A História do Som é um filme que respira contemplação. Desde os primeiros minutos, fica claro que não estamos diante de um romance convencional, mas de uma história que se constrói na sutileza, nos silêncios e naquilo que permanece mesmo depois que tudo termina. Sob a direção de Oliver Hermanus, o longa aposta na preservação, na memória e na maneira como o passado molda quem somos. É um drama sensorial, delicado e, ao mesmo tempo, emocionalmente ambicioso.
Mesmo encontrando alguns escorregões ao longo do caminho, o filme consegue atingir um impacto forte em seu desfecho. Ele pode não ser expansivo em acontecimentos, mas é intenso naquilo que decide guardar e, principalmente, no que escolhe não dizer.
Dirigido por Oliver Hermanus e roteirizado por Ben Shattuck, a partir de sua própria obra, o filme reúne dois nomes em ascensão: Paul Mescal e Josh O'Connor. Há uma curiosidade natural em torno do projeto. Hermanus já demonstrou interesse por histórias marcadas por identidade e repressão, e aqui volta a explorar um romance entre dois homens em um contexto histórico que impõe limites silenciosos.
A narrativa acompanha Lionel e David, que compartilham o interesse pela música folk e partem em uma jornada para registrar canções e vozes que correm o risco de desaparecer. Esse movimento de preservação não é apenas cultural, ele se transforma na metáfora central do filme. Registrar sons passa a ser uma tentativa de manter vivas experiências que o tempo insiste em apagar.
O romance entre Lionel e David é construído com intensidade. Existe desejo, urgência e um sentimento constante de que o tempo está contra eles. O contexto histórico impõe restrições claras, mas o filme opta por sugerir essa repressão em vez de dramatizá-la abertamente. Eles se encontram em espaços isolados, evitam demonstrações públicas de afeto e vivem um amor que não pode ser plenamente assumido.
Aqui surge uma tensão interessante: o relacionamento é forte na emoção, mas nem sempre profundo na construção. A intensidade sustenta o envolvimento, mas em alguns momentos falta densidade para que essa relação vá além do sentimento imediato. Isso não enfraquece o romance por completo, mas limita o alcance do conflito. O filme não transforma o amor proibido em centro dramático, ele o usa como base para falar de ausência e memória.
Ainda assim, a força emocional se mantém, principalmente pelas performances. Paul Mescal entrega uma atuação contida e poderosa, carregando muitas cenas apenas com o olhar ou com o silêncio. É nele que o filme encontra seu coração. Josh O’Connor trabalha em registro mais reservado, o que faz sentido narrativamente, já que sua presença se torna mais distante com o passar do tempo. A química entre os dois é o que sustenta boa parte da jornada.
A música é o grande elo do filme. Não estamos diante de um musical tradicional, mas de um drama que utiliza canções como extensão da memória. Cada gravação funciona como registro de algo que já está desaparecendo pessoas, momentos, sentimentos. No terceiro arco, quando a ausência se torna definitiva, é justamente a música que permanece. O som vira lembrança palpável. É o que resta.
Essa relação entre som e silêncio é um dos acertos de Hermanus. O diretor entende que o silêncio também comunica. Há cenas em que não se fala nada, mas tudo é dito. O impacto emocional nasce dessa contenção. Quando o filme acerta, ele toca profundamente porque não exagera, ele confia na delicadeza.
No entanto, essa mesma escolha estética traz desafios. Em alguns momentos, especialmente no segundo arco, a narrativa parece girar em círculos. As passagens de tempo e a tentativa de Lionel de seguir a vida criam uma sensação de repetição. A intenção é mostrar como a memória persiste, mas o efeito pode soar como estagnação para parte do público. O ritmo desacelera e a carga dramática oscila.
Não se trata de incoerência, mas de risco. O filme aposta em um andamento lento e contemplativo, e nem todos embarcam nessa proposta. O primeiro arco estabelece bem a relação e o terceiro entrega um desfecho forte e melancólico. O segundo, porém, pode afastar quem espera progressão mais evidente. Ainda assim, é justamente esse tempo dilatado que prepara o impacto final. Quando a revelação sobre o destino de David surge, o peso é maior porque o silêncio já vinha acumulando dor.
A temática da pós-memória se consolida no encerramento. O amor não desaparece, ele ecoa. Mesmo com novos relacionamentos e anos de distância, Lionel permanece ligado a David por aquilo que viveram. O filme sugere algo simples e cruel: o amor verdadeiro pode surgir, mas não necessariamente no momento certo. E o que sobra, no fim, são lembranças guardadas como as canções que eles decidiram preservar.
Visualmente, a fotografia rural contribui para essa sensação de isolamento e passagem do tempo. As paisagens amplas contrastam com a intimidade dos encontros, reforçando o sentimento de que o mundo é maior do que aquela história, mas incapaz de acolhê-la plenamente.
A História do Som é um filme delicado, sensorial e emocionalmente sincero. Encontra em seus protagonistas a força necessária para sustentar uma narrativa que depende mais de sensação do que de acontecimentos. A música e o silêncio trabalham juntos para construir um retrato sobre amor e memória que permanece após o último plano.
Ao mesmo tempo, é um longa que exige entrega. Sua intensidade não vem de grandes conflitos externos, mas daquilo que fica guardado. Para alguns, essa escolha pode soar como falta de profundidade ou excesso de contemplação. Para outros, será justamente o que torna a experiência tocante.
No fim, trata-se de uma história sobre o que permanece quando tudo passa. Um romance que talvez não ultrapasse todos os limites emocionais que promete, mas que encontra beleza naquilo que decide preservar. E quando as lembranças são tudo o que resta, o som se torna eterno.