Quando se tratava de explicar ou descrever os significados de cada obra de Stanley Kubrick era preciso muita atenção e até uma bagagem cultural e intelectual razoável – ou seja, como diria um dos maiores mestres do cinema brasileiro, Glauber Rocha: “meus filmes não são para serem explicados, são para serem vistos”. Ver Doutor Sono me trouxe a memória uma outra continuação de outro clássico de Kubrick – a sequencia de 2001 - Uma Odisseia no Espaço, o correto 2010 - O Ano em Que Faremos Contato, longa que “mastigava” todo o conteúdo filosófico e existencial de um dos maiores clássicos da ficção cientifica – algo que não o tornava ruim, mas que o relegava a uma simples história convencional – sem ousadia ou surpresas.
Embora não seja só uma continuação do clássico O Iluminado de 1980, está nova adaptação de mais um trabalho do escritor Stephen King também pode ser dita como uma sequência do livro original – que, segundo o próprio autor, era uma das piores adaptações de suas obras – por causa de inúmeras questões de abordagem e soluções dramáticas.
Aqui, Mike Flanagan (diretor de filmes como Ouija e Jogo Perigoso, outra adaptação de livro de King) mistura inúmeros elementos que não apareceram na obra-prima de Kubrick com outros que entraram para a história do cinema lá – principalmente, em seu design de produção, enquadramentos (as famosas “tomadas centralizadas” de Kubrick) e trabalho de som e de trilha-sonora – o bom disso é que o filme poderia servir como um “fan service” para os admiradores do escritor famoso e, ao mesmo tempo, uma homenagem aos fãs do filme que fez Jack Nicholson se tornar um dos maiores psicopatas de Hollywood – o lado ruim é que, assim como o outra continuação de Kubrick que citei, Doutro Sono é também uma sequência que escancara todos as nuances e choques que o original tinha de um modo simples e obvio, nadando contra a maré por simplesmente se apegar em uma formula de terror comum, mas, mesmo assim, capaz de garantir alguma atenção em suas quase desnecessárias duas horas e meia de duração.
Doutor Sono conta agora como o pequeno Danny Torrance evoluiu para a vida adulta, vivido nessa fase por Ewan McGregor, ele se esconde de seu passado – evitando utilizar-se de seus dons de “iluminação” e se entregando ao alcoolismo, numa pífia tentativa de compreender o comportamento violento do pai no terrível inverno no Hotel Overlock, em 1980; ao mudar-se para uma cidade do interior, Danny começa a trabalhar como enfermeiro em um hospital com pessoas em estado terminal – mas, ao sentir a presença da garota Abra (Curran), que também é uma “iluminada”, Danny precisa utilizar seus poderes sensitivos para impedir que um tipo de “iluminados” das trevas continuem assassinando crianças com o mesmo dom, com o objetivo de sugar suas energias, o que lhes garante longos anos de vida, sem envelhecer – principal objetivo da líder deste grupo, a perigosa Rosie (Fergusson).
Por mais que tenha homenagens e referências ao filme original, a direção de Flanagan, felizmente, tenta um caminho diferente – não necessariamente inovador – algo que possibilite Doutor Sono a ter sua própria vida sem se ancorar no legado do filme de Kubrick – e isso funciona em partes: se é curioso acompanharmos que Danny virou um alcoólatra igual ao pai e prefere esconder seus dons sensitivos – para em seguida mostrar sua tentativa de sair destes padrões de vida – o roteiro se torna simplório em oferecer uma mera trama de bem contra o mal, sem se aprofundar em ambiguidades ou desejos obscuros por trás da mente humana – algo que tanto o livro e o filme original exploravam.
