(...)A narrativa, na realidade, se concentra na luta contra as forças da natureza, contra um animal instintivo e ao mesmo tempo inteligente. É uma luta também contra o frio, a fome, ou seja, é uma história de sobrevivência.
O que não ajuda é que o roteiro criou uma dramaticidade exagerada quando tenta desenvolver os conflitos pessoais e o período de luto da morte da mãe da protagonista, talvez porque o objetivo era para que haja mais complexidade na trama. Porém, ficou um elemento completamente descartável.
Além disso, outro pecado que o filme cometeu é tratar a personagem de Nancy como a imagem estereotipada da surfista californiana, com cores chamativas, pele bronzeada e trancinha no cabelo, mas, na verdade, ela é uma menina do Texas sem sequer ter o sotaque regional. Essa diferença ficou gritante. O tubarão, por sua vez, é apresentado ao espectador de uma forma bastante clássica: são fragmentos dele que vemos o que ajuda a construir uma narrativa voltada para o medo fatal do invisível. No entanto, quando vemos a criatura por inteiro ela é nada convincente parecendo até artificial.
Ainda assim, é um filme que funcionou bem como suspense, mas não como terror como foi classificado. São poucos os momentos aonde a narrativa provoca sustos, mas a tensão sempre está lá. E isto se deu muito em razão da trilha de Marco Beltrami, que consegue nos manter neste estado uma boa parte do tempo, principalmente, nas cenas quando a trilha é abafada pelo mergulho da câmara na água, criando um efeito sensacional.
Porém, o maior destaque está na direção de Collet-Serra e na fotografia de Flavio Labiano. As movimentações de câmara foram muito bem pensadas e as cenas foram bem executadas. Para o cenário, o foco utilizado demonstrou bem o ponto de vista da protagonista para a grande distância de sua localização até a praia; os ângulos plongée para a imensa extensão do mar e o isolamento da protagonista. Na narrativa, os travellings circulares, junto com as reações em primeiríssimo plano de Nancy representaram perfeitamente o estado de choque, o perigo e o risco de vida. A utilização de elipses, somente nos mostrando o horror em sua face em close-up ao presenciar um ataque de tubarão foi ótima. A atuação de Lively é convincente e preenche este lapso muito bem.
Ainda, a forma como as conversas entre a família e a Nancy via mensagem ou facetime foi colocada em tela foi realmente inovadora. É um jogo de imagens que se comportam como se fosse uma conversa mostrada em plano e contra-plano convencional: nós vemos Nancy utilizando seu celular ao mesmo tempo em que é nos mostrado o que ela está vendo.
Assim, o resultado é um filme extremamente simples em sua história, mas se torna complexo na sua execução, eis que utiliza vários recursos visuais de uma maneira inteligente, tornando-o um belíssimo trabalho.