Divertido e cheio de ação, Predador: Terras Selvagens expande franquia de ficção científica, mas perde sua essência
por Bruno Botelho dos SantosLançado em 1987, O Predador se tornou um dos maiores clássicos na carreira de Arnold Schwarzenegger, misturando ação, terror e ficção científica, e começou uma franquia em Hollywood que segue viva até os dias de hoje. Depois da sequência Predador 2 - A Caçada Continua (1990), a saga tentou se estabelecer e reinventar com novos filmes, mas não teve tanto sucesso, desde os crossovers Alien vs. Predador (2004) e Alien vs. Predador 2 (2007) até as continuações/recomeços com Predadores (2010) e O Predador (2018).
A esperança para os fãs finalmente surgiu com O Predador: A Caçada (2022), lançado diretamente no streaming. Simples e eficiente, a produção apresentou uma visão original, sem deixar de lado tradições da franquia. Com isso, o diretor e roteirista Dan Trachtenberg caiu no gosto da indústria e assumiu o comando desta nova fase, responsável pela animação Predador: Assassino de Assassinos (2025) e também pelo retorno ao cinema com Predador: Terras Selvagens (2025), que expande esse universo para novos caminhos promissores, mas perde bastante a essência dos filmes originais.
20th Century Studios
Terras Selvagens se passa num planeta remoto no futuro no qual um jovem predador, Dek (Dimitrius Schuster-Koloamatang), foi rejeitado por seu clã. Com sua raça sendo caçada, dessa vez ele não será um simples vilão, encontrando uma aliada inesperada em Thia (Elle Fanning). Cooperando com a sintética, os dois terão que aperfeiçoar suas habilidades para se proteger e salvar as próprias vidas em meio a uma terra perigosa com ameaças mortais constantes. Diante de uma importante missão, a dupla embarca numa jornada que confronta o maior dos inimigos e poderá restabelecer o respeito de um povo.
20th Century Studios
A ideia de Predador: Terras Selvagens é interessante e original justamente pela intenção de subverter a fórmula da franquia, que sempre apresentou personagens humanos lutando pela sobrevivência contra os Predadores. Neste novo filme, o vilão assume protagonismo da história pela primeira vez. Desta forma, Terras Selvagens acerta em cheio ao expandir esse universo e se aprofundar na cultura da raça alienígena Yautja.
Na tradição Yautja, só o mais forte sobrevive, então o roteiro de Patrick Aison e Dan Trachtenberg escolhe acompanhar Dek, interpretado por Dimitrius Schuster-Koloamatang, considerado o mais fraco de sua raça. Temos aqui uma tradicional história de redenção, em uma jornada para tentar provar sua força e valor.
O ponto forte está na construção de mundo e exploração dos elementos de ficção científica da franquia, especialmente no design das criaturas e dos planetas, que apresentam uma experiência visual viva e mais palpável para o público. O filme está repleto de cenas de ação, enquanto a direção de Trachtenberg (responsável por Rua Cloverfield, 10) aposta em combates corporais intensos e bem coreografados que aproveitam da brutalidade dos guerreiros alienígenas.
20th Century Studios
Para humanizar Dek, Thia, uma sintética da Weyland-Yutani (sim, a mesma corporação da franquia Alien) interpretada por Elle Fanning, é apresentada como uma personagem tagarela e expressiva para desenvolver essa dinâmica "buddy cop" mais emocional e descontraída na narrativa. Enquanto o protagonista carece de personalidade para carregar a história, Fanning segura as pontas com seu carisma – ao mesmo tempo que assume outro papel totalmente diferente em sua contraparte vilanesca e sombria.
O problema é que, quanto mais acompanhamos a relação de Dek e Thia em sua jornada, Terras Selvagens perde sua essência como um filme de Predador e lembra mais uma aventura Star Wars. Toda a carga de tensão da trama, que precisava ser melhor aproveitada no planeta Genna e suas ameaças, é diluída em um clima mais descontraído e cômico, principalmente pela presença de Thia, que não combina com os elementos de sobrevivência que sempre foram a marca registrada da franquia.
As dinâmicas dos personagens, coadjuvantes que servem como alívio cômico e humanização dos vilões remetem diretamente não apenas à saga criada por George Lucas, mas também à fórmula Disney de apresentar aventuras cativantes para o grande público. Essa mudança não parece ser uma simples coincidência, levando em conta que Predador é da 20th Century Fox, que foi comprada pela Disney.
20th Century Studios
Dan Trachtenberg se provou como um nome perfeito para comandar essa nova fase da franquia que começou nos anos 80 estrelada por Arnold Schwarzenegger, mas Predador: Terras Selvagens acaba sendo uma experiência um tanto frustrante. É uma aventura repleta de ação e elementos de ficção científica, mas seu lado cômico e descontraído parece fora de tom e compromete toda tensão e gravidade da trama.
Terras Selvagens acerta ao expandir a mitologia dos Yautja e apresentar pela primeira vez um deles como protagonista herói (e não vilão) da história, mas, em boa parte do tempo, se parece mais como uma aventura familiar qualquer da Disney.
Isso pode ser um sinal de que eles estão querendo atender um público mais abrangente no futuro, enquanto O Predador: A Caçada era um filme mais original e condizente com as características da franquia. Só nos resta esperar pelos próximos passos. De qualquer forma, Predador: Terras Selvagens é uma experiência divertida e eletrizante como pedem os maiores blockbusters de Hollywood, mas não vai muito além disso...