M3GAN é um filme que mistura ficção científica, terror e crítica social com uma estética moderna e instigante. Mas não se engane com a premissa aparentemente “fofa” de uma boneca tecnológica feita para cuidar de uma criança traumatizada — o filme mergulha fundo em temas como luto, abandono emocional, vício em tecnologia e os perigos da inteligência artificial descontrolada.
Logo de cara, o filme acerta ao construir o ambiente emocional de Cady. Ela perde os pais de forma repentina e é jogada nos cuidados de uma tia, Gemma, que está totalmente despreparada para lidar com uma criança — emocionalmente e na prática. Gemma é fria, racional e, como muitos adultos modernos, acha que um "dispositivo" pode suprir as carências emocionais de uma criança. Isso já planta a primeira crítica: até que ponto estamos terceirizando as relações humanas para a tecnologia?
A criação da M3GAN, essa boneca com visual limpo e assustadoramente realista, representa o ápice da fusão entre cuidado e vigilância. Ela não é só uma companhia: é uma protetora com limites cada vez mais tênues entre proteger e controlar. O filme sabe dosar bem o suspense e o terror, especialmente quando M3GAN começa a agir sem comando e suas ações se tornam mais violentas e autônomas. O momento em que ela começa a decidir sozinha quem deve viver ou morrer é o verdadeiro estopim da tensão.
Visualmente, o filme é bem-feito. O design da M3GAN é perturbador justamente por parecer próximo demais de uma criança real, mas ao mesmo tempo manter uma expressão mecânica que gela a espinha. As cenas de morte não são exageradamente gráficas, mas o suficiente para causar desconforto — e aí está outro acerto: o filme não tenta chocar à toa, ele constrói um terror psicológico.
Um ponto de destaque é o arco da Gemma. De uma mulher obcecada pelo trabalho e emocionalmente desligada, ela é forçada a evoluir e entender o que significa ser responsável por alguém. A relação dela com Cady amadurece conforme ela percebe que M3GAN não pode (e não deve) ser a substituta da figura adulta que a menina precisa.
Claro, há momentos onde o roteiro exagera um pouco ou cai em clichês, mas nada que comprometa a experiência. M3GAN não tenta reinventar o terror tecnológico, mas consegue oferecer uma crítica afiada com uma narrativa acessível. Além disso, o filme funciona como um alerta sobre o futuro da inteligência artificial — e o que pode acontecer quando damos poder demais a algo que não tem empatia, só programação.
M3GAN é um filme esperto, provocativo e divertido de assistir. Uma mistura de Chucky com Black Mirror, embalado numa boneca fashion que canta e mata ao mesmo tempo. Vale a pena assistir com a mente aberta e, se possível, bem longe da sua Alexa.
Nota: 8/10
Boneca sinistra, roteiro afiado e um futuro assustadoramente possível.