Parasita
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anônimo
Um visitante
5,0
Enviada em 27 de janeiro de 2020
Em determinado momento de Parasita, novo filme do cultuado diretor sul-coreano Bong Joon-ho, um personagem fala como sua patroa é uma pessoa ''tão legal e inocente'' e que às vezes sente até pena dela, sendo imediatamente retrucado pela sua esposa com um seco ''Claro que ela é legal e inocente, ela PODE ser legal e inocente, ela é rica!''...Só essa breve descrição de uma cena do filme já te dá uma ideia do tom e dos temas que esta Obra-prima aborda. Há quem o veja com uma mentalidade superficial e contaminada pelo cinema deste hemisfério, vão dizer que é apenas mais um daqueles filmes de ''ricoXpobre'', uma estória clichê sobre desigualdades sociais. Aí é que se enganam, porque Parasita fala de coisas muito mais profundas do que se pode imaginar observando de forma apressada. Na primeira assistida, muita gente não vai conseguir sair da premissa básica, vai ficar sem captar todas as mensagens e comentários sociais que o brilhante roteiro de Joon-ho transmite, esta é uma daquelas obras complexas cheias de entrelinhas e sub textos que precisam de uma atenção especial para que seja absolvida por inteiro. Então definitivamente seria recomentado pelo menos duas assistidas, para que o impacto seja realmente atingido. Um urgente, detalhado, e sagaz olhar sobre temas atemporais, Parasita apresenta um realizador talentoso em pleno controle de seu projeto. Com situações altamente identificáveis em uma narrativa profunda rica em significados que nunca perde o fio da meada, você vai começar este filme pensando que se trata tão somente de uma sátira social com toques de drama sobre uma família de larápios rasteiros dando o golpe do baú, e terminá-lo com muitas coisas para pensar da sociedade de hoje, sua falta de empatia e compaixão, os papéis que as circunstâncias nos obrigam a desempenhar, e, principalmente, o preço que se paga ao buscar ascensão social a qualquer custo. É um filme que se mantém fiel à si mesmo até quando deixa de ser plausível, com ficcionalização e exacerbação extrema de situações corriqueiras, entrando de vez no terreno da sátira social. Praticamente uma comédia escrachada na primeira metade, é incrível a forma como o filme se ressignifica como suspense ao fim, com direito a uma sequência apoteótica sangrenta perto do final. Tecnicamente, o apuro não poderia ser melhor, com um trabalho de edição e design de produção tão bom quanto ou até melhor que muitas produções hollywoodianas, sendo a sonorização particularmente notável. O elenco é perfeito, todos os atores com personagens de destaque, sem exceção, estão fantásticos, com Kang-ho Song na dianteira. Parasita é algo que você não pode descrever objetivamente com palavras, é algo abstrato que precisa ser vivenciado mesmo. ESPETACULAR!!!
Juan M
Juan M

64 seguidores 28 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 26 de outubro de 2019
A crítica de Bruno Carmelo, sobre este filme, não é ruim. Apenas deixa de lado o quão impressionante esse filme é, e como se torna impossível desgrudar os olhos da tela, além da constatação "surreal" de como é possível um filme tão bom assim. Fiquei envergonhado por não conhecer melhor o cinema coreano. Sim, Bruno acerta em cheio quando menciona elementos simbólicos, caricatos, mas é tudo tão bem encaixado, roteiro, fotografia, atuações, direção, que o filme é completamente convincente ao que se propõe. Seduz, instiga, tensiona o suspense, joga com uma criatividade inacreditável. Ficamos na expectativa do desfecho, que faz o espectador aplaudir as 2 horas do filme. Há momentos de humor que nos fazem gargalhar, exposição de contrastes, momentos de filosofia e de intimidade. Repito: como esse pessoal fez um filme tão bom?
Ricardo L.
Ricardo L.

