O Poço 2 (El hoyo 2) 2024
"O Poço 2" é novamente dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia em parceria com a Netflix espanhola. Dessa vez acompanhamos a protagonista em uma nova fase na prisão vertical, onde um líder misterioso impõe regras violentas e uma nova "Revolução Solidária" tenta controlar a distribuição de comida.
"O Poço" foi lançado no Brasil em Março de 2020, ou seja, o longa chega ao Brasil bem na fatídica pandemia do coronavírus e logo ganha um grande destaque diante daquele iminente cenário. A ligação que eu fiz com o filme na época foi exatamente o cenário onde cada um pensava unicamente em si próprio, cada um queria conseguir estocar o máximo de comida possível em suas casas. Ou seja, o filme tocava exatamente nesse ponto, no egoísmo, na falta de solidariedade humana, na empatia pelo próximo, sendo uma analogia perfeita sobre a nossa sociedade principalmente naquela época. "O Poço" me surpreendeu muito ao exibir uma metáfora explícita sobre a selvageria proporcionada pelo capitalismo e o comunismo a desigualdade social.
Curioso que "O Poço 2" não estava nos planos do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. Porém, depois de 4 anos temos uma segunda parte da história, ou uma continuação, pois o título do filme leva o número 2, então podemos considerar um prelúdio ou sequência? O fato é que o longa-metragem é um prelúdio do primeiro filme, que nos mostra a primeira passagem da história que vimos no primeiro filme. Sendo assim temos o retorno dos personagens que morreram no filme anterior mas que aqui eles aparecem como a primeira parte de suas histórias - é um pouco confuso!
Dessa vez "O Poço 2" traz um foco maior na luta pela sobrevivência diante daquela rebelião que se formou contra o sistema imposto no local pela tal da "Revolução Solidária". Considerando todo o contexto temos a exibição de um sistema imperialista opressor, que impõe a lei onde cada pessoa deve comer apenas o seu próprio prato. E o curioso é o fato que mostra logo no início do filme, onde cada um dos detentos (se é que podemos considerá-los assim), faz uma exigência sobre ter diariamente a sua comida preferida. Logo podemos considerar que essa "Revolução Solidária" faz uma alusão ao nosso comportamento perante a nossa convivência em sociedade, às leis que existem e que temos que obedecê-las, e que muita das vezes descumprimos tais leis. Aquela velha história que se um pode descumprir uma lei o outro se sente no mesmo direito, onde logo temos o famoso efeito dominó.
Podemos considerar que o primeiro filme faz uma crítica ao classismo, ao capitalismo e a liberdade total, já nesse segundo temos uma crítica mais complexa que aborda o comunismo e o fanatismo religioso. Pois em dado momento observamos que eles castigam severamente os que descumprem tais leis (como a parte do braço), que é justamente uma interpretação de como as leis sagradas (ou bíblicas) são sempre interpretadas à favor de quem está impondo no momento. Também podemos considerar referências ao radicalismo extremo e o islamismo, que entra justamente a parte da mutilação de membros como punição para roubos, além da pena de morte de acordo com o Alcorão. Por outro lado também observamos uma alusão a Jesus Cristo, o messias, sobre a sua existência ter ocorrido ou não, como é discutido em uma determinada cena.
Claramente o filme é uma é reflexão sobre a riqueza e os poderes dentro da sociedade como um todo. Pois quando temos a presença daquela figura que impõe a lei local, logo temos um desafio sobre a noção de justiça, de comportamento, de solidariedade com os residentes locais, o que inflige justamente em um ambiente cruel e desumano a partir do momento da rebelião. O funcionamento do poço só serve para dar suporte ao argumento que ele propõe, pois de fato somos prisioneiros de nós mesmo e disso não podemos fugir. Seria o poço uma prisão pessoal? Uma prisão mental? A única saída é a morte? Temos várias perguntas que carecem de respostas!
Assim como no primeiro, ao término do filme ficamos com um milhão de perguntas e um milhão de possibilidades de interpretações na cabeça. Este é um dos maiores trunfos do filme, o seu poder em nos desafiar, em nos levar a reflexão profunda, de nos dar a livre opção de criarmos as nossas interpretações, de ser livre de regras, de obrigações, de rótulos, de cronologia dos acontecimentos. O próprio diretor afirmou que o filme não tem um lado certo ou errado, não existe um regra de interpretação, você é livre para criar às suas possibilidades e imaginações.
Como muitas pessoas consideram o primeiro filme excelente e este segundo ruim, eu vou por uma outra linha, eu vejo ambos os filmes dentro da mesma temática mas com propostas diferentes. Sendo assim eu considero "O Poço 2" como um bom filme, que consegue extrair ainda mais reflexões acerca da humanidade em contrapartida com o seu comportamento dentro de uma sociedade. Em como um ambiente muita das vezes pode moldar o comportamento humano em diferentes sentidos. "O Poço 2" toca em temas já discutidos no primeiro e ainda aborda outros pontos como o próprio extremismo e o fanatismo religioso.
Se permita interpretar o filme como você quiser!
- 08/11/2025