CRÍTICA: “A SUBSTÂNCIA”- ENTRE A REFLEXÃO E O EXCESSO
Fui assistir a A Substância carregado de expectativas. A premissa do filme se desenhava promissora: um olhar instigante sobre a pressão estética, o peso do tempo sobre o corpo feminino e a solidão que muitas vezes acompanha esse processo. De fato, a narrativa se constrói a partir de uma provocação relevante e atual. Contudo, ao longo da projeção, a obra acaba se perdendo em sua própria estética, entregando-se a um espetáculo de violência gráfica que, ao invés de aprofundar o discurso, o dilui em um delírio visual que flerta perigosamente com o desnecessário.
É inegável que A Substância possui um encerramento ousado e uma história que desafia convenções, mas a forma como a trama se desenrola mina parte de seu impacto. A premissa inicial sugere uma alegoria poderosa sobre a obsessão com a juventude, o terror da decadência e as imposições estéticas que recaem sobre as mulheres. No entanto, o desenvolvimento desse conceito sofre de um desequilíbrio: ao optar pelo grotesco como ferramenta narrativa, o filme ultrapassa o limite da provocação e entra no terreno do choque pelo choque.
O excesso de cenas violentas não apenas rouba a atenção do que deveria ser o verdadeiro epicentro da obra – o debate filosófico e social sobre o envelhecimento e a feminilidade –, como também cria um abismo entre a proposta reflexiva e sua execução cinematográfica. Em outras palavras, a falta de um diálogo orgânico entre a crítica proposta e a estética do horror exacerbado resulta em uma dissonância que prejudica a experiência. A sutileza, que poderia ter elevado o filme a um patamar mais instigante, é substituída por uma sucessão de imagens que parecem competir entre si pelo título de mais extrema.
Claro, o cinema é um espaço de experimentação, e não há problema algum em flertar com o bizarro e o perturbador. O problema surge quando esses elementos não servem ao propósito maior da narrativa, mas sim a um desejo quase fetichista de desconforto. O que poderia ser um thriller psicológico de alto nível acaba soando como um devaneio que, ao invés de amplificar a mensagem, a esconde sob camadas de exagero surrealista.
No fim das contas, A Substância desperdiça uma grande oportunidade de trabalhar, com profundidade filosófica e psicológica, um tema tão essencial para os dias de hoje. O conceito estava lá. A crítica social estava lá. Mas a execução pareceu mais preocupada em chocar do que em convidar o espectador a refletir. E quando a brutalidade sobrepõe a substância, ironicamente, resta muito pouco além do impacto fugaz de imagens difíceis de digerir.