Alguns filmes chegam sem muito alarde e acabam se tornando grandes surpresas. O Bom Bandido é um desses casos. Dirigido por Derek Cianfrance, o longa combina comédia, drama e romance em uma mistura que, à primeira vista, poderia facilmente se perder, mas que encontra equilíbrio em uma história curiosamente humana. Baseado em fatos reais, o filme acompanha Jeffrey Manchester (vivido por Channing Tatum), um ex-oficial do Exército americano que, após dificuldades financeiras, começa a assaltar redes de fast-food. Conhecido como o “ladrão do telhado”, Jeffrey se torna uma figura improvável: um criminoso que, ao mesmo tempo, desperta empatia.
Cianfrance, que já demonstrou talento ao explorar as complexidades das relações humanas em filmes como O Lugar Onde Tudo Termina e Namorados para Sempre, aposta aqui em uma narrativa mais leve e acessível, mas sem abandonar totalmente a sensibilidade que marca sua filmografia. Ele e o roteirista Kirt Gunn constroem um roteiro que transita entre tons de comédia, drama e até um leve suspense, explorando a história real sem se prender demais à factualidade. O diretor não busca fazer um retrato fiel dos eventos, mas sim captar o espírito de uma história improvável sobre solidão, amor e redenção.
O filme ganha força principalmente pelo desempenho de Channing Tatum, que entrega uma das atuações mais completas da carreira. Tatum já havia mostrado seu talento para o humor em filmes como Anjos da Lei e Cidade Perdida, mas aqui surpreende ao equilibrar a leveza da comédia com uma carga emocional sincera. Seu Jeffrey é carismático e humano, um homem que comete erros, mas que ainda conserva um senso de moralidade. Ele rouba, sim, mas não é retratado como vilão e o filme faz questão de mostrar o contexto que o levou até ali: um veterano de guerra invisível para o sistema, tentando sobreviver e sustentar os filhos.
Essa abordagem é o que torna O Bom Bandido tão envolvente. O público se vê dividido entre condenar e torcer pelo personagem. Cianfrance transforma o drama em uma experiência empática, em que o espectador entende o desespero de um homem marginalizado, mesmo que suas ações sejam indefensáveis. E é nessa dualidade que o filme mais acerta. O roteiro convida o espectador a refletir sobre o que realmente significa ser “bom” ou “mau” e até que ponto a sociedade participa das escolhas de alguém como Jeffrey.
O romance com Leigh Wainscott (interpretada por Kirsten Dunst) adiciona um novo tom à narrativa. Há uma ternura natural na relação dos dois, marcada pela química autêntica entre os atores. Leigh, sem saber que Jeffrey vive escondido na loja onde trabalha, representa a possibilidade de redenção para ele. Essa relação, construída sobre mentiras, funciona como uma metáfora para o desejo humano de começar de novo, de reescrever a própria história, mesmo que o passado esteja sempre prestes a bater à porta.
A escolha de Peter Dinklage como coadjuvante também se mostra acertada. Apesar de aparecer pouco, ele rouba as cenas em que está presente, especialmente nos momentos de humor. Sua parceria com Tatum traz o equilíbrio necessário para um filme que lida com temas sensíveis sem se tornar excessivamente pesado.
Há, no entanto, um ponto em que O Bom Bandido parece hesitar. O longa abre espaço para reflexões sociais: sobre o abandono de veteranos, a dificuldade de reintegração à vida civil e as desigualdades que empurram pessoas para a criminalidade, mas não se aprofunda nelas. Cianfrance prefere manter o foco no drama pessoal de Jeffrey e no romance com Leigh, o que faz sentido dentro do tom leve da narrativa, mas deixa uma sensação de oportunidade perdida. Em certos momentos, o filme parece se esconder atrás de sua “dramédia romântica”, evitando confrontar as implicações mais duras da história real que o inspira.
Ainda assim, essa escolha narrativa não chega a comprometer o resultado. O diretor consegue equilibrar gêneros e emoções de maneira admirável. Mesmo quando o drama toma conta, o humor aparece no momento certo, e vice-versa. Essa alternância cria uma experiência envolvente, em que o público ri e se emociona quase na mesma medida. O filme nunca tenta ser mais do que é e talvez esse seja justamente o seu maior mérito.
O roteiro é inteligente ao explorar a dualidade de Jeffrey. Ele não é retratado como herói nem como vilão, mas como alguém tentando encontrar um caminho possível. Essa ambiguidade aproxima o espectador e torna o personagem mais humano. O público entende que, por trás do homem que se esconde dentro de uma loja de brinquedos, existe alguém que só quer ser notado.
O ritmo da narrativa é bem conduzido, e Cianfrance demonstra domínio ao guiar o espectador entre o riso e a emoção. O uso de cenas reais nos créditos finais reforça a verossimilhança e desperta curiosidade sobre o caso verdadeiro, o que contribui para que o público saia do cinema com vontade de saber mais sobre Jeffrey Manchester.
Em meio a tantos lançamentos grandiosos, O Bom Bandido se destaca por sua simplicidade e sinceridade. É um filme que não precisa de efeitos ou reviravoltas espetaculares para funcionar. Sua força está na empatia e na capacidade de contar uma história absurda de um jeito humano. Channing Tatum mostra uma certa maturidade dramática e Derek Cianfrance prova, mais uma vez, que sabe encontrar poesia até nas situações mais improváveis.
O Bom Bandido é, acima de tudo, um filme sobre humanidade — sobre como pessoas comuns podem se perder e se reencontrar. Misturando humor, drama e romance, o longa oferece uma experiência leve, mas cheia de emoção. Mesmo sem mergulhar profundamente nas questões sociais que aborda, ele compensa com personagens carismáticos, boas atuações e uma direção sensível. No fim, é impossível não sair da sessão com um sorriso, sentindo que acabou de assistir a uma história real contada com coração. Um dos filmes mais agradáveis e inesperadamente comoventes de 2025.