63.289 seguidores 3.227 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 11 de novembro de 2019
Um dos grandes filmes do ano e de um diretor diferente e acima de tudo super talentoso, sendo ele já uma realidade no meio, o grande Joon-ho Bong já tem obras excelentes como O expresso do amanhã e Okja, mas aqui ele tem seu melhor filme, destaca-se principalmente pelo roteiro excepcional com diálogos incríveis, atuações de primeira e um enquadramento de câmera ótimo. Parasite tem potencial para daqui alguns anos se colocado como Obra prima.
Matheus A
Matheus A

3 seguidores 27 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 11 de dezembro de 2019
Estou processando como descrever Parasite, parece que passou um furacão em minha cabeça, mas uma coisa eu sei se a duração do filme fosse 4 horas eu queria que durasse 5 horas, a imersão de parasite é outro nível, posso dizer tranquilamente que nunca havia assistido um filme como esse, seus detalhes, as minuciosas coisas que há nele são ridiculamente espetacular.
A cada cena, literalmente a cada nova cena não havia tempo para respirar, Parasite é incansável, aterrorizante, maravilhoso e também é um parasita que está em minha mente e que nunca mais sairá.
Alvaro Triano
Alvaro Triano

98 seguidores 97 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 28 de novembro de 2019
Se você ainda não assistiu um filme do criativo diretor sul-coreano, Bong Joon-Ho (Okja e Expresso do Amanhã tem na Netflix, O Hospedeiro e Mother) não sabe o que está perdendo. De longe, o diretor é um dos mais inventivos do mercado cinematográfico, e em seu novo longa “Parasita” ele consegue ascender e misturar sua cinematografia de forma majestosa, navegando em diversos gêneros e transformando esse trabalho em um obra impecável e única. Parasita conta uma história de desigualdade de classes, onde temos a família Kim, pessoas que vivem em extrema pobreza na Coreia do Sul e moram em uma casa (que mais parece um porão), abaixo do nível da rua, tanto que mendigos mijam em sua janela diariamente e eles precisam fazer pequenos bicos e “gambiarras” para sobreviver. Talvez gambiarra seja a palavra que define essa família na narrativa de Joon-Ho, pois desde a cena de abertura do filme, já temos um contato com os Kim tentando pegar o sinal de WiFi do vizinho, nesse sentido, fica claro para o receptor que eles não são tão bestinhas ou inocentes como parece. É tipo o “jeitinho brasileiro” de se virar ou fazer as coisas e isso fica evidente quando o filho deles consegue um emprego na casa da família rica. Do outro lado temos o contraponto ou espelho deles, a família Park, extremamente ricos, donos de empresas de tecnologia que vivem em uma luxuosa mansão e não passam pelos perrengues da outra família. O interessante disso tudo é que as duas famílias são compostas por 4 pessoas (pai, mãe, filho e filha) o que lembra muito o excelente filme “Nós” do americano Jordan Peele, que estreou também em 2019. Os dois longas retratam as facetas da desigualdade, mas também são literais em dizer que existe uma relação parasitária entre uma classe e outra, como se um dependesse do outro, mas quem é o parasita de quem? Talvez por se colocar no lugar do outro com suas vivências seja fácil definir isso, no entanto, o trabalho e toda a acuidade visual e metalinguística de Joon-Ho brinca conosco como uma montanha russa de emoções. Os Kim vivem em um plano abaixo, quase um esgoto, enquanto que os Park vivem acima. Para chegar na casa dos Park existem inúmeras subidas e escadas, enquanto os Kim é só ladeira abaixo, contrastes visuais, metalinguagem e uma narrativa muito bem elaborada para uma temática relativamente simples, que faz do Parasita um filme soberbo, brilhante e até indigesto com suas diversas reviravoltas. Para mim um dos melhores filmes do ano!
Priscila F.
Priscila F.

