinção” dos dinossauros.
Como não poderia faltar, ainda precisa-se de um elemento primordial: a trilha sonora. Por um momento, durante o filme, eu tinha esquecido dessa trilha, tão icônica, e que fez parte da minha infância, durante muito tempo, já que eu tinha gravado em VHS o “Jurassic Park” e via quase que constantemente. Não lembrava nem que ela existia. Mas quando os irmãos começam a sua viagem em direção a ilha Nublar, o saudosismo e a nostalgia começa. A famosa música de John Williams, começa bem baixo, o suficiente para causar um arrepio, ela aumenta, começa a tomar toda a sala, fica mais alta que as vozes, se sobressai, e no momento em que o jovem irmão abre as janelas, a trilha ganha de todos e vira a protagonista enquanto a câmera sai do quarto do hotel em que os irmãos estão hospedados e explora o parque, agora finalmente aberto, em toda a sua totalidade. Incrível, fantástico, nostálgico. Seja qual for o adjetivo usado, não há um que exprima a sensação de ouvir essa música clássica, incorporada num novo tema, composta por Michael Giacchino. Isso é “Jurassic Park”.
Por fim, vemos a mãos (ou as garras) de Steven Spielberg, vemos o quanto ele está presente, o quanto os conceitos de construção de roteiro, e de personagens estão presentes na tela. Além disso, vemos diversas pequenas homenagens ao primeiro filme, vários “Easter Eggs”, chegando a revisitar lugares icônicos. É realmente uma incrível homenagem. E o final é a cereja do bolo.
Por tudo isso, pensar em dar uma nota é uma questão difícil. Então com o intuito de não ser injusto, ao filme dou nota 8,5, mas para mim, que me senti extremamente feliz, por ter sido contemplado por um “reboot” de qualidade, que respeita não só a história da saga, mas o fã, adiciono mais um ponto, fechando com nota 9,5.
Se você leu isso tudo até aqui, vá correndo ao cinema. Corra! Corra como se estivesse sendo perseguido pelo Tyranossauro Rex, pelo Indominus Rex, pelos Velociraptors, pelo Spinosaurus, enfim, por todos os monstros do passado. E vá logo garantir seu ingresso.