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    O Insulto
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    O Insulto

    Da faísca ao incêndio

    por Renato Hermsdorff
    O Insulto é a genealogia da cultura - tomando “cultura” pelo somatório de signos que orientam o comportamento de um povo. O filme é um estudo antropológico e sociológico - por vezes, até didático, o que é bom e ruim ao mesmo tempo - de como surge (ou pode surgir) um conflito, especificamente em uma região de tradições fortes e considerada especialmente tensa: o Oriente Médio. A partir de um “estudo de caso”, o longa mostra como uma faísca pode se converter em um incêndio. Ainda que contra toda a lógica.

    A faísca, no caso, é uma calha. Ou a falta dela. Tony Hanna (Adel Karam) é um cristão fervoroso libanês que, sem instalar o cano em sua varanda, molha acidentalmente o palestino refugiado Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Veneza), engenheiro responsável por uma obra na rua de Tony. Yasser, então, tenta convencê-lo a instalar o aparato e, com a recusa do outro, o faz por conta própria, atitude que é reprovada por Tony.

    O incidente gera um xingamento, que evolui para uma (baita) humilhação, que cresce até chegar aos tribunais (é um "filme de tribunal"), que ganha a mídia, que incita o povo, que convoca o presidente, enfim, está aí o incêndio.


    São situações absurdas, mas encadeadas de forma crível graças ao roteiro assinado pelo diretor Ziad Doueiri (O Atentado) - em parceria com Joelle Touma. A apresentação da trama é quase infantil - mas afinal não é “bobo” o estopim para o conflito? Ora pendendo para um lado do confronto político-religioso, ora cutucando o outro, o filme caminha numa linha tênue de defesa de paixões. Sendo parcial em momentos distintos, o resultado final é um desejoso e complexo equilíbrio.

    Estruturado como um melodrama “clássico”, não raro Doueiri abusa da trilha no intuito de conduzir as emoções do espectador. E é nesse ponto, “emoções”, que o filme peca. Apesar de pontuado por sutilezas, L'insulte (no original) parece não confiar plenamente na delicadeza de suas metáforas e, como consequência, pesa a mão no drama (clichê) em alguns momentos. Isso, ou o diretor fez algumas concessões com a intenção de atingir um público (médio) mais amplo. Não à toa, a produção disputa o Oscar de melhor filme estrangeiro - a primeira do Líbano a conseguir o feito.

    Nada que comprometa a experiência, no entanto. O Insulto é a (boa) lembrança de que a humanidade é feita de pessoas que têm mais em comum do que diferenças, propriamente.
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    Comentários

    • Suellen M.
      Filme cansativo, parece 2 crianças brigando pq o outro nao perde perdão. Nao indico nao para meu pior inimigo rs
    • Mario Luiz Benatti
      No meu ponto de vista, foi um excelente filme, muito bem conduzido, sem perder em nenhum momento o “fio da meada”, ao menos para levar a trama em seu objetivo final, sem pieguice. Tenho gostado muito de alguns filmes “estrangeiros” (no sentido de não ser padrão americano), onde o cotidiano é retratado em dramaticidade de forma mais fiel, e nessa película podemos ver o comportamento humano levado à sua própria natureza, sempre ambígua, ainda que a história conflituosa tenha sido iniciada por um motivo irrelevante, que na verdade, serviu como um estopim para despertar aquelas angústias obscuras e intangíveis que cada um carrega de sua própria história de vida. Mas, é esse fato irrelevante o fio da meada que nos faz puxar sem parar para ver o resultado final desse novelo, e que não nos decepciona exatamente por deixar a cada um o seu julgamento pessoal, baseado na formação moral de cada um.Pode ser considerado como um filme de tribunal, desses onde adoramos ouvir os argumentos capciosos de cada lado em disputa para ver quem tem mais arguição. E no final, ainda que tenha havido uma decisão judicial, não houve um ganhador nem um perdedor de forma pessoal, uma vez que o conflito tem uma dimensão muito maior, a da própria idiossincrasia humana dentro de um convívio social pluralista. É o caso dessa milenar região chamada de Oriente Médio.
    • Ciro Tavares de Melo
      O insulto é um filme com potencial para ser uma excelente película. Porém (muito porém!) peca pelo excesso de lugar comum. Parece até ter sido isso necessário ao acesso à sala de espera do, tão igualmente clichê, Oscar. Digno de elogios às atuações dos dois protagonistas e do relevo dado às mulheres (esposas, advogada e juíza). Nota? Um sete.
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