A trama do filme não poderia ser mais simples. Uma mulher de meia idade vive sozinha num apartamento em frente à praia de Boa Viagem, em Recife. O apartamento é antigo e traz lembranças muito intensas à protagonista. O filme começa no ano de 1980, e mostra a jovem Clara com sua família. E no presente, viúva e com os filhos já criados, ela insiste em continuar morando no mesmo lugar, mantendo vivas as lembranças dos momentos inesquecíveis que vivera naquele lugar. Contudo, uma grande empresa imobiliária tem planos ambiciosos para o edifício Aquarius. Todos os apartamentos foram comprados pela companhia e só falta o apartamento de Clara para que eles consigam erguer ali outra edificação, mais moderna e segura. Mas Clara é guerreira, e contra tudo e todos ela se mantém firme em suas convicções, chegando a passar por momentos bem difíceis para manter-se ali. A câmera de Kleber Mendonça Filho (roteirista e diretor do também aclamado O Som Ao Redor) é firme, segura e mantém a atenção mesmo sendo um filme meio parado. Isso se deve ao grande talento do cineasta em narrar histórias humanas, cotidianas, sem grandes firulas, mas de maneira intensa e cheia de nuances. Mesmo o arco central não sendo dos mais cativantes, afinal, se eu fosse Clara tenho dúvidas se recusaria as propostas da construtora, o filme carrega consigo a peculiaridade de criticar de maneira incisiva o ramo imobiliário, de maneira que nunca vi antes. A força dessa mulher é algo deveras inspirador. Ela tem boas condições financeiras, não precisa viver naquele apartamento. Poderia facilmente encontrar outro lugar mais confortável pra viver, mas não. Ela tem seus princípios familiares e quer ter o direito de viver naquele lugar, por mais particulares que seus motivos sejam. A narrativa do filme é interessante, o elenco é muito bom (com destaque óbvio à Sonia Braga, espetacular, principalmente nos detalhes), e embora Clara não seja das personagens mais simpáticas, se faz inegável a torcida por ela. Uma mulher muitíssimo bem construída pelo roteiro. É um filme extremamente tendencioso ao ponto de vista da personagem, e o desfecho é bem interessante e impactante, com uma bela cena de medição de forças. E o que falar da trilha sonora? Simplesmente excepcional! Um dos principais personagens do filme, aliás. Mas a questão é que mesmo com todas essas virtudes, Aquarius me parece aquele tipo de filme que discute suas questões de maneira unilateral e seus “vilões” são caricatos. Alguns diálogos soam demasiadamente over. Mas o saldo é bastante positivo. Vale muito a pena ver um cinema nacional deste nível (que pode abalar os mais puritanos por algumas poucas cenas de nudez explícita, mas que não me pareceram aleatórias). Para ver e refletir sobre a sociedade e analisar até que ponto vai seus princípios. Egoísmo, hipocrisia, desigualdade social, abuso de poder, mau caratismo, política... tudo é misturado de maneira bem brasileira. Um belo e necessário exemplo de quão bom o cinema nacional pode ser.