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    A Mulher do meu Marido
    Críticas AdoroCinema
    1,0
    Muito ruim
    A Mulher do meu Marido

    Cinema paisagem

    por Bruno Carmelo

    Joana (Luana Piovani), dona de casa, é casada com um rico ginecologista. A bela mulher ocupa seus dias fazendo compras e passeando pelas praias do Rio de Janeiro. Pedro (Paulo Tiefenthaler), o marido médico, “vive no meio das pernas das mulheres”, como afirma um personagem, além de ter um caso com uma paciente em seu consultório. Joana é traída, mas não se importa: pelo menos o marido parece mais feliz desde que encontrou outra. Pilar (Aylin Prandi) e Martin (Francisco Andrade) formam um casal argentino morando no Rio. Ela trabalha como guia turística de vez em quando, ele faz alguns serviços de garçom. O casal tem uma casa grande, espaçosa, e também dedica seu tempo a flanar pela cidade. Ela pensa em ter um filho, embora não a vejamos se submetendo ao tratamento de fertilidade. Ele se preocupa em evitar o glúten: “Preciso secar e ganhar massa muscular!”, grita à esposa, revoltado diante de um prato de macarrão.

     

    Os caminhos dos quatro se cruzam quando a esposa de um começa a sair com o marido da outra, e vice-versa. A premissa, ainda que improvável, poderia render farto material para uma farsa, com diversas identidades trocadas, amantes escondidos no armário, coincidências e quiproquós ilimitados. A ideia também renderia uma crônica social interessante, afinal, temos um casal de classe privilegiada contra dois funcionários mal remunerados, dois brasileiros contra dois argentinos, dois homens machistas contra duas mulheres de fortes instintos maternos. No entanto, A Mulher do Meu Marido prefere evitar essas leituras: os minúsculos conflitos, quando existem, são resolvidos na cena seguinte, através de diálogos. A filha Paula (Gabi Lopes), uma combinação curiosa de progressista e moralista, vigia a vida sexual dos pais, mas depois desiste dos planos. Ela se apaixona, e depois também desiste do rapaz. A melhor amiga Carla (Maria Clara Gueiros) surge apenas para dar a réplica para Joana, e depois desaparece. A amante fica furiosíssima por esperar num quarto de motel, mas a raiva logo passa. A esposa brasileira rejeita o amante argentino, depois se encanta com ele, e depois se cansa novamente.


     


    Esta vida recheada de belas pessoas entediadas, preocupadas apenas com seus amores e desamores, seus casos de hoje e de amanhã, poderia ser descrita como exemplo típico dos chamados white people problems, ou seja, minúsculos conflitos de natureza efêmera e individual, desconectados da realidade. Joana deveria tomar café ou champanhe com o amante? Pedro embarca numa viagem paradisíaca com a amante ou espera mais um pouco? O diretor Marcelo Santiago busca atenuar este mundo superficial ao criar algumas cenas dramáticas (os homens traidores, vejam só, são na verdade românticos enrustidos) e ao incluir, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, um personagem gay e outro muçulmano, apenas citados como tal, para constar – nunca os vemos praticando sua sexualidade ou religiosidade. De modo geral, o projeto embarca num um universo-cenário que coloca pessoas lindas em cenários lindos discutindo amenidades. Este é o tipo de cinema escapista por excelência, apostando na vocação da imagem em representar um mundo idealizado.

     

    A Mulher do Meu Marido se assemelha bastante a uma telenovela. A direção de fotografia parece ter sido instruída a incluir o máximo de imagens do Pão de Açúcar possíveis, além de muitos outros cartões postais da cidade (museus modernos, cais do porto etc.). As pessoas praticamente não interagem com estes espaços, relegados à função acessória de beleza e de luxo – os personagens passam o dia se deleitando nesses espaços porque podem, porque não têm mais nada a fazer. O ócio e o luxo são vistos como privilégios acessíveis tanto à socialite quanto ao garçom e à guia turística, com direito a cenas de café da manhã e jantar dignas de propagandas de margarina, e múltiplas tomadas aéreas da praia vista por drones. A trilha sonora invade as imagens com canções ora óbvias (“Ninguém é de ninguém”, canta a letra em duas ocasiões distintas), ora reincidentes, espécie de trilha impessoal e insistente, com medo de criar o silêncio, o desconforto, a reflexão. É preciso distrair o espectador.


     


    Por isso entram em cena câmeras lentas da amante escultural entrando no consultório do médico, um único bar-restaurante filmado sempre pelos mesmos ângulos, uma piada óbvia de consumo de drogas confundido com sexo. Esses elementos existem porque são fáceis, porque estavam acessíveis, porque se resolvem em menos diárias, em diálogos simples, e porque evocam um imaginário popular do que seria a vida dos ricos, o que seria estar num motel com uma bela mulher de lingerie ou um belo homem de cueca, estar num restaurante de luxo ou no consultório do homem que faz mulheres voarem da Argentina exclusivamente para suas consultas. Quando Joana caminha na praia, ela imediatamente encontra uma apresentação musical povoada por pessoas lindas, iluminadas por lâmpadas artificiais. Mesmo os projetos sociais da empresa de engenharia que patrocina o filme são incluídos no diálogo, da maneira mais artificial possível – o que também constitui, no caso, a solução mais fácil encontrada. Assim opera este projeto irremediavelmente fácil.

     

    Será interessante, pelo menos, acompanhar a reação do público a este modelo tão anacrônico de cinema popular, especialmente em tempos de Brasil dividido, lutando para atrair o público às produções nacionais. Luana Piovani estrelou outras comédias românticas bem-sucedidas comercialmente como O Casamento de Romeu e Julieta e A Mulher Invisível, e a família Barreto, produtora do projeto, possui ampla experiência em filmes do gênero. No entanto, o país parece ter mudado. Nossa percepção da sociedade e da cultura se transformou; a imagem da Zona Sul do Rio de Janeio como fetiche da sociedade ideal também sofreu desgastes. As comédias românticas são raras nas salas de cinema, enquanto este tipo de imagem-colírio tem encontrado seu nicho na televisão e na Internet. Caso conquiste o público esperado, mostrará que resta algum fôlego ao romantismo folhetinesco. Caso não atinja seus objetivos, representará um sintoma da necessidade de repensar esta concepção bem específica do cinema e do mundo ao redor.

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