Quando O Telefone Preto estreou em 2022, passou quase despercebido em meio à retomada do cinema pós-pandemia. Mesmo sem grande campanha de divulgação, o longa de Scott Derrickson conquistou público e crítica ao entregar uma história de terror contida, de atmosfera sufocante e com uma força dramática que o diferenciava dos sustos fáceis do gênero. Agora, três anos depois, O Telefone Preto 2 chega expandindo esse universo sombrio — e, ao mesmo tempo, arriscando ao mudar completamente o tom e a estrutura que tornaram o original tão eficiente.
Na continuação, acompanhamos Finney Blake (Mason Thames), quatro anos após ter escapado de seu sequestrador, o sádico Sequestrador, interpretado por Ethan Hawke. Tentando reconstruir a vida e lidar com os traumas do cativeiro, o jovem se vê novamente envolvido com o passado quando sua irmã, Gwen (Madeleine McGraw), começa a ter sonhos perturbadores. Nessas visões, o misterioso telefone preto volta a tocar, revelando aparições de garotos perseguidos em um acampamento chamado Alpine Lake. Movida pela curiosidade e pela culpa, Gwen convence o irmão a investigar o local — e é lá que ambos descobrem que o mal nunca foi embora. O Sequestrador retorna, agora de forma sobrenatural, buscando vingança mesmo após a morte.
Scott Derrickson aposta em uma abordagem mais ousada e visceral nesta sequência. Se no primeiro filme o terror era construído a partir da ambientação claustrofóbica e do medo psicológico, aqui o diretor mergulha sem medo no sobrenatural. A atmosfera de tensão dá lugar a um horror mais explícito, com cenas fortes e uma estética visual mais agressiva. Essa mudança é perceptível não apenas no conteúdo, mas também na forma: as sequências de sonho de Gwen trazem uma fotografia granulada e distorcida, quase como um “found footage”, que intensifica o desconforto e reforça a sensação de pesadelo constante. É impossível não lembrar de obras como A Entidade — também dirigida por Derrickson — e até de A Hora do Pesadelo, já que o mal agora está também os sonhos das vítimas.
Esse novo tom, mais brutal e assombroso, pode dividir opiniões. Há quem veja coragem em Derrickson por não repetir a fórmula do primeiro filme, enquanto outros podem considerar que o diretor foi longe demais na tentativa de chocar, principalmente porque muitas das cenas envolvem crianças. Ainda assim, há mérito na maneira como o ele usa o retorno do Sequestrador para explorar o trauma e a culpa. O assassino, agora transformado em uma espécie de presença espiritual, simboliza o passado que nunca morre — uma metáfora poderosa para o peso que Finney e Gwen carregam.
Outra mudança significativa é a troca de protagonismo. Se no primeiro filme o foco era o jovem Finney, aqui é Gwen quem assume o papel central. McGraw entrega uma atuação surpreendente, carregando o filme, mesmo aos 16 anos. Sua personagem é determinada, mas também vulnerável — e é justamente essa dualidade que mantém o público conectado. Mason Thames, por sua vez, retorna em um papel menor, mais como apoio à trajetória da irmã. A dinâmica entre os dois continua sendo um dos pontos fortes da história, mantendo o vínculo familiar como o coração emocional do longa.
Entretanto, é na reta final que O Telefone Preto 2 perde parte do impacto que vinha construindo. A transição para o desfecho revela o maior problema do roteiro: a dificuldade em equilibrar o crescimento do sobrenatural com a lógica interna da narrativa. Quanto mais o filme se aproxima da resolução, mais convencional ele se torna. A ameaça que parecia incontrolável acaba sendo confrontada com soluções previsíveis, e a tensão que vinha sendo cuidadosamente construída se dilui. Derrickson tenta transformar a fé e a força emocional de Gwen em armas contra o mal, mas o resultado soa apressado e artificial. O roteiro cria uma espécie de “poder interior” que surge sem preparo suficiente, diminuindo o peso do conflito e a credibilidade da vitória final.
Essa escolha acaba afetando diretamente o antagonista. O Sequestrador, que antes representava o medo puro, o desconhecido e a morte inevitável, agora é transformado em uma figura quase física, enfrentada em um embate direto. A tentativa de materializar o horror termina por domesticá-lo. Em vez de um clímax de terror, temos uma sequência de ação que descaracteriza o que o filme vinha construindo. A aparição limitada de Ethan Hawke — que mostra o rosto em apenas duas cenas — também contribui para a sensação de distanciamento. Sua presença é sentida, mas nunca plenamente explorada, o que enfraquece a figura do vilão.
Ainda assim, há muito a se elogiar. Derrickson mostra segurança na condução das cenas mais tensas e um domínio visual que mantém o espectador imerso. A ambientação gelada e isolada do acampamento, o contraste entre o mundo real e as visões do sonho, e o uso do som — especialmente nas ligações do telefone preto — continuam sendo marcas fortes do diretor. O terror aqui é mais gráfico, mais direto, mas ainda carrega a assinatura estética e emocional que tornou o primeiro filme memorável.
O Telefone Preto 2 é, portanto, uma sequência corajosa e imperfeita. Expande o universo criado por Joe Hill e Scott Derrickson, aprofunda o componente sobrenatural e explora os laços familiares com sinceridade, mas tropeça ao tentar dar um desfecho grandioso demais para uma história que funcionava melhor na simplicidade. O filme é eficaz enquanto mantém o foco no medo psicológico e na tensão dos irmãos, mas perde força quando tenta explicar o inexplicável. Mesmo assim, há algo admirável na tentativa de Derrickson de não repetir a própria fórmula, arriscando-se em um território diferente — ainda que o resultado não tenha o mesmo equilíbrio do original.
No fim, O Telefone Preto 2 entrega um terror mais intenso e emocional, ainda que menos coeso. É uma continuação que honra o espírito do primeiro filme, mas ao mesmo tempo desmonta parte do que o tornava assustador. A coragem de experimentar é evidente, e o resultado, mesmo irregular, mostra que Scott Derrickson continua interessado em provocar, mais do que simplesmente assustar. O arco dos irmãos Blake parece encerrado com dignidade, mas o universo do telefone preto ainda tem muito a dizer — especialmente se o medo, assim como o Sequestrador, continuar a atender chamadas do outro lado.
[ Filme assistido na cabine de imprensa ]