27 seguidores 3 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 19 de novembro de 2019
Diria que o filme é impactante, pois através de forma que de início parece até cômica faz uma crítica profunda à sociedade sul coreana. Também é um filme tenso que prende a atenção dos espectadores do início ao fim. Essa crítica social caberia perfeitamente a outros países e não apenas à Coréia do Sul.
Nelson J
Nelson J

51.030 seguidores 1.977 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 3 de dezembro de 2019
Filme ácido sobre as relações sociais. Uma família desocupada, aos poucos assume todas as funções serviçais de uma família rica e aos poucos seus abusos vão sendo revelado, bem como daqueles que foram substituídos e da própria família abastada. Genial.
Luana O.
Luana O.

764 seguidores 557 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 7 de janeiro de 2020
Espetacular! Menos que isso seria injustiça. Filme com ótimo roteiro, vai te prendendo do início ao fim e um elenco sensacional. As doses de humor, essenciais, quebram o peso do filme. Muito envolvente e reflexivo.
Gerson R.
Gerson R.

83 seguidores 101 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 20 de fevereiro de 2020
É evidente que Parasita é um filme que pode ser visto apenas como entretenimento – mas, convenhamos, seria um enorme desperdício tentar vê-lo de forma tão limitada – embora tenha personagens incrivelmente bem construídos, situações dramáticas, cômicas e de suspense envolventes, esta verdadeira obra-prima moderna do cinema dirigida e roteirizada por Bong Joon Ho (de Okja e O Expresso do Amanhã), é um trabalho que nos traz a máxima de que arte sempre é influenciada pela politica – e quando falo de politica, não me refiro a um lado especifico, mas justamente aos fatores sociais que compõe toda a trama.

Há uma critica social neste longa que começa já em seu primeiro enquadramento: a visão por uma janela, de uma casa, que é praticamente um porão, com meias secando em um pequeno varal, enquanto um dia ensolarado acontece lá fora, com o desempregado Ki-woo (Choi) tentando, sem muito sucesso, “roubar” o sinal de Wi-fi de seu vizinho – em uma sociedade moderna, até mesmo o acesso a internet parece ser algo privilegiado – algo que se estende sobre os familiares do rapaz ali presente, tanto seu pai, Ki-taek (Song), sua mãe Moon-gwang (Lee) e sua irmã Ki-jung (So-dam Park) – todos os integrantes da família Kim tem em comum o maior pesadelo de quem vive no mundo capitalista: o desemprego. Tendo que se virar como podem para sobreviver, como tentando dobrar caixas de pizza para uma pequena rede de fast-food, Ki-woo acaba tendo uma nova oportunidade: seu amigo e professor de inglês, Min (Seo-joon Park), lhe oferece uma vaga de emprego para ensinar uma adolescente de família rica (Jung) – mesmo ele não tendo diplomas e nem ter tido condições financeiras para terminar sua faculdade, acaba falsificando a documentação e aceita o serviço – despertando uma confiança enorme na mãe da garota, Yeon-kyo (Jo) – entretanto, quase que automaticamente, Ki-woo tem a ideia de trazer sua irmã, pai e mãe para trabalhar na casa da família Park, através de práticas pouco honestas, digamos assim.

