O cinema de terror tem passado por uma fase interessante nos últimos anos. Longe de ser apenas um gênero que aposta em sustos fáceis, o terror vem se reinventando com propostas ousadas, mesclando metáforas sociais, dramas íntimos e uma abordagem mais visceral. Depois de títulos como A Substância, que devolveu o body horror ao centro das atenções, e produções recentes como Pecadores e A Hora do Mal, surge Juntos, de Michael Shanks, apresentado no Festival de Sundance. O filme chegou com a promessa de trazer frescor e originalidade, mas termina sendo um exemplo claro de como uma boa ideia pode se perder no caminho quando não há segurança em como explorá-la.
A trama parte de uma premissa instigante: um casal em crise, depois de anos juntos, passa a enfrentar uma situação inexplicável quando seus corpos começam a se fundir de maneira quase magnética. O mistério em torno desse acontecimento — por que isso ocorre, qual sua origem e qual o propósito dessa junção — é suficiente para prender a atenção nos primeiros minutos. Há algo de magnético não apenas nos personagens, mas também na ideia de acompanhar uma relação já desgastada ser colocada à prova em circunstâncias tão extremas. Até aqui, Shanks mostra fôlego criativo e habilidade em despertar curiosidade no público.
O problema é que o diretor parece confiar demais apenas nesse conceito inicial. Em vez de aprofundar as metáforas que o próprio filme sugere, Shanks opta por escancará-las. Em várias cenas, o subtexto deixa de ser subtexto para virar explicação direta, quase didática, como se o público não fosse capaz de compreender o que está por trás da narrativa. Isso enfraquece a experiência, porque parte do impacto do terror — sobretudo em obras que se apoiam em metáforas corporais e psicológicas — está justamente naquilo que não é dito, mas sentido. Quando tudo precisa ser falado, a atmosfera se dilui e a força simbólica perde intensidade.
Essa falta de confiança do diretor em sua própria proposta gera uma contradição incômoda: Juntos quer soar ousado e metafórico, mas ao mesmo tempo não permite que suas metáforas respirem. Ele mostra o que deveria apenas sugerir, tornando-se um filme explícito demais onde deveria ser sutil, e superficial demais onde deveria ser profundo. O resultado é uma narrativa que até chama atenção por sua ideia, mas não consegue sustentar o interesse conforme a história avança.
Outro ponto que contribui para essa sensação de frustração está no uso do body horror. O filme foi vendido como uma experiência de horror corporal, mas praticamente todas as cenas mais impactantes já estavam nos trailers e materiais de divulgação. Assim, quando essas sequências finalmente aparecem, o efeito é diminuído. A cena da serra ou a sequência no banheiro da escola até têm força e dão fôlego à trama, mas são respiros isolados em meio a uma narrativa que não se sustenta sozinha. O público não encontra nada além do que já havia sido prometido, e o esperado choque se transforma em simples reconhecimento.
E quando parecia que o filme ainda poderia se recuperar no desfecho, vem a maior decepção: o final. A queda de qualidade é gritante, tanto no aspecto visual — com efeitos digitais que soam mal finalizados — quanto no narrativo, com uma solução que contradiz a lógica do próprio filme. Shanks tenta entregar um clímax carregado de significado, mas o resultado fica no meio do caminho entre o brega e o forçado. A mensagem até pode ser compreendida, mas não dialoga com o que a trama vinha construindo. É como se duas obras diferentes se encontrassem de maneira abrupta, deixando a sensação de quebra total de coerência.
Nesse cenário de altos e baixos, o que realmente sustenta Juntos são as atuações de Dave Franco e Alison Brie. Casados na vida real desde 2017, os dois carregam uma química natural que se reflete na tela. Mais do que isso, ambos se entregam a uma proposta ousada, que exige tanto interpretação verbal quanto corporal. Alison Brie, em especial, surpreende ao mostrar uma intensidade dramática que a torna uma atriz para se acompanhar de perto. Já Franco reafirma sua solidez, oferecendo uma performance que equilibra vulnerabilidade e desconforto físico. São eles que dão humanidade a um filme que, por vezes, parece perdido em suas próprias ambições.
No fim, Juntos se torna um retrato do cinema de terror contemporâneo em suas contradições. É ousado na ideia, mas inseguro na execução. Propõe metáforas instigantes, mas não confia na inteligência do público para interpretá-las. Apresenta um visual que poderia ser impactante, mas entrega o melhor material já nos trailers. E quando poderia fechar sua proposta de maneira marcante, escorrega em um final incoerente que mina o que havia de interessante.
Ainda assim, não se pode negar que há algo valioso em sua tentativa. Shanks busca originalidade em um gênero que frequentemente repete fórmulas, e ao menos tenta propor uma leitura diferente sobre relacionamentos e desgaste emocional por meio do horror corporal. O problema é que a ousadia não é suficiente quando falta pulso narrativo. Ao se perder entre o desejo de ser profundo e a necessidade de ser explícito, Juntos termina sendo um filme que começou promissor, mas se tornou uma das maiores decepções do ano.
Era a chance de o terror contemporâneo ganhar mais um título de destaque, talvez até se tornar um novo marco como A Substância. No entanto, Juntos acaba ficando preso entre suas próprias intenções, lembrando mais um eco distante de obras como A Mosca (1986) do que um verdadeiro passo adiante para o gênero.