Na Inglaterra, século XVII, o fanatismo religioso era predominante e muito rigoroso entre as diversas classes sociais, de tal modo que qualquer um que cometesse crimes de heresia seria expulso das comunidades, exilado para vales distantes. Sem comércio, sem médicos, basicamente entregue à própria sorte, vivendo da subsistência. É nesse embalo que “A Bruxa” traz seu desenrolar, contando a história de uma família que após cometer tal crime (pregando uma religião diferente da situada), é exilada para uma clareira nos extremos da região, próxima à uma sombria e tenebrosa floresta, que se torna o principal palco da trama, já que a mesma abriga um ser sobrenatural, explicando o principal ditado do filme: “O mal está na floresta”.
De cara pode-se notar o clima que o filme está pretenso a passar, com cenários obscuros e ambientações pesadas, buscando terror em elementos simples como a família rodeando uma fogueira em meio à noite, ou o próprio anoitecer, que vêm acompanhados de uma trilha sonora abaladora e arrepiante, forçando o espectador a ficar mais alerta, a esperar algum fenômeno, mas infelizmente nessas cenas o filme não passa disso, criando apenas um suspense barato, o que deixa muito a desejar, uma vez que altas doses de terror não são impregnadas com frequência no filme; Algo que desanima o espectador antes mesmo de que a narrativa chegue em seu ápice, o que somente acontece após muito decaimento. O diretor cria um clima que embora sombrio, é bem parado, desviando muito a atenção do espectador já que a trama não consegue prendê-la por completo.
O filme também aposta em elementos satânicos, fazendo muitas referências ao tema e usando figuras sobrenaturais durante o mesmo para que fique cada vez mais claro ao espectador a real mensagem que o filme quer passar: algo totalmente sobrenatural, que contrasta com a religião dos personagens, criando o típico clima de uma guerra religiosa desde seu início, de uma maneira furtiva, porém muito intensificada, deixando o clima do filme ainda mais pesado; Isso só toma sua real forma no final, um verdadeiro retrocesso, uma vez que a trama é mal dividida nestes quesitos, tornando a mesma desbalanceada. Por outro lado, o marketing foi bastante eficaz, com frases que se tornavam uma verdadeira incitação para que o espectador assistisse a obra, como: “Um pesadelo que irá gelar seu sangue”; “Da a impressão de que não deveríamos estar vendo”; “De abalar a alma”; “Perturbador” [...] Junto a um trailer que se mostrou muito mais amedrontador e movimentado do que todo o filme. E o que se diz das cenas de susto do mesmo, deixam muito a desejar...
Para compensar as falhas que temos na direção, é inegável que os quesitos técnicos foram muito bem aplicados, principalmente a fotografia, com seus ótimos ângulos e iluminação muito bem regulada, quase que nos transportando para o local em que algumas cenas ocorrem, junto a uma mixagem de som perfeita, o que dá ainda mais tensão em determinados momentos. Outro detalhe que não passa em branco é o figurino, que é fiel ao da época e muito bem produzido. E o que dizer dos cenários, que são esplêndidos e mórbidos, perfeitos para o desenrolar do filme. As atuações não deixam nem um pouco a desejar, principalmente a de Kate Dickie, que faz o papel da mãe de Thomasim (Anya Taylor, a principal personagem), mostrando uma incrível adaptação, provavelmente devido ao contato com um papel medieval após atuar em Game Of Thrones. Ela tornou-se uma atriz perfeita para o papel. Se poucos botavam fé em Anya Taylor para representar a jovem personagem Thomasim, certamente se surpreenderam com sua singela e dramática atuação.
Mesmo tendo todo o necessário para criar uma boa e bem desenvolvida trama, Eggers deixa muito a desejar com um filme que embora seja sempre sombrio, tem um clima parado, não é frenético, é o básico filme de terror cult, assim como “O Bebê de Rosemarie” e “The Babadook”, onde o papel artístico do filme vale muito mais do que a obra em si (somente para o diretor, é claro). Outro ponto negativo é que alguns elementos no filme só podem ser compreendidos por algumas pessoas que têm conhecimentos mais amplos sobre o assunto, mas para a maior parte do público não faz o menor sentido, tornando-se um total floop, o que pesa muito nas críticas, pois mesmo tendo uma média acima do considerado “bom”, estão chovendo, ou melhor, desabando comentários negativos sobre o filme, o que faz sua futura bilheteria e recepção serem prejudicadas ainda mais. Outro furo ainda maior foi deixar tudo para o final, criando uma cadeia acelerada de acontecimentos para cobrir a lentidão que foi predominante no meio do filme e que ainda assim, como já citado, não foi bem compreendida por boa parte do público. Boa história, bons cenários, bons atores, bom tema, péssimo desenvolvimento.
The Witch (título original) não faz jus ao gênero em que está categorizado, apresentando uma trama convencional, lenta e mal desenvolvida. Muito longe da grandeza apresentada no marketing, não ganhando o destaque esperado e tornando-se apenas mais um terror cult, e, assim como a do que vos fala, acarretado de críticas negativas.