Até alguns anos atrás, eu não teria dúvidas em comemorar um filme que desmoraliza o governo americano, abrindo uma possibilidade de sua derrubada e quem sabe, plantando uma sementinha revolucionária no coração de algumas pessoas. Mas hoje, quando me deparo com esta possibilidade, arrepio de pensar em que "facção" teria mais chance de ocupar este espaço e no fundo fica aquela dúvida se o pésimo que existe hoje não seria ainda melhor que algo difícil inclusive de ser adjetivado.
Mas sobre as personagens e todo o lado psicológico delas, que foi a única parte mais marcante pra mim no filme, queria falar da desumanização e da normalização da tragédia. Este é o caminho percorrido pelas fotógrafas, que parece ser uma necessidade de sobrevivência para a profissão fotógrafo de guerra. Até acho que Kristen esteja numa fase meio de "remissão", tipo se voltando novamente para o coração, e esteja ficando para ela mais difícil fazer uso de sua couraça nos momentos que ela deseja, como parece que sempre foi. Jå a garota, parece ter tido um treinamento intensivo e muito bem sucedido ao longo do filme nesta aula de endurecimento. Aprendeu direitinho com a sua mestre, com o resultado de ocupar o seu lugar.
Mas enfim, queria fazer uma reflexão: será que este extremo de desumanização que o filme apresenta, não seria uma alegoria para a vida de todos nós? Todos nós que optamos por nos enquadrar no sistema, que ignoramos a miséria, a desigualdade , a violência do Estado sobre os mais pobres, para poder manter uma vida "funcional" e com um nível de conforto adequado? Ou todos aqueles que vivem nas favelas e lidam com o outro lado desta história, presenciando e vivendo na pela o resultado desta desigualdade, desta violência, desta injustiça social.
Será que pra viver neste nosso tempo é condição básica aprender a se desumanizar?
Será que o nosso destino, quando tentamos resgatar o coração é deixar de existir, como aconteceu com a Kristen?
Essa banalização da miséria humana parece ser estratégia do sistema, que não conseguiria existir sem isso. Quem conseguiria viver neste mundo sem esta couraça? Quantas vezes ignoramos a miséria somente hoje? Quantas vezes tive que gerenciar o mal estar gerado pelo que vi e pela culpa que esta atitude pode ter me causado?
O filme é o extremo disso que é nossa realidade cotidiana. Joga na cara o que somos, o que aprendemos a ser. E não apresenta saída pra isso, muito pelo contrário.
Afinal, seria impensável perder a chance de fotografar a morte do presidente. O corpo da minha amiga pode esperar um pouquinho...