A Bruxa, filme de terror psicológico dirigido por Robert Eggers chega prometendo e consegue cumprir.
Após o casal William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) serem expulsos de uma aldeia católica por conta de divergências religiosas, vão morar com seus filhos na selva próxima dali, mas as coisas não andam bem como esperavam: após Samuel, o filho mais novo e ainda bebê desaparecer misteriosamente, um clima pesado adorna a casa e acontecimentos estranhos ameaçam a família.
Antes de mais nada, é preciso dizer que são poucos erros no longa de Robert Eggers. Talvez o mais gritante deles — apesar do final bastante explícito que não condiz com o resto da trama em aberto —, seja o tempo. O filme, com apenas uma hora e vinte minutos de tela, chega a se apressar, levando o núcleo de personagens diretamente à "ação". A bruxa também aparece logo no início, tirando uma das vantagens do longa sobre o público, que seria o medo do desconhecido.
Por outro lado, Eggers consegue compensar o pouco tempo que tem, deixando claro que mais seria desnecessário. Invertendo o que a maioria dos filmes de terror costumam mostrar, como o Exorcista ou até mesmo Invocação do Mal, onde apresentam o bem estar e o convívio da família até o elemento terror entrar em ação, Robert joga a família diretamente para o sobrenatural, e trabalha toda a sua relação durante o clima de terror bastante perceptível, não poupando o macabro, e isso funciona muito bem — mesmo a trama se tornando lenta e arrastada em alguns momentos.
A bruxa pode aparecer no início, talvez tirando o fator medo do desconhecido, mas essa rápida aparição traz consigo o fator suspense. Ao longo que a trama vai crescendo, começamos a desconfiar de todos os familiares, pois é neles que o fator terror é centrado: as canções e encenações macabras dos gêmeos; a severidade do pai; os acontecimentos que giram em torno de Thomasin (Anya Taylor Joy), fazendo um terror no qual não tememos monstros, mas sim os próprios humanos, e deixando bem claro aqui que a bruxa que aparece no início não é o centro de atenção do longa.
Outro fator positivo é o "o quê". Mesmo com a revelação da bruxa, desconfiança cresce dentro da família, deixando muito sugestivo e aberto o que a perturba: mais ou menos a mesma técnica usada em Exorcista, onde não temos certeza se fora o tabuleiro de Ouija que possuíra Regan ou o demônio que o padre Merrin vinha investigando. Toda essa atmosfera contribui para que fiquemos à par do filme, tentando ligar todos os pontos até o grand finalle.
Cresce também a atmosfera de terror nos cenários e em animais. Os bosques, a casa, a fazenda, o coelho que aparece em algumas cenas e o bode misterioso, que acabam se tornando o desconhecido que tememos, por conta de seus respectivos acontecimentos.
Atores, como resto da trama, são impecáveis. Anya Taylor Joy e Harvey (Caleb), voltam a provar que as crianças hollywoodianas têm talento. Kate Dickie e Ralph Ineson fazem o bastante e contribuem para a instigação do público quanto ao filme.
E, fazendo novamente o inverso de filmes de terror, nos quais tratam da falta de fé e como tal é importante em acontecimentos como estes, Eggers faz exatamente ao contrário: ele trata como o excesso de fé pode chegar a nos cegar em assuntos importantes, e a época na qual o filme é sitiada contribui para a mensagem: a Inglaterra Cristã, onde qualquer fato era associado à fé, ou a falta desta.
A Bruxa, definitivamente, se torna o melhor filme de terror do ano — clássico, só o tempo irá dizer. Cercado de simbolismo tanto religioso e miticismo, Robert mescla bons elementos e constrói um bom terror. Não espere bons sustos, mas com certeza ao acabar de ver você vai sair com os acontecimentos martelando na cabeça — o bom é velho terror psicológico.
Nota: 9/10