De um primeiro ato até cômico, indo para um cinismo e ironias no segundo, o filme assume um tom totalmente surpreendente da metade para o final – contando ainda com o humor – o momento em que um determinado personagem usa um celular com uma foto prestes a ser enviada como se fosse uma arma é impagável – mas passando uma urgência e uma tensão que se alinha com o desespero que sua primorosa metáfora e critica social exigem – ainda que inserida com uma sutileza absurda em adoráveis linhas de diálogos, o roteiro do próprio diretor (em parceria com Jin Won Han) é inteligente para demonstrar as personalidades de cada um de seus personagens – realmente conseguindo justificar suas condutas – e, felizmente, sem cair em nenhum julgamento moral sobre quais quer um deles – apenas evidenciando o que suas origens interferiram em suas construções de caráter – sendo assim, a família Kim acaba por ser uma criação genial: enquanto que Ki-woo e sua irmã Ki-jung (a Jéssica da excelente So-dam Park) são exemplos de jovens promissores sem acesso a educação superior – ele sabe língua estrangeira e ela tem habilidades em informática – os pais representam um lado que se esforçou na vida em várias áreas, mas nunca conseguiu se firmar financeiramente – a mãe vivida em uma atuação cheia de cinismo e sinceridade por Hye-jin Jang e, em especial o pai, o Sr. Kim de Kang-ho Song, sem dúvidas, o personagem mais multifacetado e complexo da história – de um homem bondoso e esperto até ter consciência de que o sistema que o cerca não é manipulável para quem é menos favorecido – seu diálogo explicando ao filho que planos nunca dão certo – pelo simples fato do sistema não deixar funcionar – é um dos momentos que representam o poder desse ator – injustamente não indicado ao Oscar. O roteiro ainda é inteligente em usar a enorme pedra que Ki-woo ganha de seu amigo como uma representação de sua ambição e vontade de cumprir seu “plano” – tornando se algo que chega a ser usado contra ele, literalmente – uma metáfora genial, convenhamos.

De fato, Parasita deixa bem claro que as atitudes da família Kim para ocupar cargos de trabalho na casa dos Parks é algo que irá lhes trazer consequências – exatamente por isso que, a partir da metade, o longa assume isso e, através da governanta vivida pela ótima Jeong-eun Lee, Bong Joon Ho deixa evidente que ao tentarem prejudicar alguém de sua mesma classe social, o sistema sempre encontra um meio de impedir que continuem – sendo assim, não leia este paragrafo até o fim, caso não tenha assistido o filme – tanto a governanta quanto seu marido representam perfeitamente um tipo de pessoa que acabam se deixando levar pela acomodação, não se importando em serem explorados pelos seus patrões em troca de pouco dinheiro – seu marido, vivido por Myeong-hoon Park, que mora escondido no banker secreto da casa dos Parks, é representado como um “fantasma”, como assim foi descrito pelo filho mais novo da família – é uma óbvia forma de mostrar como que o sistema é injusto com quem tenta investir com pouco para ter seu próprio negócio e é acometido por outra praga do capitalismo: as dividas. Toda essa construção justifica como os dois são extremamente fiéis ao Sr. Park – afinal, na convivência e visão deles, isso se mostra aceitável.

Sob esse aspecto ainda, o que pareceria até aí seria a visão de como os mais pobres tentam se agarrar as oportunidades que os mais ricos lhe dão – mas, nesse sentido, fica claro como Bong Joon Ho expõe quem são os verdadeiros parasitas da trama – embora honestos perante a sociedade, os integrantes da família Park se mostram, de fato, as criaturas mais repugnantes entre os personagens – por mais que a família Kim, sob um olhar mais simples, sejam golpistas, fica evidente como a família abastada expõe seus preconceitos contra as classes sociais menos favorecidas – enquanto que a mãe, vivida perfeitamente por Yeo-jeong Jo, se mostra uma pessoa paranoica, que não suporta nem a menor hipótese de sua família ser acometida por males que os pobres sofrem (como abuso sexual, exposição as drogas, doenças ou ensino escolar ruim), ela ainda se mostra inacreditavelmente ingênua em apenas aceitar as indicações de novos trabalhadores em sua casa apenas pelo status que Ki-woo lhe passa – algo que parte da elite tende a fazer – se estendendo até mesmo para a criação do filho pequeno, que acaba por ser mimado e não ter seus supostos traumas expostos ou tratados, apenas pela questão de boas aparências – exatamente por isso Jéssica consegue convencê-la de que é, de fato, uma especialista em comportamento de crianças – mas, ainda assim, Bong Joon Ho é inteligente o suficiente para retratar a filha adolescente deles como alguém que não suporta as pessoas de sua classe social, o que torna justificável ela se apaixonar por Ki-woo.

