Quando Echo Valley foi anunciado, o que mais chamou a atenção, além da presença de duas estrelas como Julianne Moore e Sydney Sweeney dividindo o protagonismo, foi o peso criativo envolvido por trás das câmeras. O projeto reúne Michael Pearce, diretor premiado com o BAFTA por Beast (2017), o roteirista Brad Ingelsby, indicado ao Emmy por Mare of Easttown, e ninguém menos que Ridley Scott na produção. Era de se esperar um esforço de divulgação mais expressivo, especialmente vindo da Apple, que mesmo não sendo conhecida por campanhas grandiosas, tinha aqui uma rara combinação de talentos. No entanto, o lançamento quase silencioso do longa já parecia indicar que algo não estava completamente alinhado com as expectativas. E, de fato, não estava.
Ao assisti-lo, a impressão que permanece até os créditos finais é a de um filme que nunca soube exatamente o que queria ser. Echo Valley caminha como se estivesse dividido ao meio, com duas narrativas diferentes coladas à força por um único elemento em comum: a personagem de Sydney Sweeney. A jovem atriz, que vem se consolidando cada vez mais em Hollywood, é o rosto utilizado para vender o filme, aparecendo inclusive com mais destaque que Julianne Moore no material promocional. No entanto, na prática, sua presença é quase que simbólica. Após ser o centro das atenções no primeiro ato, Sweeney é simplesmente deixada de lado, e desaparece da narrativa de forma abrupta, sem o mínimo de transição natural. O longa tenta nos convencer de que tudo gira em torno da relação entre mãe e filha, mas nunca se dá o trabalho de desenvolver de fato esse vínculo. O que poderia ser o cerne emocional do filme, se dilui completamente na ausência de tempo de tela, de profundidade e de interesse do roteiro em explorar essa dinâmica com a sensibilidade necessária.
O primeiro ato entrega uma proposta de drama familiar e mistério, carregando nuances que remetem a conflitos não resolvidos e a tensão doméstica. Tudo parece caminhar para uma história centrada na tentativa de reconstrução dessa relação entre mãe e filha, mas, de repente, o filme muda drasticamente de rumo. Sem grandes explicações ou transições convincentes, somos jogados em um segundo arco com um tom completamente diferente — mais focado em vingança, crime e suspense. O resultado é um filme que parece colar duas metades de ideias distintas, conectadas por um único evento e uma presença pontual de Sweeney. A mudança de gênero narrativo, ao invés de surpreender, aliena. E os buracos no roteiro tornam tudo ainda mais frustrante. Existem acontecimentos que jamais são explicados, decisões tomadas por personagens sem lógica interna, e pistas narrativas que não levam a lugar algum.
Os dois grandes plot twists que sustentam o filme são, de certa forma, eficazes no susto imediato, mas rapidamente perdem impacto pela ausência de envolvimento emocional. Não há construção suficiente que nos leve a nos importar de verdade com os personagens, então mesmo as reviravoltas mais drásticas não reverberam como deveriam. O filme se apoia nesses choques para manter o interesse do espectador, mas isso acaba funcionando mais como um recurso emergencial do que como uma consequência orgânica da narrativa. O uso de personagens coadjuvantes como muletas narrativas também soa como uma tentativa de tapar os furos evidentes na trama — algo que não passa despercebido.
Julianne Moore, com sua presença sempre marcante, tenta, na medida do possível, manter o filme em pé. Ela é a força motriz do segundo ato e, ainda que não tenha o melhor material em mãos, entrega uma performance digna, que impede o filme de se tornar completamente irrelevante. Sua atuação é contida, porém intensa, como exige a personagem, e é um dos poucos pontos em que Echo Valley realmente se apoia com firmeza. Ainda assim, mesmo o talento de Moore não é capaz de salvar um roteiro que parece perdido, com direção que não consegue equilibrar tons e com escolhas criativas que comprometem a coesão do todo.
Michael Pearce, que já havia demonstrado sensibilidade e precisão em trabalhos anteriores, aqui parece um tanto deslocado. Seu controle sobre a narrativa se esvai à medida que o filme tenta ser várias coisas ao mesmo tempo, sem sucesso em nenhuma delas. A mudança de ritmo e gênero não é fluida, e a estética, embora bem cuidada em alguns momentos, não compensa a desconexão emocional do público com o que está sendo contado. O suspense não é suficientemente tenso, o drama não emociona, e a relação familiar que poderia ser o coração pulsante do longa acaba sendo apenas pano de fundo.
No fim das contas, Echo Valley é um filme que, no papel, tinha todos os elementos para se destacar — talento, estética, potencial dramático — mas que erra ao querer entregar demais sem desenvolver o suficiente. A presença de Sydney Sweeney, usada como chamariz, não se justifica dentro da trama; os momentos de impacto surgem mais como alívios momentâneos para uma narrativa que não sabe como se sustentar; e o final, que tenta soar conclusivo, apenas reforça a sensação de que tudo ficou aquém. O projeto que poderia ser um estudo sobre vínculos quebrados e caminhos de redenção se transforma, no final, em mais um exemplo de roteiro ambicioso demais para sua própria estrutura.