Cinebiografias são uma faca de 2 gumes. Pela facilidade de não precisar inventar uma história, pois ela já existe, é muito fácil cair no lugar comum, no clichê. Por outro lado, pelo mesmo motivo, os fãs da pessoa retratada já tem uma história na cabeça, é mais fácil ainda decepcioná-los. O diretor tem que ter pulso firme para não criar um filme genérico, sem personalidade. Do meu ponto de vista, o diretor e roteirista Esmir Filho conseguiu. Soube que ele teve o auxílio luxuoso de Ney. Dono de uma memória prodigiosa, acredito que muito do mérito pela autenticidade do roteiro cabe a ele. Ney Matogrosso teve mais sorte do que Gal Costa: além de estar vivíssimo para assistir o filme, Homem com H é bem superior a Meu Nome é Gal. O filme dá conta de toda a trajetória de Ney, da infância em Mato Grosso à velhice (palavra que não cabe no artista, ainda em plena atividade). O cantor atravessou gerações, encantou e serviu de inspiração aos brasileiros - não só a homossexuais, mas todos os espectros sexuais, de A a Z. Quem não viveu os anos 70 não tem ideia da revolução que foram os Secos & Molhados. Só essa fase daria um filme - senti falta de mais cenas retratando essa época. O filme é muito bem produzido, interpretado e dirigido. Emociona, diverte e arrebata nas cenas do shows. O diretor-roteirista Esmir Filho, com esse trabalho, dá um grande salto na carreira, e Jesuíta Barbosa firma-se como um dos melhores de sua geração. Assistir Homem com H na tela de cinema foi, para mim, uma experiência visceral, engrandecedora. Vale muito a pena conferir.