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    A Vida de Diane
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    A Vida de Diane

    Quem cuidará dos cuidadores?

    por Bruno Carmelo

    Ao longo de mais de noventa minutos, o espectador verá pouquíssimas imagens de Diane (Mary Kay Place) sozinha. Ela está sempre cercada de pessoas, de dia até à noite: a mulher de idade passa os dias cuidando da prima doente, levando comida ao filho dependente de drogas, visitando os vizinhos idosos, escutando as notícias de uma amiga, servindo comida a moradores de rua. Diane não enfermeira nem assistente social, embora dedique todos os seus dias a cuidar dos demais. A tarefa não surge como fardo, nem prova da bondade da personagem: ela o faz com uma naturalidade mecânica, cotidiana.

     

    Um dos principais méritos deste drama é a abordagem naturalista, tão carinhosa quanto desafetada, a partir do material típico do melodrama. Diane se confronta diariamente à morte e à doença, sem falar em seu próprio envelhecimento. Ela possui traumas passados – algo que descobrimos aos poucos, discretamente – mas tanto a personagem quanto o espectador se encontram diante de uma situação crônica: a cuidadora encontra todos os dias as mesmas pessoas que, apesar dos cuidados, não parecem melhorar, nem piorar. O diretor Kent Jones explora a rotina de repetições através de uma luz fria, contrastada, e dos cômodos filmados pelos mesmos enquadramentos. Para o bem ou para o mal, este projeto sobre o tempo é marcado pela imobilidade.


     


    Por esta razão, a primeira metade do filme pode soar estática, de ritmo excessivamente linear. Não é fácil retratar a monotonia da personagem sem transmiti-la ao público, ou ainda falar da repetição sem se tornar, por si só, repetitivo. Jones conta com a ajuda de uma grande atriz: Mary Kay Place traz um semblante permanente de cansaço, um sorriso discreto e pouco entusiasmado, embora consiga encontrar variações preciosas em cada cena, entre o otimismo e a desesperança, entre a calma e a raiva. A primeira parte do roteiro se inscreve no típico “drama de personagens” acompanhando uma pessoa comum para onde vá, sem emitir grandes comentários sociais, e justificando sua modéstia estética pelo privilégio dado ao material humano.

     

    Assim como Diane se sacrifica para ajudar aos outros, a ambição estética se sacrifica para não roubar o holofote da atriz e protagonista. Trata-se de uma intenção nobre, ainda que questionável: sempre é possível aliar criatividade visual ao humanismo, sem que um precise se sobrepor ao outro. Mesmo assim, a impressão inicial seria de nos encontrarmos diante de um drama “virtuoso”, transmitindo através da protagonista e das imagens o valor moral do desapego, da humildade, da entrega ao próximo. Diane é cristã e moderadamente religiosa, porém seu heroísmo discreto a converte numa pequena mártir do cotidiano, daquelas que não entrarão para os livros de História.

     

    A segunda metade da narrativa se torna muito mais interessante ao provocar ruídos neste caos organizado. Aos poucos, algumas pessoas doentes morrem, enquanto outras melhoram e não precisam mais de cuidado. Diane começa, por sua vez, a necessitar de ajuda, que aparece às vezes de modo fraterno, e em outros momentos, numa roupagem bastante intrusiva. Como esta mulher, que passou a vida ajudando aos outros, aceitará o fato de ser ajudada pela primeira vez? O filme passa a permitir variações na repetição, surpresas na trajetória dos personagens, além de momentos de catarse após tantas cenas de sentimentos contidos. Jones fornece enfim algumas cenas de poesia – o simples e belo passeio pela neve -, além do discurso crítico sobre o “salvacionismo” cristão e a ironia de tirar de sua personagem a razão de viver: sem doentes para cuidar, para que serve Diane?


     


    Partindo de uma premissa simples, este drama se torna cada vez mais complexo em sua investigação social e psicológica. Conforme o roteiro afasta Diane da codependência com os demais e passa a investigar os conflitos desta mulher consigo mesma, descobre aspectos inéditos de figuras que já pareciam bem definidas aos nossos olhos. Enquanto isso, as imagens se mantêm melancólicas, com longos fades entre cenas, trilha sonora minimalista e conversas cotidianas (do tipo “Como vai fulano?”, “Teve notícias do ciclano?”), concebidas sob medida para evitar qualquer senso de espetáculo ou excepcionalidade.

     

    A passagem de tempo é demonstrada em cortes bruscos da montagem, sem aviso, e sem transformações evidentes: talvez o aspecto mais triste e brutal do filme seja a sensação de que as pessoas se vão e a vida ao redor continua, impassível, apesar de nós. A bela imagem final reforça mais uma vez a questão dos cuidados, o fato de aceitar ou precisar do cuidado dos outros, até o fim da vida. Assim, sem discursos moralistas, Jones cria um pequeno grande filme sobre a necessidade que todos temos uns dos outros, sobre o inevitável senso de comunidade que resiste – espera-se – mesmo nos tempos mais individualistas.

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