Crítica | Invocação do Mal 4: O Último Ritual — Um ritual final marcado pela emoção e pela familiaridade
Desde que Invocação do Mal estreou em 2013, o universo cinematográfico dos Warren tornou-se sinônimo de terror religioso contemporâneo. Em Invocação do Mal 4: O Último Ritual (título original: The Conjuring: Last Rites), a franquia entrega aquilo que anunciava: um desfecho para Ed e Lorraine Warren — mas ao fazer isso, busca equilibrar a conclusão de um legado com uma história que ainda sustente o susto e a tensão.
Dirigido por Michael Chaves — que já esteve à frente de The Nun II e Invocação do Mal: A Fúria do Diabo — o filme tenta fechar ciclos e revisitar temas centrais sem sacrificar a aura sobrenatural que se tornou marca registrada da saga.
O que mudou / o que o filme propõe
Uma trama mais intimista e centrada: Em vez de expandir para novos casos dramáticos, Último Ritual volta ao básico: um espelho ancestral, uma família assombrada — o caso Smurl — e a urgência espiritual que sempre permeou a Bros. integrou o “caso do espelho” desde um prólogo ambientado em 1964, para tornar o arco circular e simbólico.
Tempo e legado: O longa se passa em 1986, já com Ed e Lorraine enfrentando limitações — Ed sofre com problemas cardíacos, e a notoriedade dos Warren está em declínio. A atriz Mia Tomlinson assume o papel de Judy Warren, agora adulta, incorporando o elemento familiar como peça central da narrativa.
Convergência com o passado: O espelho que assombra a família Smurl é o mesmo que, décadas antes, influenciou eventos traumáticos na vida de Lorraine, unindo passado e presente no mesmo ritual desesperado.
Humano em primeiro plano: Em comparação a alguns filmes anteriores que privilegiam o espetáculo demoníaco, Último Ritual foca mais nos Warren, seus dilemas, sua fé e suas relações familiares — especialmente com Judy e seu namorado Tony (Ben Hardy).
Essas propostas não revolucionam a fórmula, mas evidenciam uma tentativa consciente de oferecer um encerramento digno para personagens que já fazem parte do imaginário do terror moderno.
A essência mantida
Apesar de buscar novos contornos, o filme preserva muitos elementos que consagraram a franquia:
A presença demoníaca: O mal continua atuando de forma furtiva, manipuladora, distorcendo percepções, fechando portas, criando labirintos psicológicos — mesmo que às vezes o CGI suavize o efeito.
Atmosfera religiosa: Rituais, símbolos católicos, igrejas, cruzes e a fé como contrapeso ao horror seguem sendo o terreno onde o filme mais se firma.
Tensão e sustos clássicos: O clássico balanço entre construção silenciosa, sombras e sustos repentinos — embora o filme recorra com frequência a jump scares e sons altos — permanece como recurso narrativo.
Relatos reais e mitologia da franquia: A história tira inspiração do caso real dos Smurl, bem como aproveita a mitologia já construída nos filmes anteriores para ressoar com fãs da saga.
Assim, O Último Ritual continua reconhecível como um filme do Conjuring Universe, com seus símbolos, seus medos e sua fé.
Pontos fortes
1. Emoção em meio ao terror
Um dos acertos mais claros do filme é apostar no vínculo entre Ed, Lorraine e Judy. Ao humanizar a trajetória dos Warren — com medos, desgaste, escolhas e limites — o filme ganha peso dramático além dos sustos.
2. Atuações sólidas
Patrick Wilson e Vera Farmiga, mais do que figurantes da franquia, conferem credibilidade emocional aos personagens. Eles trazem uma “história vivida” para a tela.
3. Ritmo e estrutura narrativa
Embora o filme tenha momentos de lentidão, sua progressão é clara: apresentação, construção de mistério, escalada do mal e confronto final. A evolução da trama funciona bem para quem já conhece a fórmula.
4. Episódios de terror bem construídos
Alguns momentos — como cenas com espelhos, sequências em corredores escuros, manipulações visuais — destacam-se pela direção bem pensada, uso de tensão gradual e envolvimento sensorial.
5. Fechamento simbólico e ambicioso
O uso do espelho como elemento narrativo central cria um jogo de reflexão — literal e metafórico — sobre trauma, legado e exorcismos internos. A proposta de “último caso” dos Warren é carregada de simbolismo e talvez represente um ponto emocional mais alto da saga.
O que pode dividir opiniões
Dependência de fórmulas conhecidas
Para alguns espectadores, Último Ritual se apoia demais em convenções já gastas da franquia — jump scares previsíveis, tropeços de lógica demoníaca no final, exposição de mitologia em vez de mistério.
Pacing desigual
Há trechos narrativos que parecem se arrastar, especialmente antes da convergência entre os Warren e a família Smurl. Alguns críticos sugerem que o filme poderia ter sido mais enxuto (por volta de 120 minutos) em vez de seus 135.
Uso de efeitos visuais
Em certas sequências mais “viscerais”, o film recorre a CGI ou manipulações digitais que “limpam” o horror em vez de torná-lo crível. Isso pode diluir parte do efeito assustador.
Lógica demoníaca inconsistente
Em momentos finais, algumas capacidades do mal parecem esquecidas ou mal explicadas (portas que deveriam estar seladas, personagens que deveriam agir com obstinação e às vezes são passíveis de ser superados com relativa facilidade). Essa simplificação dramática incomoda espectadores mais atentos.
Peso da expectativa como “último capítulo”
Ao anunciar um encerramento para os Warren, o filme carrega um fardo: precisa ser memorável, simbólico, ressonante. Para muitos, ele oferece um desfecho emocional satisfatório para os personagens, mas não um terror inovador ou profundamente inesquecível. A sensação de “filme competente, mas não brilhante” divide opiniões.
Veredito
Invocação do Mal 4: O Último Ritual oferece um ritual final que privilegia o humano, o simbólico e o emocional, mais do que a pura escalada demoníaca. Ele traz momentos impressionantes de terror, atuações dignas e um encerramento que ressoa com quem acompanhou a franquia desde o início.
Por outro lado, não se arrisca tanto quanto poderia: muitas fórmulas já vistas retornam, e alguns tropeços narrativos diminuem o impacto. Mesmo assim, como despedida de Ed e Lorraine Warren, é um capítulo digno — que provavelmente agradará fãs fiéis mais do que buscadores de inovações no gênero.
⭐ Minha nota: 5,0/