“A Grande Viagem da Sua Vida” chega aos cinemas com a promessa de ser uma das experiências mais marcantes do ano, reunindo a estética autoral de Kogonada e a força de estrelas como Margot Robbie e Colin Farrell. O diretor, conhecido por sua obsessão pelo enquadramento e pelo uso das cores como linguagem emocional, constrói aqui um longa que, à primeira vista, parece um banquete para os olhos. Mas, quando a superfície brilhante começa a ser desfeita, o filme revela uma fragilidade narrativa que o impede de alcançar o impacto que almeja.
Kogonada retorna aos longas após trabalhos em séries, como em Pachinko e The Acolyte, e traz sua marca registrada: um estilo visual que mais parece um museu de quadros em movimento. O cuidado com o design de produção é evidente, principalmente no uso das portas como metáfora para a passagem entre realidade e fantasia. Essa ideia remete a obras como Suzume, na forma como um elemento físico simples se transforma em portal para experiências grandiosas. A fotografia também merece elogios: tons fortes de vermelho, azul e amarelo não estão ali apenas pela beleza, mas para refletir os estados internos de David (Colin Farrell) e Sarah (Margot Robbie). É uma escolha inteligente, que transforma cor em emoção e ajuda o espectador a mergulhar no universo subjetivo dos personagens.
Mas se a estética é magnética, o mesmo não se pode dizer do coração da narrativa. O roteiro de Seth Reiss apresenta lampejos criativos, sobretudo em passagens que exploram memórias marcantes dos protagonistas. A cena em que David retorna à época escolar para reviver uma apresentação de teatro é um dos momentos mais inspirados do filme, tanto pelo simbolismo quanto pela capacidade de tocar em um ponto universal: a nostalgia de nossas inseguranças e conquistas juvenis. Porém, esses instantes são raros. A maior parte do texto não consegue sustentar a promessa inicial e acaba oscilando entre a contemplação visual de Kogonada e diálogos excessivamente didáticos que tentam apressar o desenvolvimento dos personagens.
Essa ruptura entre estilo e narrativa gera um efeito curioso: o espectador se encanta com a moldura, mas encontra um vazio dentro dela. A sensação é de que Kogonada e Reiss estão em direções opostas — o primeiro buscando profundidade pela imagem, o segundo correndo para explicar aquilo que deveria ser sentido. O resultado é um filme que exige paciência, mas que entrega menos do que sugere. E aqui mora o maior problema: a “viagem” proposta pelo título se torna mais cansativa do que envolvente.
No campo das atuações, Robbie e Farrell entregam performances competentes, mas que nunca chegam a incendiar a tela. Ambos cumprem o que o roteiro pede, mas falta a química que deveria sustentar a ligação emocional entre David e Sarah. O público sente a desconexão: enquanto em cenas isoladas cada um consegue brilhar, juntos parecem estar em ritmos diferentes. Isso enfraquece a proposta romântica da narrativa, já que o vínculo dos personagens deveria ser o motor que justifica a jornada fantástica.
É importante destacar, porém, que o filme não é desprovido de qualidades. A ideia central — revisitar momentos-chave do passado para repensar o presente e projetar o futuro — é instigante. Quem nunca desejou atravessar uma porta mágica e reencontrar um instante que moldou sua vida? Essa premissa carrega grande potencial de identificação, e é justamente o que impede o longa de naufragar por completo. Além disso, o apuro técnico é inegável: da direção de arte à trilha sonora, tudo é cuidadosamente construído para reforçar a imersão.
Ainda assim, a obra falha em manter o equilíbrio entre forma e conteúdo. A contemplação de Kogonada, que poderia ser poética e transformadora, muitas vezes se alonga a ponto de esvaziar o envolvimento. E quando o roteiro tenta recuperar o fôlego com diálogos explicativos, o efeito é contrário: quebra o ritmo e expõe as limitações da escrita. Essa falta de harmonia entre diretor e roteirista deixa o público com a impressão de que estão assistindo a dois filmes diferentes costurados em um só.
No fim das contas, A Grande Viagem da Sua Vida é um longa de contrastes. De um lado, temos um visual arrebatador, atuações consistentes e uma ideia de base capaz de despertar reflexões sobre memória, arrependimentos e segundas chances. Do outro, um roteiro que não sustenta sua própria ambição e uma química pouco convincente entre os protagonistas. O resultado é um filme que promete uma travessia emocionante, mas que acaba sendo mais uma vitrine estética do que uma experiência verdadeiramente transformadora.
A sensação final é semelhante a contemplar uma estrada belíssima, cercada de paisagens de tirar o fôlego, mas percorrida em um carro que nunca engata a marcha certa. O destino parece promissor, mas a viagem, que deveria ser mágica, acaba se estendendo mais do que deveria e deixa um gosto de frustração. Não é uma jornada perdida, mas certamente não é a “grande viagem” que seu título promete.