Caso queira pular para a conclusão final, tem um tópico exclusivamente pra isso.
Bom, esse é o típico filme onde são encontrados dois extremos de opinião: de quem achou uma completa bosta por ser lento e tedioso, e de quem baba ovo dele por ser conceitual e denso.
Em uma visão geral, O Farol é realmente um filme lento e muito tedioso, mas que consegue ser suprido pela tensão e sensação de perturbação que ele traz. É o típico filme que é tecnicamente irreparável, mas que em uma questão de gosto pessoal, não é pra todo mundo (assim como O Poderoso Chefão, Pulp Fiction, Parasita, etc.).
Indo por partes, eu vou separar minhas opiniões em alguns tópicos: Filmografia, Ritmo e Condução, História, e Subjetividade. Lembrando que tudo remete SOMENTE à minha opinião.
• Filmografia: O filme é esteticamente deslumbrante, sendo filmado em uma proporção completamente diferente do habitual e monocromático. Dado ao contexto histórico do filme, é uma escolha certeira, o clima mórbido e levemente incômodo é construído no primeiro minuto, com planos incomuns, que muita das vezes incomodam (no bom sentido) por não mostrar de fato o que queremos ver. Outro ponto que me pertubou foi o som ambiente do farol, que constantemente quebrava um silêncio agradável, como se algo horrível estivesse por vir, gerando um terror psicológico que prende e deixa a experiência imersiva. Particularmente, eu amo essa estética moribunda e seca, sem qualquer encanto em deixar algo apresentável ou bonito, as coisas são do jeito que são, a beleza está na construção da estética, não apenas no visual. De longe, é um dos filmes mais lindos e exóticos que eu já vi, facilmente memorável e reconhecível.
• Ritmo e Condução: Como citado anteriormente, o filme é lento, o que de início não deveria ser um problema, já que, com o tempo, o filme se mostra uma espécie de slice of life de um faroleiro e um zelador, que com a angústia da solidão de um local inóspito, são consumidos pela loucura. Entretanto, o filme é tedioso, pode ser facilmente resumido em 10 minutos. O começo é interessante pela apresentação dos personagens e do cenário, principalmente pela estética, existe vários mistérios e incógnitas estabelecidas desde o começo, mas que com o tempo, o ritmo extremamente arrastado faz com que perca o encanto e o brilho. Por outro lado, esse brilho e encanto voltam esporadicamente, fazendo como se o filme fosse um mar, ora calmo e lúcido, ora tempestuoso e confuso.
• História: De fato, a história é a mesma da sinopse, um faroleiro e um zelador vivendo rotineiramente enquanto se entregam à loucura. O filme se segue tão naturalmente que nem se sabe o que esperar pela frente. Os personagens são ambíguos, e mais uma vez, particularmente eu gosto disso, a dupla protagonista é frágil, errônea, babaca, bem humorada, com seus erros e acertos... Porém, toda via, ela não é cativante, ao mesmo tempo que são tão ricos e densos, parecem vazios. O filme trata como se o público conhecesse os personagens há eras, e "pula" todo o processo que os dois têm de se conhecerem, e consequentemente, ganhar empatia do público. Os dois, que inicialmente são personagens distintos, se tornam quase que a mesma pessoa (inclusive no nome). Provavelmente isso foi proposital, criado como um paralelo de que os personagens estão condenados ao mesmo destino.
• Subjetividade: De longe, a parte que eu mais detestei desse filme. Um filme pode ter vários sentidos, mas como diz o Gaveta, é essencial que ele tenha um sentido para a história. O Farol é composto por diversos subtextos e nuances simbólicas... Mas no fim, o que isso representa ni filme? Para onde isso leva? Em algumas ocasiões, se torna um filme surreal, onde o tempo e a realidade se misturam de modo que é impossível definir o que está acontecendo. O filme foca tanto em ser subjetivo que deixa de ser objetivo, seus mistérios não são respondidos, nem ao menos com uma pista, lacunas são abertas e não são concluídas, não de uma maneira para fazer o público pensar, pois não tem informação suficiente para formar um pensamento sobre o que poderia ter acontecido. Um ponto positivo para esses subtextos são as mentiras dos personagens, eles mentem, e no fim, a verdade e a mentira são uma coisa só, isso realmente leva o espectador a pensar sobre o que ele está vendo é real. Mas de resto, me parece um filme que tenta ser conceitual demais para pagar de cult, quando poderia diminuir os subtextos e ser mais objetivo, para atingir uma maior parcela de pessoas.
• Conclusão: Por fim, O Farol é um filme tecnicamente exímio, com atuações extraordinárias, e uma montagem e fotografia exemplares. Entretanto, tenta ser muito subjetivo e cult, perdendo primordialmente o sentido do filme, dando a impressão que falta algo.
Caso for ver esse filme, tenha a ciência de que ele é lento, arrastado, e cheio de metáforas e subtextos, e por outro lado, é visualmente magnífico e tão real que chega a ser desconfortável (em um bom sentido). Definitivamente não é um filme pra todo mundo, mas é recomendável em um exercício para sair da caixa ou ver algo fora do habitual.