Entretanto, é através do Sr. Park de Sun-kyun Lee que o longa tem sua proposta totalmente revelada – de um homem aparentemente educado e cordial, ele, aos poucos, vai se revelando uma criatura fria e egoísta, que, assim como sua esposa – e veja que interessante como sua relação é de aparências: Park nem sequer chama sua própria mulher de esposa a maior parte do tempo – chamando-a de “mãe do meu filho” – curiosamente, algo que ela também faz com ele – a composição do ator ajuda a torna-lo em personagem que, basicamente, se construí junto da mudança de pensamento do Sr. Kim, que acaba por constatar, de forma dolorosa, como seu atual patrão é um homem que parece viver de status – que nem seu amor por filho e esposa soam reais – até mesmo a forma como faz sexo com a mulher – com o fetiche de tentar dizer coisas que pensavam que seu ex-motorista tinha feito no carro – mas, fica claro também como representam um setor da sociedade que saiu da pobreza e se esqueceu de suas raízes – “faz tanto tempo que não ando de metrô”, diz a esposa – e a cara de nojo que fazem apenas por considerarem o cheiro do Sr. Kim ruim já é, desde já, um símbolo de como os mais ricos esnobam os mais pobres.

O contraste dos estilos de vida das famílias fica escancarado quando um temporal toma conta da cidade – inundando o porão onde a família Kim vive – mas, para os Parks, apenas foi uma chuva que ajudou a deixar o seu dia mais bonito – e, ao mostrar pai, filho e filha correndo na chuva e descendo uma série de escadas, Joon Ho não só representa uma decida ao inferno, mas uma viagem até as condições precárias dos pobres – e, nesse sentido, é preciso ressaltar o trabalho técnico genial de Parasita – com um design de produção brilhante, tanto pelas construções das casas, tanto dos Kims quanto dos Parks, isso ainda serve mais do que apenas para mostrar as diferenças de acomodação e tamanho dos ambientes – assim como a vila em que os Kims vivem, construídas com detalhes, assemelhando-se a favelas que temos no Brasil – o que torna o filme algo ainda mais universal – e a fotografia se apresenta excelente, pela forma clara como expõe os ambientes – existe um detalhe tão grande em demonstrar isso, que, praticamente, o espectador se sente dentro das casas, por saber exatamente onde cada cômodo dos lugares se encontram – aliado a montagem promissora, que faz paralelos perfeitos entre os hábitos dos Kims, da governanta ou dos Parks, por exemplo – assim como durante a execução do plano de tirar os funcionários da residência.

Enfim, Parasita é um filme que vai além de qualquer senso barato de moralidade – ele apenas expõe as mazelas que nossa sociedade deixa em aberto, algo que a grande maioria da população mundial precisa lidar todos os dias – indo muito além dos problemas que os sul-coreanos passam – é um retrato extremamente criativo e impactante da desigualdade social – que, através de um arco dramático e uma rima visual em seu inicio e outra em sua última cena, exemplifica como o sistema capitalista é cruel – se no inicio víamos uma rua ensolarada através da janela da casa dos Kims, com eles tentando se conectar com Wi-fi, é extremamente triste e revelador que a visão se converta, ao fim, em uma nevasca, onde, agora, a precária comunicação por código morse é o único contato deles com um vislumbre de ter uma vida melhor – indicando um sonho inalcançável pelas condições sociais pouco justas do sistema.

Um filme arrebatador e genial, que o mundo todo precisa ver e ter consciência.
Adam William
Adam William

8 críticas Seguir usuário

5,0
Enviada em 28 de outubro de 2019
Se fizermos o exercício de classificarmos as obras contemporâneas através dos gêneros primários do teatro – semelhante a separação realizada no Globo de Ouro, entre drama e comédia –, é certo que colocaríamos o sul-coreano Parasita no lado das comédias, apesar de todas as suas nuances que o tornam longe de ser algo convencional, seja lá em qual gênero ele se enquadre.

