Segundo Finn Skårderuds, nascemos com uma defasagem de 0,05% de álcool no sangue e, apesar de parecer insignificante, essa porcentagem faz toda a diferença. Para corrigir a indesejada defasagem e equilibrar naturalmente o álcool ausente, recomenda-se beber com frequência. Recomenda-se tomar, todos os dias, uma ou duas taças de vinho para nos “completar”.
Você pode estar se sentindo insatisfeito, parado, desanimado, sem aquele fôlego de inspiração, sem aquela pitada peculiar de brilhantismo, sem aquela porção preciosa de criatividade. Andando em meio a um caminho íngreme e pedregoso, surfando nas asas da mediocridade, lutando para ter uma ideia, buscando o novo, querendo mais e nunca obtendo. Que situação dramática! Isso pode ser frustrante. Segundo Skårderuds, isso pode ser resolvido com o álcool.
Mesmo que suas aulas pareçam morosas e cansativas. Quando seus alunos te dão as costas e saem da sala. Quando as pessoas não te dão bola, mesmo seus filhos. E especialmente quando nem a sua autocrítica esforçada pode te salvar. Sua vida e seu trabalho perderam o sabor e a cor. Deve haver alguma saída.
E uma possibilidade vem na forma de uma vodca que faria qualquer Czar sorrir de alegria, um líquido especial, com uma textura única aveludada e encorpada, produto de um processo sofisticado e meticuloso que, dentre outras coisas, cristaliza a água e fermenta com precisão grãos selecionados. Uma bebida rica. Por que não? Irresistível!
O filme dinamarquês é direto e objetivo, sem enrolação, mesura ou reverência. Um impacto forte e localizado para embasar uma crítica social poderosa ao mesmo tempo em que não esquece, durante o terceiro ato, de mencionar o verdadeiro propósito do álcool através de algumas cenas marcantes que fortalecem o filme.
O roteiro é primoroso, abdicando de qualquer artifício que possa acabar mascarando o tema e desviando-o de seu propósito. Dentre outras coisas, a história aborda o tema da ousadia e a verdade dura que a nação deve aceitar: nenhum brilhantismo advém do álcool. Nenhuma substância alcoólica vai te inspirar ou melhorar sua vida. Não te dará aquela grande sacada que procura.
Por esta razão, a frase de Kierkegaard, filósofo dinamarquês, que abre o filme, se torna tão necessária: “O que é a vida? Um sonho. E o amor? O conteúdo desse sonho”. Essa é a verdadeira diretriz que deve guiar a nação. O álcool vem depois. Desde que saibamos que não é a solução.