Um roteiro redondinho, longos diálogos e excelentes atuações,um dos melhores filmes do ano!
A capacidade de sintetizar e colocar na mesa grandes debates da fé cristã, a partir de diálogos nada protocolares entre os dois pontífices, são um aperitivo delicioso para aqueles que pensam e acreditam no transcendente, ou até mesmo para aqueles que não creem, mas compreendem a complexidade da existência humana.
As crises de fé, a diferença entre o velho e o novo, o conservador e o progressista, o legalismo e a leviandade, o que é mudança e o que é concessão, são alguns dos assuntos que o filme trabalha com excelência.
Aquela polarização rasteira da política nacional, que divide os brasileiros, de alguma forma também afetou a Igreja Católica. Bento XVI, que não foi um papa popular durante o seu pontificado, hoje é visto pelos setores mais conservadores da Igreja como um grande defensor da reta doutrina, contra um Papa Francisco mais popular e carismático, porém não tão apegado as tradições da Igreja.
Nessa linha tênue, não é difícil que o filme seja interpretado por uns como “pró Francisco” ou por outros como chapa branca para os grandes escândalos que afetaram a igreja no final do período de Bento XVI, mas é fato que apesar da declarada simpatia do diretor brasileiro Fernando Meireles pelo atual Papa, os dois personagens são tratados com muita humanidade e delicadeza. O espectador mais disposto compreenderá a personalidade mais dura de Bento XVI e como ela levou-o a chegar onde chegou e como chegou, ao mesmo tempo que a simpatia irradiada por Bergoglio encobre um passado cheio de escolhas difíceis e arrependimentos.
Não se trata de um filme denúncia, que joga na cara do espectador todos os podres da Santa Igreja, mas sim uma história intimista desses personagens tão diferentes entre si mas que ao cruzarem o caminho um do outro, possibilitaram umas das mais bonitas produções cinematográficas do ano de 2019.