Celine Song retorna após o sucesso de sua estreia na direção com Vidas Passadas, mais uma vez apadrinhada pela A24 — só que, desta vez, com um orçamento maior e um trio de elenco estelar formado por Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal. A expectativa era alta para esse novo filme da diretora, mas aqui temos um claro exemplo de que mais dinheiro e um elenco de renome não são, necessariamente, sinônimos de um bom filme. Principalmente quando essa mesma diretora já havia entregado resultados mais consistentes com uma escala de produção modesta e com atores menos conhecidos.
Amores Materialistas está longe de ser um desastre, mas também não alcança o impacto emocional ou narrativo que se esperava. Song já demonstrou estar confortável com histórias intimistas e temas sensíveis, e considero válida a tentativa de inovação que ela propõe no roteiro, fugindo da padronização do gênero. No entanto, ao tentar se afastar dos clichês, ela parece ter perdido parte da sensibilidade que marcou seu trabalho anterior. O resultado é um filme com uma abordagem mais fria e excessivamente didática, o que compromete a conexão emocional com o público.
Aqui temos um segundo exemplo recente — como Bong Joon-ho com Mickey 17 e agora Celine Song com Materialistas — de diretores que haviam entregado ótimos trabalhos anteriormente, mas que, ao receberem mais orçamento, elencos de maior prestígio e ao se aproximarem dos moldes “hollywoodianos”, acabam apresentando obras abaixo do esperado.
Como eu disse, gosto da proposta ambiciosa que Song trouxe não só em Vidas Passadas, mas também aqui, em Amores Materialistas. Ela claramente busca romper com os clichês do gênero e tenta construir algo mais autoral. Gosto de como ela desenvolve temáticas como capitalismo, materialismo, idealização de relacionamentos perfeitos e o conflito entre amor e dinheiro — temas que, por si só, já dariam uma excelente base para conectar-se com o público. No entanto, essas ideias são abordadas de forma excessivamente expositiva e didática, o que acaba distanciando emocionalmente a narrativa. Diferente do que vimos em Vidas Passadas, onde sentimos os dilemas de cada personagem, aqui Song adota uma postura mais objetiva e fria — algo que funciona como um reflexo da própria Lucy (Dakota Johnson), mas que prejudica o envolvimento com a história. Essa objetividade compromete não só o desenvolvimento da protagonista, mas também sua conexão com Harry (Pedro Pascal) e John (Chris Evans).
A relação entre Harry e Lucy se resume a cenas de objetificação — a casa luxuosa, jantares caros, ambientes controlados —, servindo mais como uma metáfora da própria relação superficial entre eles do que como um arco dramático bem trabalhado. Até aí, faria sentido, já que a ausência de química reforça o vazio da relação. O problema é que isso também se repete na relação de Lucy com John. O filme pouco se dedica a mostrar quem eles foram juntos; temos apenas uma cena de flashback e alguns diálogos com lembranças, o que enfraquece o vínculo emocional que deveria sustentar o desfecho.
Isso se torna um problema especialmente no arco final. Em vez de usar o tempo do filme para desenvolver esses laços aos poucos, o roteiro empurra toda a carga dramática para os momentos finais — e faz isso de maneira direta e didática, com diálogos engessados que soam mais como explicações do que como desdobramentos orgânicos da trama. O resultado é um desfecho arrastado, que tenta resolver conflitos que não foram bem construídos, e passa a sensação de que a diretora não confiou no poder das sutilezas que a fizeram brilhar em seu primeiro filme. Um bom exemplo disso é quando o roteiro introduz, quase como uma virada de chave, a pauta da violência contra a mulher — uma questão séria, mas que aqui é tratada de forma superficial, servindo apenas como impulso dramático para a Lucy, sem que isso tenha relevância real para a narrativa.
Em resumo, Amores Materialistas era uma das apostas mais aguardadas do ano, sobretudo pelo impacto que Song causou com Vidas Passadas. A assinatura estética da diretora está presente, mas a sensação é de que o salto para uma produção maior, com mais expectativa e maior visibilidade, levou Song a recorrer à objetividade e ao didatismo — talvez receosa de que esse “novo público”, que não conhecia seu primeiro trabalho, não compreendesse as emoções de seus personagens. Ao fazer isso, ela acaba criando um filme visualmente bonito, tematicamente interessante, mas emocionalmente engessado e didaticamente desnecessário.