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    Monstro
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Monstro

    Metalinguagem em forma de crítica

    por Vitória Pratini
    "Diga-me com quem andas e te direis quem és", já dizia o ditado popular. Pode-se dizer que esta é a premissa de Monstro. Ao nos depararmos com o título da nova produção da Netflix, muitos podem lembrar de Monster - Desejo Assassino, filme que rendeu o Oscar para Charlize Theron. Ou pode vir à memória algum filme de terror e suspense como os que têm sido lançados nos últimos tempos nos streamings. No entanto, Monstro está mais para um longa de tribunal, angustiante e brilhantemente dirigido por Anthony Mandler.

    Trata-se do filme de estreia do cineasta, responsável por videoclipes de artistas icônicos como Rihanna (“Diamonds”), Beyoncé (“Get Me Bodied”), Taylor Swift (“I Knew You Were Trouble”) e Shakira (“Dare”). Da mesma forma, sua assinatura pode ser notada em Monstro: desde a narração em off e os flashbacks misteriosos até as cores vintage na fotografia, imagens sobrepostas e o foco em detalhes.



    Diretor aposta em jogo de contrastes para mostrar situação de Steve Harmon

    Adaptação do livro homônimo de Walter Dean Myers, o enredo acompanha Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr.), um jovem de 17 anos aspirante a cineasta. Negro e morador do Harlem, em Nova York, e estudante de uma escola de elite em outro bairro da cidade, ele acaba se envolvendo com as pessoas erradas. Logo, ele acaba preso por um crime que afirma não ter cometido e precisa provar que é inocente diante de um sistema judiciário racista. Especialmente porque o roteiro faz questão de deixar claras a condição da família Harmon, um contraste enorme em relação à conturbada vida na prisão.

    Kelvin Harrison Jr. está excelente no papel. Como Steve, ele narra o filme do seu ponto de vista, em primeira pessoa, como se ele mesmo o tivesse dirigindo — com direito a uma metalinguagem que praticamente quebra a quarta parede. Por ser contada fora de ordem, a narrativa coloca em cheque justamente aquilo que o personagem está tentando provar: será que Steve é culpado ou inocente? Será um monstro, como diz o título e como aponta tão dramaticamente o promotor (Paul Ben-Victor)? Ou apenas um rapaz que estava no lugar errado na hora errada?

    Monstro não dá a chance de explorarmos conflitos internos dos pais do protagonista 



    Embora a narrativa pelos olhos do protagonista contribua para a dúvida do espectador e coloque Monstro na “categoria” filme de arte, a falta de outras perspectivas pode empobrecer o enredo. É o caso do arco dos pais de Steve. Não temos tempo nem tampouco chance de explorar os conflitos internos deles sobre a prisão do filho, perceptíveis apenas nos olhares e expressões dos aclamados Jennifer Hudson e Jeffrey Wright.

    Além disso, não fica claro o teor do relacionamento de Steve com William King (Rakim Mayers). Julgado no mesmo momento que Harmon, o rapaz parece ter mágoas em relação ao colega, mas não temos acesso a nenhum diálogo entre eles depois do crime e antes do julgamento.

    É importante, porém, que muita coisa do roteiro fique nas entrelinhas, diferente de outros filmes da Netflix que esfregam as reviravoltas na tela, duvidando da capacidade do espectador.

    Filme da Netflix tem elenco excelente

    Harrison Jr. está 90% do tempo em tela, mas vem bem acompanhado, não só de Jeffrey Wright, Jennifer Hudson e Rakim Mayers. Paul Ben-Victor incomoda de forma maestral como o promotor; Jennifer Ehle consegue deixar seu papel conciso como a advogada de Stanley; John David Washington (Tenet) brilha em sua breve participação como Bobo Evans, enquanto Tim Blake Nelson faz aparições memoráveis como o professor de Steve.

    Tal como o curta ganhador do Oscar, Dois Estranhos, Monstro incita o questionamento, e coloca os espectadores para pensar. Ainda que tenha sido exibido primeiramente no Festival de Sundance em 2018, levando dois anos para seus direitos de distribuição serem comprados, seu discurso é sem dúvida relevante para representatividade negra em 2021, e também para uma crítica ao racismo dentro do sistema judiciário e carcerário. O filme é ambientado nos Estados Unidos, mas poderia muito bem ser no Brasil — e isso é uma conclusão triste.

     

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