Se beneficiando pela boa composição de McGregor como Danny, há ainda o bom paralelo entre este e a personagem de Kyliegh Curran, a Abra – mostrando que mesmo a moça tendo pais carinhosos e próximos (ao contrário do que Danny teve) isso não é suficiente para que eles acreditem nos poderes ou no que ela consegue ver – algo que só não fica tão bem realçado devido a atuação um tanto limitada da moça – que convence nos momentos mais dramáticos, mas parece não demonstrar certa naturalidade em meio a diálogos mais tranquilos, por exemplo – algo que também mostra que a condução de atores de Flanagan parece não se manter firme por todo o tempo – se estendendo para os membros do grupo liderado pela Rosie de Rebecca Fergusson – um tipo de personagem que só não irrita mais pela expressividade da atriz, já que Rosie é desenvolvida sem muita personalidade, tornando-se unidimensional. Os demais integrantes do grupo passam pelo mesmo, assim como o Corvo de Zahn McClarnon e a Andi Cobra de Emily Alyn Lind, introduzida com uma longa sequência em um cinema, onde tenta fazer justiça contra um pedófilo – e notem a desnecessidade da cena, tendo em vista que o proposito de quem entra para o grupo deles é justamente matar crianças – se isso é algum jeito de mostrar a hipocrisia de algumas pessoas, Flanagan não passa isso bem.
Essa falta de aprofundamento nas características destes vilões (e notem a previsibilidade da trama, pois aqui, praticamente desde o inicio, já sabemos quem são bonzinhos e os malvados) prejudica o filme – tirando tensão de vários momentos – ainda assim, o diretor sabe tirar proveito de momentos tensos aqui e ali – um destaque para a curta participação do menino Jacob Trembley (O Quarto de Jack, Extraordinário), vivendo uma das vitimas dos capangas de Rosie – mas, fica evidente, que a verdadeira tensão só aparece quando elementos do filme clássico aparecem – e, disso, me refiro especificamente ao terceiro ato – onde a evocação pelo clima que Kubrick tinha criado há 39 anos atrás acaba se tornando a melhor coisa de Doutor Sono – embora ainda seja digno de elogios a recriação dos sets do hotel Overlock – praticamente idêntica ao de O Iluminado – a direção de arte e o design de produção trazem um trabalho que beira a perfeição e, optando por inserir atores reais (e não “recriações digitais” de velhos atores, como é moda ultimamente) o resultado é o suficiente para se situar na nova trama – mas, obviamente, causará um estranhamento em quem se acostumou com o que víamos no clássico – um determinado personagem aparecerá e essa sensação será estranha mesmo – mas, com relação a mãe de Danny, Wendy, com Alex Essoe vivendo o papel que Shelley Duvall tinha feito antes, a intenção funciona, pois os momentos ajudam na concepção da relação entre Danny e sua mãe, estabelecendo até um certo arco dramático, que serve para mostrar como o personagem de McGregor tenta fugir ou encarar seus traumas desde os acontecimentos de 1980 – algo que também funciona com o Dick Halloran de Carl Lumbly (vivido no original por Scatman Crothers) – por ajudar a mostrar o comportamento e pensamentos de Danny agora na vida adulta.
A verdade é que se Doutor Sono tivesse pelo menos uns 40 minutos a menos o resultado poderia ser bem melhor – Flanagan parece querer manter uma fidelidade com o material literário de Stephen King que simplesmente não funciona na tela – algo evidente na (também) longa cena onde Rosie tenta entrar na mente de Abra, sendo representada por uma viagem até um quarto, onde os armários são como os pensamentos da pessoa – assim como uma biblioteca, que aparece também – tais soluções são óbvias e praticamente não ajudam na condução da trama. Essa vontade em enfiar tudo o que o livro mostra fica clara também com a inserção de alguns personagens, como o Billy de Cliff Curtis, que parece ser só o “melhor amigo” de Danny, para ajuda-lo aqui e ali e depois sair, sem muita função – assim como a pequena participação de Bruce Greenwood como um dos lideres do grupo de alcoólatras anônimos.
Alternando entre bons momentos e outros desnecessários, Doutor Sono fica bem distante de O Iluminado (de Kubrick) – mesmo não tendo esta intenção de se equiparar com o filme original, era de se esperar uma trama mais envolvente, que não se apega-se a clichês do gênero – acaba sendo salvo pela nostalgia ao clássico e por alguns de seus bons atores – o que pode o tornar um passatempo eficiente, mas que com certeza não vencerá o teste do tempo na mente do espectador.