"Era uma vez em Hollywood" é sobretudo em primeira instancia uma homenagem. Homenagem á época dourada do cinema dos anos 60, uma homenagem a Clint Eastwood, Sergio Leone ,John Wayne, Giuliano Gemma, Henry Fonda e a muitos, muitos outros atores e diretores que marcaram a época, mas principalmente, uma homenagem a promissora atriz Sharon Tate, assassinada de forma repentina e cruel no final dos anos 60 pelos seguidores de Charles Manson. Tal ponto nos leva a outra etapa do filme, a cruel e deliciosa vingança proposta por Tarantino.
O longa tem um roteiro conturbado, uma enrolação entre os dois primeiros atos, além de personagens sem desenvolvimento e muitas cenas que ficam completamente alheia ao plot principal, porém, uma dessas cenas, tem um sentido maior que servir ao roteiro, elas servem como uma homenagem, e cumprem seu papel, mas isso não exime o nono filme do Tarantino, famoso pelos roteiros e já indicado ao óscar por tal quesito de deixar tantas arestas e enchimento de tela durante as quase três horas de longa, porém, os outros quesitos técnicos e artísticos são tão bons que essas quase três horas passam voando.
Em termos de atuação, não temos erros, todo o cast do filme é espetacular, deste os principais até os grandes astros, como por exemplo Brad Pitt, que está extremamente a vontade e se divertindo em seu papel, o ator, que se entrega a idade e ao seu personagem faz uma ótima atuação e pode pintar no óscar como coadjuvante, Leonardo DiCaprio também está otimo, fazendo uma atuação extremamente efusiva e dramática, ele não fez nada muito diferente do que já fez em outros papeis, mas mesmo assim é ótimo, Margot Robbie também está bem, e quem merece outro destaque, embora tenha uma curta participação é Margaret Qualley, fazendo uma sensual, sombria e assustadora personagem que serve como pivô de apresentação a seita de Manson, outro personagem que pouco aparece mas está ótimo é Mike Moh como BruceLee.
Tecnicamente o filme apresenta erros, como principalmente, em transições, cortes e continuidade, porém a grande maioria parece ser de forma proposital, como uma espécie de assinatura controversa do Diretor, os outros pontos, como ambientação, composição de cenário estão espetaculares, uma fotografia extremamente quente, que combina com a ótima ambientação seiscentista da obra. Outro ponto fortíssimo é a trilha sonora, que aqui se faz presente de modos bem diferentes, temos musicas clássicas de outros filmes da época, musicas pop da época, trilhas incidentais, e sempre que um personagem entra no carro, temos a radio da época tocando, um pequeno, lindo e maravilhoso detalhe, uma trilha que talvez não fique tão marcante como Kill Bill ou Pulp Fiction, mas que nos conquista pela diversidade, criando um contexto único a obra, que não fica só na trilha, o som do filme em geral é muito bem editado, tais quais os ângulos de câmera usado pelo Tarantino, o diretor sabe muito bem como filmar seus atores e tirar o máximo de suas atuações só usando as câmera, porém, a montagem do filme apresenta problemas de coesão e continuidade como já citado.
Quando assistimos "Era uma vez em Hollywood" sentimos o amor de Tarantino ao cinema, isso fica claro, o diretor quis homenagear de todas as formas possíveis os gêneros que marcaram a época da sétima arte, e faz um filme sobre filmes, para amantes de filmes, isso cria um distanciamento com o publico que está por fora desse universo, o excesso de referencias visuais, fotográficas e sonoras não faz sentido para o grande publico, que fica sem saber exatamente qual núcleo da historia ele deve acompanhar, visto que tudo parece uma criação de contextos para falar e homenagear o cinema, uma grande salada de fruta cujo o roteiro aparece discretamente aqui ou ali, isso é um problema. Porém o amor pelo cinema aqui exposto não me deixa desgostar desse longa, muito pelo contrario, apesar de alguns problemas, é um filme feito para nós que amamos cinema guardamos no coração.
"Era uma vez em Hollywood" está longe de ser perfeito. porem o longa de quase três horas é uma dedicação de amor a sétima arte e tudo que a envolve, musicas, coreografias, atores e gêneros, uma dedicação, uma carta aberta que traz colírios aos olhos dos amantes da telona, o publico geral pode não sentir a mesma coisa e ficar muito perdido e entediado durante o longa, mesmo com o ótimo elenco, mas não podemos negar, é um filme legal que cumpre seu objetivo e com certeza estará na lista de favoritos de muitos, se você gosta de cinema, você precisa assistir "Era uma vez em Hollywood" .