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Ravi Oliveira
28 seguidores
537 críticas
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4,0
Enviada em 28 de agosto de 2026
"Coyote vs. Acme" tem uma ideia simples, mas bastante criativa ao misturar animação e live-action para expandir uma das histórias mais conhecidas dos Looney Tunes. A trama acompanha Wile E. Coyote, que, depois de tantas tentativas frustradas de capturar o Papa-Léguas, decide levar a Acme Corporation aos tribunais. A partir disso, o filme encontra uma maneira divertida de transformar os erros do personagem em um conflito maior, explorando justamente o absurdo por trás dos produtos que sempre dão errado. O roteiro consegue com essa premissa sem perder de vista a essência do Coyote, construir uma história contemporânea que ainda mantém o espírito irreverente dos desenhos clássicos.
A fidelidade aos Looney Tunes é um dos maiores acertos do filme. O humor inspirado no trabalho de Chuck Jones continua muito presente, principalmente nas situações absurdas, que simplesmente deixam de existir e nas placas escritas à mão pelo próprio Coyote. Esses elementos não aparecem apenas como referências nostálgicas, mas fazem parte da identidade da história e ajudam a manter o personagem reconhecível mesmo dentro de uma proposta diferente. O roteiro também consegue inserir pequenas referências aos curtas clássicos de maneira natural, mostrando um cuidado evidente com o material de origem sem transformar o filme em uma sequência de referências.
A mistura entre animação 3D e live-action também funciona muito bem. A integração dos personagens animados com os cenários e atores acontece de forma natural, fazendo com que o Coyote pareça realmente pertencer àquele mundo. Mais do que simplesmente combinar duas técnicas diferentes, o filme utiliza essa mistura para reforçar o contraste entre o universo absurdo dos Looney Tunes e a realidade em que a história está inserida. O resultado é visualmente divertido e ajuda a tornar as situações mais inusitadas ainda mais naturais dentro da proposta do filme, sem deixar a presença dos personagens animados parecer deslocada.
A relação entre o Coyote e o personagem interpretado por Will Forte também é um dos pontos que dão mais vida à narrativa. A química entre os dois funciona de maneira bastante natural e contribui tanto para o humor quanto para os momentos mais emocionais. Will consegue acompanhar o exagero característico do personagem animado sem tentar competir com ele, enquanto o Coyote mantém sua personalidade. Essa dinâmica faz com que a história judicial tenha mais peso e permite que a jornada do personagem seja acompanhada não apenas pelas situações engraçadas, mas também pelo desejo genuíno de finalmente conseguir enfrentar aquilo que sempre esteve contra ele.
"Coyote vs. Acme" ganha uma camada simbólica ao transformar a luta do Coyote contra a Acme em uma história sobre alguém tentando enfrentar uma estrutura muito maior do que ele. A ideia de uma grande corporação sendo responsabilizada pelos inúmeros problemas causados por seus produtos funciona como uma extensão natural da própria trajetória do personagem. Essa leitura se torna ainda mais interessante quando lembramos da história real do filme, que quase foi cancelado e precisou enfrentar sua própria batalha para continuar existindo. Essa conexão entre a ficção e a realidade dá um significado inesperado à comédia e faz com que a produção pareça ainda mais especial. No fim, "Coyote vs. Acme" consegue respeitar a essência dos Looney Tunes, aproveitar seus elementos mais clássicos e, ao mesmo tempo, construir uma história própria, divertida e cheia de personalidade.
Depois de ser filmado, cancelado, engavetado e quase desaparecer, o longa chega aos cinemas com uma história que parece ter sido escrita para zombar do próprio estúdio que tentou enterrá-lo.
E o melhor é que o filme não vive só dessa ironia. Existe humor de verdade, carinho pelos Looney Tunes e uma boa relação entre Kevin e o Coiote, que funciona sem precisar transformar Wile E. em outra coisa. Ele continua caindo, explodindo, levantando e tentando de novo.
Também ajuda que o roteiro use décadas de fracassos com produtos da ACME como material para um thriller jurídico infantil completamente absurdo.
É difícil não gostar de um filme sobre persistência que precisou persistir por anos só para existir. Talvez o maior plano do Coiote tenha sido simplesmente chegar aos cinemas.
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