Mãe! tem realmente uma proposta radical. E por isso tem despertado sentimentos tão opostos tanto em críticos quanto no público em geral. Apesar de toda a polêmica que cercou o filme desde seu lançamento, não concordo com opiniões que categoricamente determinaram que somente é possível adorá-lo ou detestá-lo. Há coisas que gostei no filme, outras não. Minha admiração pelo filme está menos ligada ao produto final e mais ao que filme representa no panorama atual do cinema mundial, principalmente hollywoodiano. É louvável um diretor amparado por uma produção de grande estúdio ter a ousadia de uma proposta tão “fora-da-caixa” como este Mãe! (se ele foi bem-sucedido ou não, é outra questão). E também admirável que um grande estúdio tradicional como a Paramount tenha tido a coragem de financiá-lo (embora tenha cometido o erro, na tentativa de recuperar o dinheiro investido, de vender o filme como mais um tradicional filme de terror, o que ele definitivamente não é).
Mãe! tem qualidades. O principal mérito é o trabalho de direção, que consegue criar no espectador uma empatia com a personagem principal, sabendo nos transmitir a crescente sensação de desconforto, opressão, desespero e impotência experimentados por ela. A montagem consegue impor ao filme uma atmosfera de caos e pesadelo que vai sendo construída num ritmo gradual, que só se intensifica em sua parte final. O elenco principal está bem, embora seja digno de nota que Jennifer Lawrence é ofuscada pela presença de Michelle Pfeiffer num papel secundário. O filme não é algo “sem pé nem cabeça” e confesso que já vi filmes bem mais complicados de interpretar. Há claras referências bíblicas, mas também é possível vislumbrar o filme como uma crítica ao machismo/submissão feminina; às relações doentias entre artista e público – a vaidade narcisista dos que criam e a idolatria e posse por parte dos que admiram as celebridades; e até à maneira como a humanidade vem tratando a “mãe” Terra nos últimos tempos.
Talvez Aronofsky peque exatamente pelo excesso de significados e leituras possíveis, perdendo o foco – o que compromete totalmente o desenlace da narrativa. É como se o diretor tivesse organizado um brainstorm com uma equipe de roteiristas, e resolvido aproveitar todas as ideias que surgiram, ao invés de filtrá-las e indicar uma direção. É extremamente positivo um filme fazer referências, metáforas e analogias. Isso enriquece o filme. Mesmo aqueles que se destinam basicamente a divertir o público, um típico “filme-pipoca” como o primeiro Star Wars (hoje conhecido com o subtítulo Uma Nova Esperança). Embora sendo uma fantasia de aventuras sci-fi, que se passa numa “galáxia muito, muito distante”, há claras referências à Segunda Guerra Mundial (nazistas versus aliados), ao universo do clássico O Mágico de Oz, à filosofia dos samurais (e oriental, por extensão). Mas esses elementos são secundários, ou seja, você pode admirar e acompanhar o filme sem nem se dar conta que eles estão lá. Seu uso se torna um problema quando o excesso de referências, alegorias e símbolos transforma o filme num simples convite ao espectador a brincar de identificá-los.
Muitas pessoas podem ficar admiradas que eu não tenha ficado particularmente entusiasmado com o filme. Como cinéfilo, costumo declarar que gosto muito quando surgem filmes diferentes, originais e criativos – na forma e no conteúdo. São filmes necessários para reacender a minha paixão pelo cinema. O diretor Aronofsky já demonstrou que tem talento, muitos de seus filmes são originais e ambiciosos. Mas isso não basta. Talvez, como costuma ocorrer com tantos outros diretores, seu talento como diretor é superior a seu talento como roteirista (função que não deveria acumular, e que talvez somente o faça com medo de perder o controle sobre sua obra). Como não sou crítico de cinema, apenas um cinéfilo metido a comentar filmes, me reservo o direito de citar algum crítico quando ele teve uma mesma impressão sobre o filme mas que eu não encontrei as palavras certas para expressar. Assim comentou o crítico James Berardinelli, do site ReelViews: “talvez a chave para apreciar Mãe! (não necessariamente “gostando” ou “curtindo”) é entender que a última coisa que Aronofsky tinha em mente era fornecer um produto comercial facilmente digerível. Para esse fim, ele se entrega a seu ego com demasiada frequência e se torna míope sobre sua visão. Mãe! oferece uma experiência – se é boa ou má, isto está muito no olho do espectador¨.