A obra de Bong Joon-ho nos introduz a família Kim e justifica seu título logo na sequência de abertura. Vivendo de forma indigente em uma casa que se assemelha a um porão que, além do pouco espaço e da sujeira e insetos, materializa a metáfora da família viver abaixo da sociedade, já que a casa aparenta estar em um nível inferior à rua em que moram, os membros da família demonstram que se viram como podem, seja ganhando dinheiro dobrando caixas de pizza para uma pizzaria local, seja utilizando qualquer wi-fi aberto que puderem encontrar. A oportunidade, entretanto, bate à porta quando Ki-Woo (Choi Woo-sik), o filho mais velho dos Kim, recebe a visita de um velho amigo (Park Seo-joon) que lhe oferece a chance de ser tutor de inglês para a filha de uma família rica.

O momento em que Ki-Woo chega à casa da elitizada família Park para a entrevista de emprego é ilustrado por um travelling que deixa claro a diferença que existe entre a vida das duas famílias. Enquanto os Kim esgueiram-se para viver em seu pequeno lar – facilmente encaixado no plano inicial –, os Park podem se dispersar por uma enorme casa, construída por um arquiteto renomado, tão grande que o plano médio utilizado por Joon-ho mal captura seu espaço. É também esta diferença de classes que molda a personalidade das duas famílias, pois enquanto que os ricos não precisam ter quaisquer preocupações mundanas e acabam soando demasiadamente ingênuos, os pobres parecem ter nascido com o dom da esperteza, já que não tarda para que toda a família Kim se instalem entre os Park, parasitando entre eles. Já a simetria entre a composição das famílias – pai, mãe, filho, filha – só evidencia mais ainda o distanciamento entre as realidades.

A construção dos núcleos funciona para que a suspensão de descrença do público não seja exigida em níveis extremos: apesar dos planos por vezes serem muito mirabolantes, são críveis devido a soberba dos Park. Por exemplo, se a matriarca da família demonstra certa reverência a figuras e produtos americanos, usar dos EUA para atestar suas mentiras torna-se prática comum – usam até mesmo nomes americanos para soarem mais confiáveis – e conforme a farsa se mantém através destes pequenos detalhes, só é necessário um para acender uma faísca entre ambos, já que trazem à tona certos preconceitos do patriarca Park (Lee Sun-kyun). Entretanto, o texto co-escrito pelo diretor e por Han Jin-won acerta ao não estabelecer nenhum dos personagens como “vilões” propriamente ditos, já que não há pessoas más em cena, apenas comportamentos condenáveis por parte deles – o próprio Sr. Park é tido como um bom homem pelo Sr. Kim (Song Kang-ho), algo que é afirmado mais de uma vez.

E é logo quando a obra parece perder o fôlego por permanecer neste lugar comum e a curiosidade de como Joon-ho pode concluir sua trama de forma coerente surge, que há um plot twist que transforma Parasita como um todo. O filme de comédia dá lugar a outra obra e o diretor pega seu público pela garganta, pois torna-se impossível imaginar quais os desdobramentos de um certo acontecimento. Joon-ho demonstra um preciso controle de câmera ao fazer com que o público, antes tão à vontade, seja preso em planos claustrofóbicos, incômodos e cheios de adrenalina. A partir daí, com o choque entre os núcleos ganhando contornos mais sombrios, o diretor cria planos contrastantes, que explicitam as aflições dos menos afortunados diante das “preocupações” dos Park, algo bem elaborado pela exemplar montagem de Yang Jin-mo, ágil nos momentos certos.

Conforme se aproxima do final, Parasita coloca a luta de classes cada vez mais no centro da trama, trazendo um clímax à altura para o conflito de lados tão extremos. Com isso, a obra de Bong Joon-ho que começara como uma indiscutível comédia migra para outros gêneros, sem abrir mão de ser um entretenimento provocativo, ácido e impactante. E embora tende a explicar-se demais ao final, sua conclusão dolorosa cabe perfeitamente ao discurso da obra.
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